<?xml version='1.0' encoding='UTF-8'?><?xml-stylesheet href="http://www.blogger.com/styles/atom.css" type="text/css"?><feed xmlns='http://www.w3.org/2005/Atom' xmlns:openSearch='http://a9.com/-/spec/opensearchrss/1.0/' xmlns:georss='http://www.georss.org/georss' xmlns:gd='http://schemas.google.com/g/2005' xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'><id>tag:blogger.com,1999:blog-17667459</id><updated>2011-11-05T18:23:08.166-04:00</updated><title type='text'>Ribondi</title><subtitle type='html'>contos que, pouco a pouco, vão se tornar &lt;b&gt;"o cão que dizia eu te amo"&lt;/b&gt;</subtitle><link rel='http://schemas.google.com/g/2005#feed' type='application/atom+xml' href='http://ribondi.blogspot.com/feeds/posts/default'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/17667459/posts/default?max-results=100'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://ribondi.blogspot.com/'/><link rel='hub' href='http://pubsubhubbub.appspot.com/'/><author><name>Ribondi</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07599085746902668142</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='26' height='32' src='http://cora.blogspot.com/uploaded_images/ribondi.jpg'/></author><generator version='7.00' uri='http://www.blogger.com'>Blogger</generator><openSearch:totalResults>43</openSearch:totalResults><openSearch:startIndex>1</openSearch:startIndex><openSearch:itemsPerPage>100</openSearch:itemsPerPage><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-17667459.post-113565325072556501</id><published>2005-12-26T23:13:00.000-04:00</published><updated>2005-12-26T23:14:10.756-04:00</updated><title type='text'>Razões para viver</title><content type='html'>Eu era amigo do Hominho, que se chamava Anselmo. Ele era filho de dona Alta, que se chamava Altamira. Ela era amiga da minha mãe, em Baixo Guandu, a cidade plana, quente, de ruas longas e retas na ponta do triângulo formado pelo encontro dos rios Doce e Guandu. As duas eram da Congregação Mariana e usavam véu preto quando entravam na igreja. Com a diferença de que minha mãe usava roupas coloridas, vestidos brancos com bolinhas azuis, saias vermelhas e blusas cor de creme. Dona Alta, para lembrar o marido morto, usava preto e duas alianças grossas no dedo anelar da mão esquerda. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Hominho e eu, a gente tinha oito anos, mas ele era mais baixo. E também era mais ágil e mais veloz para subir em árvores, atravessar rio, correr pelas ruas quando alguém, mais alto ou mais velho, corria atrás de nós. Eu tinha duas cachorras, a Mimosa e a Malvina. Na casa da dona Alta só tinha galinhas e porcos. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E eu estava lá, na casa dela, esperando a hora certa da minha mãe e dona Alta apanharem os véus, os missais e os terços, e saírem pra Igreja. Era em momentos assim que Hominho e eu cometíamos o nosso pecado preferido: caçar lagarta-fogo debaixo do clube, um casarão com a porta principal virada para a praça e os fundos com pernas compridas enfiadas nas águas do rio. O lugar era a nossa piscina, sendo as vigas de madeira entre as pilastras os nossos trampolins. E era também um bestiário, com lagartas, marimbondos violentos, borboletas amarelas, ninhos de passarinhos. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas na hora de sair, dona Alta ouviu o ruído no quarto dela. Vinha de algum lugar, era fino, insistente, como um coro de recém-nascidos à procura da mãe. Ninguém mais ouvia, só ela. Por isso, todo o mundo se amontoou no quarto, em silêncio, até que Hominho desse o alerta:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-Ouvi! Ouvi! É no guarda-roupa! &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Dona Alta abriu a porta do armário grande, de madeira brilhosa. Tirou casacos guardados em sacos de plástico com naftalina, tirou cobertores grossos, tirou caixas, embrulhos e pacotes. Aí, gritou:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-Ah, meu Deus! É rato!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Hominho e eu pulamos na frente das mães. Passamos entre as pernas agitadas delas e olhamos para dentro do guarda-roupa. No canto, quatro filhotes, menores que dedos, com peles tão finas e sangüíneas quanto lábios de gente muito branca, tão delicados e ingênuos quanto olhos de crianças, procuravam a mãe, que tentava fugir com eles pela boca. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Dona Alta voltou para o quarto com uma vassoura grande, de cabo comprido. Mas minha mãe pediu:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-Vamos embora, Alta. A missa já deve ter começado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E ficamos nós dois com a incumbência de dar sumiço nos bichos do guarda-roupa. Dona Alta explicou, palavra por palavra:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-Não presta, não serve pra nada, é horrível saber que isso existe. Mata e joga fora.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E ainda explicou:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-As roupas e as caixas, pode deixar. Quando eu voltar da missa, vou limpar o guarda-roupa com álcool para depois arrumar tudo outra vez.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando as duas mães saíram para rezar, com os véus, os missais e os terços, Hominho e eu nos agachamos em frente da porta do armário. Os ratinhos se espreguiçavam, esticavam as pernas e os braços, enrugavam as caras, apertavam os olhos pequenos, como se viver fosse atravessar a nado um rio largo, caudaloso e bravo. Com uma força magnífica, abriam as bocas à procura das tetas da mãe. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-Vamos levar eles embora? &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fui eu que tive a idéia. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-Mas a mãe falou pra matar e jogar fora.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-A gente não mata. Só joga fora.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E aí tiramos os sapatos pretos de dentro da caixa. Agarramos a mãe pelas patas, abraçamos os filhotes nas mãos e guardamos a família inteira debaixo da tampa de papelão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O sol estava bravo quando pegamos uma das ruas muito retas de Baixo Guandu. Atravessamos a praça, descemos a ribanceira ao lado do clube e chegamos, então, no nosso esconderijo com piscina, trampolim e bestiário. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Lá, abrimos a caixa e soltamos a mãe com seus filhotes. Ela cheirou a viga com aflição, rodou sobre o próprio corpo várias vezes, arrastou o rabo na madeira e voltou para os quatros filhos  miúdos, quase invisíveis, quase como orvalhos cor-de-rosa vivo. Depois, fomos para casa, pusemos os sapatos de volta no lugar certo e saímos para outro grande pecado, que era o de ir até o cercado da prefeitura para futucar os cavalos, que reagiam com coices bravos. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por qualquer razão, talvez até falta de tempo, ou coisa mais banal, ou motivo mais sério ainda por entender, nunca mais voltei a Baixo Guandu. Só me lembro do delta das águas, do calor, das ruas muito retas e entrecruzadas. Lembro também dos véus, dos missais e do sino da igreja. E me lembro de 30 anos depois, quando minha mãe me perguntou, como quem, subitamente, puxa pela memória a notícia que já era para ter sido dada há mais tempo:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-Sabe o Hominho?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Olhei para ela, sentada na sombra da castanheira na beira da praia. Os olhos da minha mãe brilhavam. A boca se preparava para anunciar a tragédia. Eu ainda estava em silêncio, na observação desse desenho materno, quando ela completou a frase:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-Se matou. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Esperou que eu reagisse. E continuou:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-Tem uns dois anos já. Encontrei a dona Alta e ela me disse. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Então eu me remexi por dentro para querer saber as razões para se matar. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-Coitado, não agüentou. Tinha dívidas enormes, a mulher dele foi embora com os filhos. Chegou um dia em casa e deu um tiro nas têmporas. Que horror, meu Deus.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pensei nele. E aí lembrei também que Hominho era capaz de atravessar, como ninguém, o encontro do Guandu com o rio Doce. Que sabia subir, sem escorregar, as pedreiras do morro atrás da serralheria. E que sabia levar ninho de passarinho de um lugar para outro sem machucar os ovos. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas foi então que voltou a voz da dona Alta, quando saía de casa, amarrada no luto, presa ao missal. Foi ela quem disse:  &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-Não presta, não serve pra nada, é horrível saber que isso existe. Mata e joga fora.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/17667459-113565325072556501?l=ribondi.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://ribondi.blogspot.com/feeds/113565325072556501/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=17667459&amp;postID=113565325072556501&amp;isPopup=true' title='108 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/17667459/posts/default/113565325072556501'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/17667459/posts/default/113565325072556501'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://ribondi.blogspot.com/2005/12/razes-para-viver.html' title='Razões para viver'/><author><name>Ribondi</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07599085746902668142</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='26' height='32' src='http://cora.blogspot.com/uploaded_images/ribondi.jpg'/></author><thr:total>108</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-17667459.post-113556457655052399</id><published>2005-12-25T22:35:00.000-04:00</published><updated>2005-12-26T09:15:00.490-04:00</updated><title type='text'>A traição</title><content type='html'>Ti-Jean e Chris tinham uma vida inteira de coisas em comum. Além de serem amigos de infância, desde os primeiros dias de ir à escola, eram também, os dois, cada um do seu jeito, muito bonitos. Ela, a Chris, se serpenteava quando caminhava, com passos lentos, pelas ruas de Sète, onde a França se despenca em falésias para dentro do Mediterrâneo. Ele tinha o andar empinado, rígido, e, sem se importar com dias quentes ou dias frios, escondia as mãos nos bolsos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ti-Jean tinha os olhos insuportavelmente azuis e, por serem grandes e redondos, refletiam o azul contra o sol, contra a lua, contra as lâmpadas de dentro de casa. Ela tinha olhos amendoados, verdes, e, por isso, era conhecida como “Chris aux yeux de chatte”. Era Chris dos olhos de gata. Moravam juntos e dormiam na mesma cama do apartamento velho perto do mar. Numa almofada grande da sala, dormia Rita, chamada Ritá. Era a cadela sem raça, preta, de pernas compridas e olhar sonhador. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ritá era uma farejadora contumaz. Cheirava tudo. De manhã bem cedo, esfregava o nariz na cama onde Ti-Jean e Chris tinham passado a noite. Vasculhava cada pedaço do lençol e das fronhas, numa intimidade assustadora e ciumenta. Depois, entrava no banheiro grande, de paredes pardacentas, e cheirava a toalha pendurada, o rolo de papel higiênico, a borda da banheira, a calcinha ou a cueca deixadas no chão. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas sonhava por Ti-Jean e era ele quem ela mais cheirava. Com o focinho úmido e gelado, percorria os óculos dele, à procura dos olhos azuis cintilantes. O nariz preto e carnudo arfava, se dilatava num ritmo acelerado e miúdo, enquanto cheirava as pernas dos óculos desde a parte atrás das orelhas até as lentes grossas, de míope grave. Gostava também de lamber as sobrancelhas do homem com quem sonhava. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um dia, as coisas em comum se embaralharam, se intricaram, ficaram confusas e Ti-Jean e Chris decidiram que não iam mais viver juntos. Ele foi ríspido, seco, e viajou para Paris. Queria, finalmente, procurar emprego na cidade onde tinha nascido e que tinha deixado anos antes para viver no calor do sul do país. Chris e Ritá ficaram. Chris chorou na cama, atrás da porta, na cozinha, no banheiro, nas escadas do prédio e nas ruas, por onde andava malemolente e bela com os olhos verdes infernais. Ritá, não. Esperou três dias no corredor onde se abria a porta da rua. Depois, esperou na cozinha, no quarto e no banheiro. Mas não chorou. Apenas esperou.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Até que Chris chegou em casa e não encontrou a cadela preta. Procurou, primeiro, em todos os quartos e cômodos trancados do apartamento velho e imenso. Foi desde a porta da rua até o último quarto, nos fundos, atrás da parede onde ficava a lareira abandonada.  Depois, procurou nas ruas, nas praças, nas alamedas. Pôs anúncios em bares, cafés e restaurantes. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E só aceitou o sumiço quando, um mês e meio depois, Ti-Jean voltou para fazer as malas de vez e apanhar Ritá, que havia desaparecido. Ele, com o rosto vermelho e os olhos azuis molhados de lágrimas traídas, xingou e acusou Chris que, então, se trancou no quarto e chorou sobre os olhos verdes. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas oito meses depois, ele voltou a aparecer em Sète, e viu, de perto, com uma proximidade quase provocadora, que Chris, sem sair do apartamento grande, inútil e velho, de paredes pardas, esquecia-se dele aos poucos. Para isso, ela abraçava, beijava e ouvia palavras de amor de Luc, o provençal, com olhos castanhos como os de Ritá.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Assim, Ti-Jean disse que ia ficar na casa de Poupette, a amiga enfermeira e gorda, que morava fora da cidade, num campo rodeado de lavandas e rosmaninhos. E foi lá, caminhando no bosque francês, de árvores mansas e flores suaves, que ele, um dia, ouviu um latido fino, sonhador, vindo de um quintal cercado por muro alto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Olhou pelo portão. Lá dentro, a cadela preta, de pernas compridas, brincava com uma bola, vermelha e azul como a bandeira da França. Da sala da casa, uma mulher viu Ti-Jean no portão. Devagar, com cuidado e atenção, abriu a porta para perguntar o que ele queria. E chamou a cachorra:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-Milou!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E foi quando a Milou se levantou para ir até a mulher, que Ti-Jean, com o coração contorcido, com a voz embalada pela saudade, também chamou:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-Ritá! &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A cachorra parou. O som veio de longe, de algum lugar remoto, de memórias velhas. Surpresa, olhou para o portão. Esperou, arfou o focinho e, só então, se preparou para correr em direção aos antigos olhos azuis. Pôs as patas da frente nas grades do portão, abanou o rabo e ganiu baixo, fino. Era o coração dela que também se contorcia. Em seguida, enquanto a mulher se aproximava, Ritá correu para dar a volta em todo o quintal. Ti-Jean e a mulher já estavam próximos um do outro. A cachorra apareceu na rua, solta e tonta de felicidade. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ti-Jean decidiu que não ia explicar nada. O portão estava fechado, a mulher teria que voltar para apanhar a chave. Ele, então, se afastou com passos rápidos e chamou:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-Ritá, viens!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela foi. Levantou novamente as patas e se apoiou nas pernas dele. Cheirou as calças, a cintura, as mãos, a braguilha onde permanecia, forte e vivo, o mesmo aroma do lençol de antigamente. Os ganidos eram marcados pelos movimentos firmes e quase desesperados do rabo preto. &lt;br /&gt;A mulher gritou:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-Milou, Milou!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A cachorra abaixou as patas e olhou para o portão. Sorriu. Olhou para Ti-Jean. Chorou com sons finos, quase inaudíveis. Abaixou a cabeça. Ele pediu que ela continuasse ao lado dele, mas a mulher voltou a chamar. Ritá parou. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A mulher e o homem se olharam. A cadela, preta como um pedaço de noite sem lua, voltou para perto de Ti-Jean e cheirou tudo, com a alegria ávida e tresloucada dos reencontros súbitos que não servem para nada, que não aliviam a saudade nem a pena da separação. Então, latiu alto, com raiva, maldade e dor. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Correu de volta pela rua até reaparecer no quintal, atrás do portão. Sem tirar os olhos de Ti-Jean, viu quando ele se afastou e começou a ir embora. Ela lambeu a mão da mulher e, mais uma vez, com ansiedade, correu para fora. Ele acelerou o passo, como quem foge, e ela acompanhou Ti-Jean. E chegaram na curva, onde a estrada estreita se sombreava com as copas das árvores mansas. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela parou e ficou sentada. Queria só ver Ti-Jean mais um pouco e esperava que ele desaparecesse das vistas dela. Ele, antes de sumir, ainda se virou para trás e pediu, sem dizer nada. Ela não se moveu. Ti-Jean olhou para a frente, como um homem traído, incapaz de contar o que sente e o que dói. Quis ficar, quis falar, mas foi embora. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela latiu e os latidos, debaixo das árvores de grandes copas, falavam dos olhos azuis dele, que não esqueceria nunca. Tremeu o focinho, guardou para sempre o cheiro de Ti-Jean e, sem querer deixar dúvida sobre a façanha de ser feliz após cada traição, voltou para casa.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/17667459-113556457655052399?l=ribondi.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://ribondi.blogspot.com/feeds/113556457655052399/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=17667459&amp;postID=113556457655052399&amp;isPopup=true' title='14 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/17667459/posts/default/113556457655052399'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/17667459/posts/default/113556457655052399'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://ribondi.blogspot.com/2005/12/traio.html' title='A traição'/><author><name>Ribondi</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07599085746902668142</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='26' height='32' src='http://cora.blogspot.com/uploaded_images/ribondi.jpg'/></author><thr:total>14</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-17667459.post-113320930354629422</id><published>2005-11-28T19:21:00.000-04:00</published><updated>2005-11-28T16:21:43.566-04:00</updated><title type='text'>O vizinho</title><content type='html'>Quero falar de um homem, que é o meu vizinho. Talvez, com quase absoluta certeza, o meu cachorro Negão seja mais indicado para falar dele porque foi ele, o cão, que chegou perto, cheirou e ofereceu a cabeça para que a mão do homem tocasse e acarinhasse. Eu, não. Eu fiquei apenas com a parte que nos toca, que são as palavras. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O meu vizinho usa, sempre, bermuda e camiseta de aposentado. Tem cabelos grisalhos. E os olhos baixos, como quem olha para a terra e nunca para as pessoas. A primeira vez que nos vimos era de manhã muito cedo, quando o sol ainda é úmido e doce e se espalha sobre a grama como se pudesse gotejar. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele estava lá, em pé, em silêncio. Passei perto, não disse nada. Ele não deve ter me visto. Olhava para o chão e para a grama radiante com o sol dos primeiros minutos do dia, que são sempre calmos e serenos.  Talvez seja mesmo verdade que ninguém sofre entre as cinco e meia e as seis horas da manhã. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Dias depois, conversamos. A conversa, na verdade, começou entre o meu vizinho e o Negão, que se aproximou para cheirar o ponto do chão para onde ele olhava de maneira persistente e fixa. Ele, o vizinho, sorriu. Negão se aproximou e cheirou as pernas, as mãos, a barriga. Aí, ficou sentado e recebeu carinhos na cabeça. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nós dois fizemos a nossa parte:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-Bom dia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-Bom dia. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um ano antes, eram três da madrugada quando bateram na porta da casa dele para avisar que o carro do filho único, de 24 anos, tinha se espatifado contra uma árvore. O corpo esperava para ser enterrado. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele me contou isso como se já não fosse nada de mais. O filho único estava morto. Até mesmo olhei para os olhos deles para ver se algum sinal, alguma dor, lástima, pena, dó, saltava das pupilas. Tudo estava intacto. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Cinco meses depois, a mulher dele, por não agüentar a certeza da morte do filho, decidiu tomar o mesmo rumo. Deixou o coração se arrebentar e foi embora. O vizinho então ficou no apartamento igual ao meu: três quarto, mais um para a empregada, dois banheiros, sala, cozinha e área de serviço. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas na cozinha e na área de serviço, e também no corredor que leva para os quartos, as paredes estavam furadas por pregos onde ele pendurava as gaiolas dos passarinhos. De tamanhos, cores e penas variadas. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Era lá, no apartamento, que o homem sozinho, sem mulher e sem filho, convivia com uma multidão que cantava, batia as asas, pulava de poleiro em poleiro e, mais que tudo, mais que nunca, mantinha viva a vida. Porque a vida é como os olhos: coisa pequena, delicada, apenas uma película muito frágil, e que, ao mesmo tempo, é capaz de abarcar o mundo inteiro. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Era isso que ele entendia quando estava acompanhado dos seus passarinhos espalhados pelo apartamento vazio. Até o dia em que ele colocou ovos numa panela com água no fogo para, depois, alimentar os amigos. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E, aí, procurou o sofá para se sentar. Sentado, pensou na mulher, no filho, era fim da madrugada, não tinha barulho que viesse de fora, e ele dormiu sentado. Quando acordou, uma fumaça densa saía da panela deixada em cima do fogão. A água tinha fervido e secado. Os ovos estavam pretos, queimados e grudados no fundo da panela. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele tossiu quando entrou na cozinha. E nas paredes, em todas as paredes da casa onde tinha gaiolas penduradas, estavam os corpos dos passarinhos sufocados. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-Eu abri as gaiolas, uma por uma. Peguei os passarinhos, um por um. Coloquei em cima da mesa, um corpo ao lado do outro. Ao lado deles, minha mulher e meu filho. Era como se eles dois estivessem ali também.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele desceu as escadas do prédio, o mesmo prédio em que eu moro, e foi até a grama, que ainda estava escura no fim da madrugada. Com uma colher, abriu pequenos buracos e enterrou todos, um por um. Até que, finalmente, conseguiu também enterrar, de uma maneira pessoal e particular, a mulher e o filho. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O Negão cheirou a mão dele, sem tocar o focinho. Ele acariciou o cachorro, outra vez. Nós, de novo, fizemos a nossa parte:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-Deve ser difícil para você. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-A gente se acostuma. E vai levando a vida. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Olhei para o Negão, calmo e firme como um anjo, sentado sobre a terra do pequeno cemitério do meu vizinho.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/17667459-113320930354629422?l=ribondi.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://ribondi.blogspot.com/feeds/113320930354629422/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=17667459&amp;postID=113320930354629422&amp;isPopup=true' title='31 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/17667459/posts/default/113320930354629422'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/17667459/posts/default/113320930354629422'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://ribondi.blogspot.com/2005/11/o-vizinho.html' title='O vizinho'/><author><name>Ribondi</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07599085746902668142</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='26' height='32' src='http://cora.blogspot.com/uploaded_images/ribondi.jpg'/></author><thr:total>31</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-17667459.post-113284186955222989</id><published>2005-11-24T13:15:00.000-04:00</published><updated>2005-11-24T10:17:49.573-04:00</updated><title type='text'>Uma coisa que aprendi com ele</title><content type='html'>&lt;a href="http://photos1.blogger.com/blogger/5241/1707/1600/Negao1.jpg"&gt;&lt;img style="display:block; margin:0px auto 10px; text-align:center;cursor:pointer; cursor:hand;" src="http://photos1.blogger.com/blogger/5241/1707/320/Negao1.jpg" border="0" alt="" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O meu cachorro Negão, que, quando não está encardido, é todo branco, e mede 1,75m em pé, o que basta para que passe a língua na ponta do meu nariz sem grandes esforços, tem alguns medos. E é incapaz de negociar, já que faz questão de deixar bem claro que medo é medo, e que ser adulto não significa desmerecer o que grudou à personalidade desde os primeiros meses de vida. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele tem medo de cachorro pequeno, destes bem miudinhos, que levam a vida como bibelô. Quando eles latem irritantemente fino, várias vezes, o meu Negão recolhe as orelhas, guarda o rabo e se esconde, inteiro, atrás das minhas pernas. Talvez por tique nervoso, lambe o próprio focinho várias vezes, o que serve para mostrar a angústia que está sentindo no momento do cruel ataque do cachorrinho, que costuma vir com laços nas orelhas ou no alto da cabeça. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tem medo, ou seria melhor dizer pânico, do barulho dos plásticos ao vento. E nisso é irredutível: não entra em carro que tenha, solto no banco traseiro ou dianteiro, alguma sacola de supermercado, não anda do lado do meu corpo onde estiver a mão que carrega compras de padaria e mercearia e, principalmente, se arrepia até os confins do rabo quando vê imensos sacos de lixo deixados na calçada à espera do caminhão de lixo. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Também se assusta com pessoas, qualquer uma, que se aproximar com alguma coisa, qualquer coisa, na cabeça. Pode ser chapéu, boné, filho novinho levado no cangote do pai, vendedor ambulante que carregue espelhos, cestos de vime, trouxas de artesanato. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Estes medos são coisas dele e eu respeito. Também respeito os faniquitos dos amigos humanos quando gritam diante de baratas ou ratos, que, a bem da verdade, são bichos que não me provocam nada – nem asco. Compreendo (sem esconder um certo risinho, é bom que se saiba) quem tem pavor a túneis, barcos em mar aberto, trovões e relâmpagos, assim como espero que compreendam o  pânico primordial que se instala no meu corpo quando tenho que me sentar numa poltrona que, depois, levanta vôo e cruza os oceanos. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas, às vezes, acontece que o meu Negão não mostra medo. Mostra, pelo contrário, desagrado e certa revolta. Sei disso porque os pêlos da nuca se arrepiam, ele dá dois passos para trás e se coloca em posição de ataque. Já tentei convencer o meu cachorro de que não gostar de uma ou outra pessoa é contingência da vida em sociedade, mas que, por isso mesmo, é preciso uma certa diplomacia e um bom fingimento sobre estar tudo bem. Ele discorda. É sincero e espontâneo demais. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na padaria onde gosto de tomar o café da manhã nos domingos, depois de uma longa caminhada a dois, veio, uma vez, uma moça loira fazer afagos no Negão. Chamego é coisa que ele nunca recusa, mas, desta vez, notei, logo na primeira aproximação, que os arrepios do pêlo da nuca tinham começado. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A moça bonita e loira falou:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-Mas que cachorro bonitão, meu Deus do céu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Que ele é bonito, eu sei. Todo mundo sabe e quem não percebe isso é insensível e insensato. Ou incapaz de se enternecer com as belezas que a vida oferece. Pelo tom de voz da moça bonita, vi que era um travesti: uma voz que nasceu para ser rouca e que, a custa de alguma esforço, se afinou com falsidade e, por isso, ficou mais bamba na boca do que dentadura de dentista ruim. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele latiu. Achei estranha a reação porque, com toda a sinceridade, não criei um cachorro para ter rejeição à vida íntima das pessoas. A moça ainda insistiu um pouco e quis se aproximar mais. O meu Negão se levantou, mostrou que era alto, e latiu de jeito bem grosso, que é um latido que ele reserva para situações extremas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A moça então, com um sorriso gentil, doce e compreensivo, me contou:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-Não é culpa dele, sabe? É que sou alcoólatra. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E me olhou. Eu olhei também e alguma coisa, tão frágil e imperceptível quanto o sereno do começo das noites, me convenceu que ela, apesar de bonita, já tinha se acostumado a ser evitada e pouco amada. A moça, então, ficou parada ali, em pé, na frente do Negão. Tudo nela queria fazer carinho nele e tudo nele queria evitar o que devia tresandar a bebidas. Ela pedia carinho, de quem fosse: meu, do meu cachorro, das outras pessoas na padaria. Sabia sorrir, mas era sorriso vazio, solitário, perdido. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Acariciei a nuca do meu Negão. Ele se acalmou. Pouco a pouco a moça bonita chegou mais perto. O meu cachorro ainda relutou um pouco, mudou de posição algumas vezes, lambeu o focinho, que é coisa que faz quando está ansioso. Mas, depois, de mansinho, deixou que a mão dela tocasse o pêlo branco dele. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E foi bem ali, naquele momento quase banal em varanda de padaria, que compreendi mais ainda o que tenho tentado compreender há anos. Que é também com a sinceridade das nossas próprias mazelas, amarguras, infelicidades, azares, que a gente ganha e merece afeto, carinho e doçura.  &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele não desejou nem quis que ela deixasse de ter o cheiro das bebidas. Fechou os olhos cor de mel e aceitou o afago. Esta capacidade de ser bom e de amar a pessoa exatamente como ela se apresenta é o que estou aprendendo com o meu Negão.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/17667459-113284186955222989?l=ribondi.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://ribondi.blogspot.com/feeds/113284186955222989/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=17667459&amp;postID=113284186955222989&amp;isPopup=true' title='30 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/17667459/posts/default/113284186955222989'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/17667459/posts/default/113284186955222989'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://ribondi.blogspot.com/2005/11/uma-coisa-que-aprendi-com-ele.html' title='Uma coisa que aprendi com ele'/><author><name>Ribondi</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07599085746902668142</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='26' height='32' src='http://cora.blogspot.com/uploaded_images/ribondi.jpg'/></author><thr:total>30</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-17667459.post-113223610214676267</id><published>2005-11-17T12:01:00.000-04:00</published><updated>2005-11-17T10:01:42.170-04:00</updated><title type='text'>Os dois filhos de Shantung</title><content type='html'>Vítor Emanuel era mais velho que Miguel, mas eram, os dois, filhos de Shantung, a gata que se recusou a morar em Brasília e se mudou para a Vila Mateus, a casa da roça, com varanda, janelas azuis e parede branca e plantas e flores que nunca freqüentaram xaxins ou vasos de cerâmica. Desde que nasceram, viveram sempre em latas de óleo furadas no fundo a golpes de prego.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vítor Emanuel era magrelo, com olhos enormes, todo preto. Apenas uma marca branca no pescoço, debaixo do queixo, parecia ser uma gravata borboleta. Por isso, por essa elegância de berço, recebeu nome pomposo, que ele sempre recusou, por ser do campo – sendo, desta forma, conhecido como Flecha. Mas era Vítor Emanuel. Pelo mesmo para mim. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E era Flecha por causa da extrema velocidade, em qualquer situação. Para correr atrás de fêmeas, para afugentar machos, para se recolher diante de qualquer ameaça de afago que era, das atividades humanas, a que ele mais detestava e evitava. Somente a mãe, a pequena Shantung, tinha autoridade sobre ele, inclusive para dar lambidas amorosas e patadas violentas. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Miguel era o contrário: gordo, muito gordo, todo branco, com um traço preto entre os olhos, como se fosse uma pincelada fortuita da Tomie Otaki. Por isso, não era bem um gato. Era uma instalação artística. Além disso, era a felicidade com formas de felino. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tudo nele era feliz. O meneio do rabo, os movimentos precisos das orelhas, o olhar esperto, a gordura excessiva, a brancura do pêlo e o miado sedutor. Além disso, de uma maneira muito peculiar, Miguel tinha nascido para ser rico e viver no luxo, para dormir em almofadas de seda oriental, para beber água mineral francesa e comer filé minhom. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando a mãe morreu, Miguel subiu no galho mais alto da árvore mais alta do quintal da Vila Mateus e ficou lá um dia inteiro. Queria, a seu modo, evitar a visão da tristeza que foi enterrar a dona da casa. Ele tinha a obrigação de ser feliz. Tinha sido gerado para isso, Miguel sabia. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vítor Emanuel, que nunca entrava na casa, que nunca relaxava nem mesmo quando se deitava ao sol no muro baixo da varanda, que não consentia aproximações humanas, ficou subitamente imóvel diante do corpo de Shantung. Depois, passo a passo, como se pisasse em veludo precioso, chegou perto e cheirou, como se não quisesse tocar, todo o corpo da mãe. Depois, cheirou também demoradamente o ar, olhou, pela primeira vez, para cada uma das pessoas que se reuniam em volta do corpo, deu um pulo grande, forte, até o alto do portão da cerca e observou a paisagem goiana. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De lá, foi embora depois de se despedir apenas da mãe, e de mais ninguém. Sem olhar para trás, sem se importar com os três anos de vida vivida ali na casa branca de janelas azuis, desapareceu para sempre. Eu ainda esperei Vitor Emanuel, o grande Flecha, por alguns dias. Ainda coloquei água e comida para ele, no mesmo canto da varanda, mas, pouco a pouco, compreendi que era ela, a gata bonita, a única razão para ele conviver entre pessoas. E se ela tinha ido embora, era chegado o momento, para ele, de fazer a mesma coisa. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Miguel, não. Dias depois da morte da mãe, virou adulto. Perdeu alguns quilos, resolveu ser esbelto, e ganhou um interesse vivo, acentuado, premente, por todas as gatas da vizinhança. E cada uma delas, grávida, ia morar no quintal da Vila Mateus. Às vezes, a ninhadas nascia debaixo do pé de lima. Outra vezes, dentro do galinheiro velho. Ou entre os pés de mandioca. Do muro da varanda, Miguel observava, com um certo ar de maturidade, os novos filhos que, com pernas ainda bambas, se aventuravam na grande e inesquecível experiência de conhecer o mundo. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Miguel tornou-se um grande amigo meu. O sorriso dele, permanente, escorria na minha alma com uma gentileza e uma doçura que se imprimiram nas fibras do coração para sempre. Quando subia no meu peito, dobrava as pernas e se tornava um novelo de lã, ronronava como quem conta segredos e faz declarações de amizade eterna. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na companhia de Lula, o cachorro, ele passou também a cuidar da casa. Lula se ocupava dos outros cães, dos cavalos, das vacas lerdas que insistiam em comer os pés de milho ainda no broto. Miguel era responsável pelas maritacas que iam tomar café da manhã nas bananeiras e no abacateiro, e também se responsabilizava pelos outros gatos machos. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E tinha o dom da coisa. Cada gato que pulava a cerca e se arriscava no território era motivo de alarde e algazarra. Miguel pulava no parapeito da janela, se arrepiava do rabo até os bigodes, emitia sons roucos, apertava as orelhas para trás e partia para o ataque, com um sorriso de satisfação imenso. Quando a luta acabava, ele voltava, com o rabo e os pêlos mais reluzentes e felizes do que nunca, e contava os detalhes da batalha. Miava alto, como para anunciar que o reino ainda era dele. E, depois, se enroscava no cobertor eternamente estendido sobre a cama de casal, unhava cada pedaço dele, e só então se deitava. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Até que um gato aventureiro foi mais forte e traiçoeiro. Nem mesmo Lula conseguiu acudir a tempo. Uma mordida forte no pescoço paralisou Miguel, que caiu no chão com a brancura do pêlo manchada de vermelho vivo e jovem. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Olhei para ele. Acho que ainda sorria. Era um sorriso suave, amigável, o que marcava a boca do Miguel, deitado na laje debaixo do caramanchão de boungainvilles. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Compreendi. Ele tinha vivido e morrido como quis. Na alegria sem fim de ser Miguel.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/17667459-113223610214676267?l=ribondi.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://ribondi.blogspot.com/feeds/113223610214676267/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=17667459&amp;postID=113223610214676267&amp;isPopup=true' title='9 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/17667459/posts/default/113223610214676267'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/17667459/posts/default/113223610214676267'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://ribondi.blogspot.com/2005/11/os-dois-filhos-de-shantung.html' title='Os dois filhos de Shantung'/><author><name>Ribondi</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07599085746902668142</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='26' height='32' src='http://cora.blogspot.com/uploaded_images/ribondi.jpg'/></author><thr:total>9</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-17667459.post-113205375351280742</id><published>2005-11-15T07:21:00.000-04:00</published><updated>2005-11-15T11:32:38.890-04:00</updated><title type='text'>O mundo raro</title><content type='html'>A arraia mora no fundo das partes mais fundas dos rios profundos porque, lá, a comida é boa e farta. Há quem prefira ter uma em casa porque, com o rabo comprido e a leveza no jeito de nadar, como se fosse uma pipa levada pelo vento, ela pode ser enfeite de aquário. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas tem ferrão violento, e foi assim que o meu pai, pescando no rio Guandu, no ponto em que ele deságua no rio Doce, sentiu uma ferroada quase mortal no dedo indicador. A dor começa imediatamente. São marteladas fortes quando o veneno entra e faz borbulhar o sangue. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Foi aí que Ronaldo, o companheiro das pescarias, lembrou do remédio mais efetivo contra ataques de arraia: xixi de mulher grávida. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O mundo é lugar de coisas eficientes, mas raras. Quando o rio Guandu encontra o rio Doce e faz um delta manso e barulhento, a paisagem, no extremo oeste do Espírito Santo, fica mais elegante, e o encontro das águas enfeita tudo – o pasto, as taboas, as pedras, o sol refletem os rios e brilham de maneira ofuscante. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E o caráter raro do mundo surge justamente quando, depois de uma dificílima picada de arraia, o acidentado tem que encontrar, ali mesmo, uma mulher que leve filho na barriga. E que esteja com vontade de fazer xixi. Mas, a bem da verdade, o mundo inteiro sempre foi salvo pela conjunção de raridades. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por isso é que um dos homens que também pescavam no rio Guandu estava para ser pai e sua mulher, já avançada nas artes da gravidez, estava em casa, que não era longe dali. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Enquanto meu pai se contorcia e espremia o dedo ferido com a outra mão, para suportar a dor que insistia em se espalhar pelo braço todo, o Ronaldo pediu:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-Ela pode ajudar? &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele relutou. Olhou para Ronaldo, olhou para o meu pai. Naquela época, eram todos homens novos, forte e bonitos. E, além disso, um dele estava com o dedo hirto, grosso e inchado. Parecia ser intimidade demais. Mas meu pai já estava sentado numa das pedras da beira do rio e mal conseguia falar. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Chamaram a grávida que veio em seguida perguntar o que era. Explicaram. Ela deu dois passos para trás. Olhou o marido, que também não sabia muito bem o que dizer. Meu pai se deitou sobre a pedra. Já não conseguia dizer mais nada. Os olhos dele, a pele, os cabelos, a boca avisavam que doía. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ronaldo tentou ser razoável:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-É como todo o respeito, não é hora de abusar de ninguém. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A emergência, então, foi montada. O marido, cuidadoso, providenciou um pedaço de pano que foi usado para cobrir os olhos do meu pai. Foi ele também, o marido, que esticou o braço do meu pai sobre a pedra pra que mão e corpo ficassem na maior distância possível um do outro. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os outros pescadores foram retirados do local, ficando apenas a vítima, a grávida e o pai da criança por nascer. Foi nesse momento que ele perguntou:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-Sua bexiga está cheia?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não estava. Ele foi até a casa, apanhou uma moringa pequena e um copo. Ela bebeu. Voltou a beber. Bebeu mais. Esperou. Meu pai se contorcia. Ela, talvez até por dó, sentiu que estava na hora. O marido apertou mais ainda o pano sobre os olhos do meu pai e chamou a esposa:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-Vem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela se aproximou, retirou a calcinha, levantou um pouco o vestido e, em silêncio, agachou-se sobre a mão do meu pai. Fez um pequeno esforço e, aí, o xixi, quente, vibrante, forte, tocou o dedo ferido. A vítima ficou imóvel, à espera do milagre.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E, depois, ela mesma, por saber, como esse jeito feminino de saber quase tudo, que era capaz de criar vida, alimentar, ensinar a falar, empurrar para crescer e ficar forte e, também, capaz de salvar, espalhou, com a própria mão, o xixi sobre o dedo ferido, como quem espalha ungüento em machucado de filho. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vestiu a calcinha e avisou que o pano já podia ser retirado dos olhos do meu pai. Eles se olharam, com timidez, mas ele sabia que era devedor dela. E sabia também que o sexo feminino é muito mais do que um homem pode supor ou querer. Ele é a porta do mundo. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Meu pai agradeceu em voz baixa e ela, em voz baixa também, disse:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-De nada. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E voltou para casa. Os pescadores voltaram pouco a pouco. A dor se rendia, o dedo começava a relaxar. Meu pai continuou sentado sobre a pedra, ouvindo o barulho constante, ritmado, gentil das águas do rio Guandu entrando para sempre no grande rio Doce. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E viu, com os olhos dele, que tudo brilhava: as terras baixas do Espírito Santo, o pasto que ladeava os rios, as pedras roliças e lisas, o céu e as coxas da mulher, que também devem ser mencionadas quando se fala das belezas do mundo raro.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/17667459-113205375351280742?l=ribondi.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://ribondi.blogspot.com/feeds/113205375351280742/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=17667459&amp;postID=113205375351280742&amp;isPopup=true' title='9 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/17667459/posts/default/113205375351280742'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/17667459/posts/default/113205375351280742'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://ribondi.blogspot.com/2005/11/o-mundo-raro.html' title='O mundo raro'/><author><name>Ribondi</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07599085746902668142</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='26' height='32' src='http://cora.blogspot.com/uploaded_images/ribondi.jpg'/></author><thr:total>9</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-17667459.post-113197177610646457</id><published>2005-11-14T11:27:00.000-04:00</published><updated>2005-11-14T08:36:16.123-04:00</updated><title type='text'>O primeiro final de semana</title><content type='html'>Parece que ...E por falar em homem... está dando certo.&lt;br /&gt;Casa sempre cheia de gente, cadeirinhas extras. &lt;br /&gt;E,sobretudo, acabaram-se os desastres. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Exceto, ontem, claro. Contei uma historinha, o público caiu na gargalhada e eu não resisti. Ri junto.&lt;br /&gt;E ri, ri, ri, ri. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na cabine, Abaetê, o iluminador, dava gargalhadas deliciosas, irresistíveis. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sensações deliciosas: &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-chegar ao teatro e a bilheteira informar, com um sorriso gostoso, que já está tudo vendido; &lt;br /&gt;-ouvir o burburinho animado do público naqueles cinco minutos antes da peça começar; &lt;br /&gt;-ouvir o silêncio súbito quando é dado o terceiro sinal e a luz se apaga - é quase uma solenidade, isso; &lt;br /&gt;-ajeitar-se na coxia, pigarrear, esfregar as mãos quando faltam 30 segundos para você colocar o pé no palco e&lt;br /&gt;-pisar no palco e encarar as pessoas que, com apreensão, esperam para ver o que vai acontecer. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Isso que acabei de dizer aí em cima é como se fosse um vício. O prazer entrar no sangue da gente e, pronto, você sempre quer mais uma dose. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Bom, a partir de quinta tem mais. Aleleuia.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/17667459-113197177610646457?l=ribondi.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://ribondi.blogspot.com/feeds/113197177610646457/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=17667459&amp;postID=113197177610646457&amp;isPopup=true' title='13 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/17667459/posts/default/113197177610646457'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/17667459/posts/default/113197177610646457'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://ribondi.blogspot.com/2005/11/o-primeiro-final-de-semana.html' title='O primeiro final de semana'/><author><name>Ribondi</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07599085746902668142</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='26' height='32' src='http://cora.blogspot.com/uploaded_images/ribondi.jpg'/></author><thr:total>13</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-17667459.post-113179660265381015</id><published>2005-11-12T10:56:00.000-04:00</published><updated>2005-11-15T09:39:02.530-04:00</updated><title type='text'>A estratégia dos tomates</title><content type='html'>A Turca morava, ela e um cachorro, num casarão antigo, amplo, estranhamente vazio. Ela era bonita, e os cabelos dela, pretos, crespos e alvoroçados, quando estavam presos por uma fita, lembravam um ramalhete de flores, ramos e capins prontos para serem dados de presente. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas o casarão era estranho. A porta de entrada era grande, tinha duas bandas, que sempre se abriam juntas, como se fosse uma solenidade ir visitar a Turca e entrar na sala onde, perdida no meio de um espaço imenso e silencioso, tinha apenas uma mesa simples, de madeira, e seis cadeiras que combinavam. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E era lá que minha mãe, a costureira da cidade, ia quando queria comprar lingerie, malhas, lenços finos e exemplares da revista alemã Burda. Os produtos da Turca estavam sempre empilhados em cima da mesa, como se a casa dela fosse uma loja em permanente liquidação. Zelosamente, minha mãe enfiava a mão no monte de panos e puxava, pela cor, o que achava mais bonito.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu não gostava do casarão da Turca. Tudo parecia triste, solitário, encardido. E a imensidão do espaço me deixava desorientado. Por isso, eu me sentava numa cadeira e ficava ali, sem dizer nada, à espera do fim das compras.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas a Turca sabia tratar bem os fregueses dela. Então, olhou para mim e me perguntou se eu queria comer alguma coisa. Em situações assim, estando na casa dos outros e recebendo uma oferta, um ritual sagrado tinha que ser comprido à risca. Antes de responder, era obrigatório, para mim ou para qualquer um dos meus dois irmãos, olhar, com discrição, para a minha mãe e esperar pelo consentimento ou pela proibição, que vinham em forma de um leve, imperceptível para olhos não acostumados, meneio da cabeça.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu fiquei calado, sem olhar para os lados. A Turca insistiu:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-Um doce de tomate. Delicioso. Quer? &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Senti um fio fino, gelado, percorrer todo o meu corpo. Não conseguia supor o que poderia ser mais tenebroso do que um doce feito de tomates. Mas a minha mãe, em pé perto da mesa, dirigiu os olhos para mim e balançou a cabeça, suavemente, de cima para baixo. Isso não era apenas um conselho, uma sugestão para aceitar. Era uma ordem. Com a garganta seca, com um fiapo de voz, temendo pelo futuro, respondi:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-Sim, senhora. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-E você, Irene, aceita também?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-Não, obrigada. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Odiei minha mãe. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Alguns minutos depois, a Turca voltou da cozinha. Atravessou a sala com passos solenes, fatais, em minha direção. Eu estava sentado, numa cadeira de espaldar reto, perto da janela. Na mão, ela trazia um prato pequeno onde estava deitada uma colher inocente ao lado de uma pasta assassina, cruel, vermelha, como se fossem lavas do inferno. Era o doce de tomate. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;As duas voltaram a se entreter com as malhas. Dei a primeira colherada. Um sabor de gororoba tocou a ponta da minha língua. Fechei os olhos, deixei o doce se desmanchar na minha boca, parei de respirar e, só então, engoli. Eu não ia resistir e não sairia vivo da experiência. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Olhei para a imensa vermelhidão no prato de sobremesa. Cheguei mais perto ainda da janela, encarei o quintal, fiquei de costas para as duas e, de uma vez só, como se tivesse ouvido um disparo que anunciasse o começo da corrida, joguei o doce fora. Todo. E, quando me virei para encarar minha mãe, tive o cuidado extremado de lamber a colher. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-Aceita mais?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fui mais rápido que o olhar da minha mãe:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-Não, senhora. Obrigado. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E me sentei novamente, aliviado, em paz comigo mesmo. Eu havia me livrado da morte por envenenamento e olhava, vitorioso, para as duas torturadoras que discutiam a qualidade da malha.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Foi aí então que ouvimos um pequeno barulho na cozinha. Eram passos miúdos, lentos. Com os olhos sorridentes, com o rabo que se movia lentamente, com um carinho insuportável, o cachorro da Turca entrou na sala e caminhou vagarosamente até a mesa. Os olhos das duas mulheres se dirigiram para o mesmo ponto e eram frios, calculistas, mortais. Das costas do cão escorria uma massa disforme e vermelha. Era o doce de tomate, o mesmo que eu havia jogado fora pela janela que, em vez de cair no chão e se perder na terra, tinha ido pousar nos pêlos do bicho. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele se sentou, doce e bom, perto da Turca. A gosma então passou a escorrer das suas costas até o chão. O silêncio e a imensidão da sala aumentaram. Os olhos da minha mãe me procuraram, como se fossem holofotes de campo de concentração. Dentro de mim, três gerações de homens gritaram, impotentes diante do poder daquela mulher de pele branca, cabelos loiros, olhos castanhos, quase pretos, boca carnuda e 1,49m de altura poderosa. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Senti que meu fim estava próximo. Minha mãe dobrou caprichosamente as malhas e as lingeries, como se calculasse vinganças. Com um tom de voz perigosamente educado e controlado, disse que, desta vez, não ia comprar nada. Elas se despediram. Quando as duas bandas da porta se trancaram e nós ficamos sozinhos na calçada, a mão de minha se fechou em volta do meu braço e as unhas, pintadas de vermelho, entraram, lentamente, na minha carne. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Era uma dor fina, ardida, insuportável. Aquele apertão materno, sempre dado em ocasiões sumamente especiais, era um treinamento para todos os sofrimentos futuros que a vida pudesse me reservar. A voz dela veio firme, baixa, imponderável:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-Em casa a gente conversa, senhor Alexandre. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ninguém, na rua, parecia se dar conta de que eu tinha acabado de ser  jurado de morte.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/17667459-113179660265381015?l=ribondi.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://ribondi.blogspot.com/feeds/113179660265381015/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=17667459&amp;postID=113179660265381015&amp;isPopup=true' title='10 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/17667459/posts/default/113179660265381015'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/17667459/posts/default/113179660265381015'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://ribondi.blogspot.com/2005/11/estratgia-dos-tomates.html' title='A estratégia dos tomates'/><author><name>Ribondi</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07599085746902668142</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='26' height='32' src='http://cora.blogspot.com/uploaded_images/ribondi.jpg'/></author><thr:total>10</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-17667459.post-113170920688115241</id><published>2005-11-11T10:25:00.000-04:00</published><updated>2005-11-11T07:42:55.103-04:00</updated><title type='text'>Relato simples e sincero da estréia</title><content type='html'>&lt;a href="http://photos1.blogger.com/blogger/5241/1707/1600/rib1.jpg"&gt;&lt;img style="display:block; margin:0px auto 10px; text-align:center;cursor:pointer; cursor:hand;" src="http://photos1.blogger.com/blogger/5241/1707/320/rib1.jpg" border="0" alt="" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;9 da noite. O Teatro Goldoni, aconhegante e simpático, está bem cheio. Cadeiras extras e gente sentada no chão. Eu, sozinho lá no camarim, dou minha rezadinha de costume. Dou também uns três ou quatro pulos para sair do torpor da ansiedade, e me preparo para entrar. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Cai um toró. Destes brasilienses, de rachar o globo terrestre no meio. O teto do teatro se transforma num pandeiro enlouquecido. Para começar a peça, tenho que levantar uns dois tons da minha voz, o que não é tão simples quanto parece: eu vinha de três meses de ensaio com a voz colocada de uma maneira, que teve que ser alterada. Imaginem algo como um corredor que treina 100 metros e chega no dia e avisam que vai ter que correr 200m. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A peça vai em frente. Gargalhadas. Estréia é assim mesmo. Agitação, vontade de gostar. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um raio cai. Explosão. E, de uma vez só, como um susto, acaba-se toda a luz do teatro. Escuridão absoluta. Uma voz pede:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-Continua! Ouvir também vai ser bom!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um rapaz liga a luzinha do seu celular, caminha até o palco e me entrega o aparelho:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-Use até acabar a bateria. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ilumino o meu rosto e pergunto se está bom. Dizem que está perfeito.  &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Outro celulares se acendem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Arthur Tadeu Curado, o diretor, chora na cabine. Chora mesmo, de emoção. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A peça continua no escuro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A luz volta. A peça vai em frente e entra na reta final. Eu, cansado por causa dos malditos dois tons acima. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fim. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(Hoje é que vão ser elas. Não é mais estréia. É temporada mesmo. Destas que tem que ter gente comprando ingressos todas as noites para podermos ganhar dinheiro e seguir em frente.)&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/17667459-113170920688115241?l=ribondi.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://ribondi.blogspot.com/feeds/113170920688115241/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=17667459&amp;postID=113170920688115241&amp;isPopup=true' title='20 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/17667459/posts/default/113170920688115241'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/17667459/posts/default/113170920688115241'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://ribondi.blogspot.com/2005/11/relato-simples-e-sincero-da-estria.html' title='Relato simples e sincero da estréia'/><author><name>Ribondi</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07599085746902668142</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='26' height='32' src='http://cora.blogspot.com/uploaded_images/ribondi.jpg'/></author><thr:total>20</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-17667459.post-113159179154814421</id><published>2005-11-10T01:55:00.000-04:00</published><updated>2005-11-09T23:04:55.640-04:00</updated><title type='text'>...E por falar em homem...</title><content type='html'>&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt;É HOJE!!!!!!!!!!!!!!!!!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ÀS 21H ESTAREI ENTRANDO NO PALCO. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;OBRIGADO PELOS VOTOS DE MERDA.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E MERDA SERÁ!!!!!&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/17667459-113159179154814421?l=ribondi.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://ribondi.blogspot.com/feeds/113159179154814421/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=17667459&amp;postID=113159179154814421&amp;isPopup=true' title='18 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/17667459/posts/default/113159179154814421'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/17667459/posts/default/113159179154814421'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://ribondi.blogspot.com/2005/11/e-por-falar-em-homem_10.html' title='...E por falar em homem...'/><author><name>Ribondi</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07599085746902668142</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='26' height='32' src='http://cora.blogspot.com/uploaded_images/ribondi.jpg'/></author><thr:total>18</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-17667459.post-113159092783094493</id><published>2005-11-10T01:47:00.000-04:00</published><updated>2005-11-09T22:48:47.846-04:00</updated><title type='text'>O que sai da boca do homem</title><content type='html'>O meu amigo Marcelinho, também conhecido como Marcelo Bocão, por questões de características anatômicas marcantes, queria o passarinho. Era um canário capixaba, dos que têm canto delicado e penas muito amarelas. Ainda era novo, não tinha crescido tudo o que cresce um adulto. Mas já era gracioso na hora de pular de um poleiro a outro na gaiola da casa do vizinho. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Foram arquitetados planos. O roubo poderia ser realizado em horas de madrugada alta, quando todos dormiam. Mas esse expediente reservava um certo trauma porque Marcelo Bocão, eu e Marcelão, um trio razoavelmente imbatível nas serras do Espírito Santo, já conhecíamos, de cor e salteado, os perigos dos assaltos noturnos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Isto porque, pouco tempo antes, tínhamos planejado, com riqueza de detalhes, o roubo do pato do quintal da mãe de Carlotinha, que arrastava as asas para o Marcelão. E foi ele que pulou a cerca, vasculhou o quintal e achou o pato. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas as noites capixabas sabem ser frias, quando se trata de inverno. Por isso, o pato, vivo, não podia ser levado na mão com o braço esticado porque o vento, ricocheteando nas montanhas, chegava gelado até nossos corpos. Desta forma, Marcelão guardou o  pato dentro do casaco, o que seria um excelente plano se esses animais não tivessem a habilidade de fazer um cocô miudinho, escorrido, rápido e extremamente repetido. Assim, decidimos que o carregamento do pato seria revezado entre nós três para que cada um recebesse, na camisa debaixo do casaco, o seu quinhão de cocô. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Foi por isso que o Marcelo Bocão resolveu que ia ser na marra. De tarde. Entrava no quintal e, pronto, pegava o canário. E fez isso mesmo. Pulou o muro, andou cuidadosamente nas proximidades das paredes, portas e janelas, abriu a gaiola, enfiou a mão e segurou o passarinho de uma vez só. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ia saindo quando a porta se abriu. Era o homem que, além de ser dono da casa, também atendia pela propriedade do canário. Marcelo, de costas, pensou rápido, elaborou novo plano de escape e, num piscar de olhos, sem refletir muito sobre coisas como conseqüências e acidentes, enfiou o canário na boca. Fechou os lábios e, só aí, se virou para encarar o homem parado na porta. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Marcelinho não dizia uma palavra, mas piava miudinho, como se fosse pássaro novo. Tentava não respirar para que o vendaval não assustasse o bicho que levava na boca.  Manteve o controle absoluto dos músculos e dos olhos enquanto o homem descia lentamente as escadas para chegar perto e exigir as devidas satisfações. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E foi aí que Marcelo começou a se contorcer.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O canário, lá dentro, tentou fugir. Ou vasculhar o terreno. Pisava com unhas finas e delicadas. Depois, mais confiante, passou a bicar com força, na tentativa de abrir um buraco por onde pudesse fugir. Marcelo se apertava, se avermelhava, gemia para dentro, como uma pessoa atacada de súbita disenteria. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O homem olhou assustado. Pensou até mesmo em ataque epilético. Marcelo não se controlava mais. Quis fugir, mas, em vez disso, diante de tanta vida guardada dentro do corpo, apenas abriu a boca, sem dizer nada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Como em momentos de milagres, de dentro da boca de Marcelo, bem em cima da língua picada e arranhada, surgiu um passarinho miúdo, amarelo, bonito. Ele se apoiou bem com as unhas afiadas,  bateu asas e, então, voou céu afora até parar, logo em seguida, num galho de pé de carambola. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O homem e Marcelo Bocão se olharam. Já ninguém precisava dizer nada porque da boca de um deles havia saído tudo o que era para ser dito. O dono da casa se preparou para correr. Marcelo correu em alta velocidade, atravessou o quintal, pulou o muro. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Livre das ameaças do homem e do canário, foi, então, para casa, à procura de mercúrio-cromo e algodão.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/17667459-113159092783094493?l=ribondi.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://ribondi.blogspot.com/feeds/113159092783094493/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=17667459&amp;postID=113159092783094493&amp;isPopup=true' title='3 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/17667459/posts/default/113159092783094493'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/17667459/posts/default/113159092783094493'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://ribondi.blogspot.com/2005/11/o-que-sai-da-boca-do-homem.html' title='O que sai da boca do homem'/><author><name>Ribondi</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07599085746902668142</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='26' height='32' src='http://cora.blogspot.com/uploaded_images/ribondi.jpg'/></author><thr:total>3</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-17667459.post-113149239429605078</id><published>2005-11-08T22:19:00.000-04:00</published><updated>2005-11-08T19:26:34.316-04:00</updated><title type='text'>Ama.da-Aman.te</title><content type='html'>&lt;a href="http://photos1.blogger.com/blogger/5241/1707/1600/fl1355.jpg"&gt;&lt;img style="display:block; margin:0px auto 10px; text-align:center;cursor:pointer; cursor:hand;" src="http://photos1.blogger.com/blogger/5241/1707/320/fl1355.jpg" border="0" alt="" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eles entravam no trem aos montes. Traziam caixas, embrulhos, pacotes, trouxas, bundas imensas, bebês seguros em mantas jogadas nas costas e atadas em nó à volta do pescoço. Traziam também engradados de galinhas, ovelhas na coleira, leitõezinhos orelhudos. E falavam em quêchua, a mais oriental de todas as línguas do continente americano, com uma enxurrada contínua de palavras de uma sílaba só, interrompidas por súbitos pontos finais. Para o estrangeiro, o quêchua é uma algazarra de sons agudos, uma ingrezia delicada. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu me sentei para esperar, a qualquer momento, o arranco do trem rumo a Huancayo, nos Andes peruanos. Em minha frente, se acomodaram a índia jovem de tranças negras e chapéu e o índio velho de olhos tristes. No colo dela, um galo com penas luzidias, cor de caramelo, e crista vermelha como sangue bom. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela era bela. Os olhos eram distantes, como olhar de princesa proibida. Não sorria, mas não era indiferente. O nariz, súbito, grande, brotava do rosto como uma montanha aquilina. Os cabelos pretos eram azuis, presos em tranças que terminavam amarradas por fitas coloridas, amarelo-vivo e vermelho-crista-de-galo. A manta nos ombros copiava, listra por listra, todas as cores do mundo, sem faltar uma. A saia, verde como uma esmeralda, era rodada e terminava nos joelhos, de onde se podiam ver todas as anáguas das mulheres incas. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O galo se acomodou no colo dela como quem tem o hábito de ficar ali, sempre. O colo era a casa dele. Os braços da mulher eram o amparo que ele tinha para sempre. Os lábios dela, carnudos, bonitos, com jeito macio, beijavam apenas a crista dele. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O trem sacudiu e foi.  Primeiro, ia de frente. Depois, de marcha a ré. De frente, novamente. De marcha a ré outra vez. Até chegar lá em cima, onde a estrada de ferro era, finalmente, uma reta nas alturas geladas.   &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O soçobro do vagão pelas montanhas adormecia o índio velho, a índia linda e o galo dela. Encostei o cotovelo no braço do assento,  apoiei o rosto na mão aberta e semi-fechei os olhos para observar melhor a mulher apaixonada pelo bicho de penas. Só eles dois se entendiam no alvoroço do trem que falava quêchua. Os olhos dela, mornos, mansos, secretos olhavam pela janela. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O vento frio entrou no vagão. A índia se ajeitou na manta colorida e o galo se escondeu no colo dela. Sem tirar os olhos secretos da janela, como se visse o que eu não via nem imaginava o que pudesse ser, começou a cantar. Tinha o timbre e a doçura das vozes que vêm de longe, que atravessam mares, sobem montanhas, sopram com os ventos, vibram como talo fino de bambu. Só a música era conhecida. De um jeito calmo, seguindo o ritmo do trem, ela cantou Roberto Carlos. Ama.da-Aman.te. Assim mesmo, com pontos e interrupções surpreendentes, como se fosse quêchua.  &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O homem passou a dormir com a cabeça apoiada na parede do vagão. E, num solavanco sobre a emenda dos trilhos, a cabeça dele caiu para frente. A partir daí, o balanço miúdo da viagem fazia os cabelos pretos e lisos do índio balançarem na testa. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A mulher nova parou de cantar. Falou alguma coisa para o homem. Ele não respondeu. Ela tocou no ombro dele e o peito todo caiu, em direção às coxas. Ela se levantou. Abri os olhos e me ajeitei na cadeira. De tudo o que ela dizia, eu entendia “pápi”, repetido várias vezes, como se fosse um ensaio para o desespero. Primeiro, em voz baixa. Depois, várias vezes, com velocidade. E, então, um grito só que se espalhou pelo vagão inteiro. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O funcionário da estrada de ferro chegou em seguida. Já todos estavam de pé e tudo se agitava dentro do vagão: mulheres, homens, crianças, ovelhas, porcos, embrulhos, trouxas e malas. O trem rangia com dor sobre o aço dos trilhos. A velocidade aumentava, as montanhas passavam ágeis pela janela. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Alguma coisa foi decidida e só eu não sabia o que era. A índia, linda e triste, se sentou novamente ao lado do homem já morto. Abraçou-se ao galo, que não se mexeu, não bateu as asas, não cacarejou. Os dois, mais do que nunca, tinham, agora, olhares de realeza. Somente uma princesa seria capaz de sofrer tanto, e com tanta ternura calma, diante de um defunto. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O trem parou, arranhando os trilhos. O ruído fino, capaz de arrepiar as peles, parecia um lamento espichado, agudo, mórbido. Lá fora, a paisagem andina, com árvores, picos, sol e frio. A índia esperou. Quatro homens puseram o corpo para fora do vagão, pela janela, enquanto dois outros esperavam do lado de fora. Ela, abraçada ao galo, não olhava para nada. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Foi então a hora da índia sair. Ficou de pé, ergueu suavemente a cabeça, protegeu o galo entre os braços e caminhou pelo corredor do vagão. Como uma princesa que caminha entre os bancos da catedral para chegar ao altar e ser coroada rainha, ainda de luto pela morte do pai. Nos braços, levava a mais importante jóia do seu reino inteiro. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Então, pela janela eu podia ver o corpo estirado no chão e ela, em pé, hirta e linda no meio das cores que cobriam o corpo todo. Tentava entender por que era ali, no meio das árvores, nas lonjuras andinas, que eles tinham que descer do trem. Ou, talvez, tinham sido colocados para fora, por questões de morte. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O trem deu novo arranco. Fiquei na janela e vi, cada vez mais longe, mais indefinido, as cores da índia, as penas do galo, o corpo do morto. Mas me tranqüilizei. Sozinha, no exílio, ela não estava. Tinha um corpo quente e querido entre os braços. O galo, a crista, as penas luzidias cor de caramelo, eram, agora, o amparo da amada amante.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/17667459-113149239429605078?l=ribondi.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://ribondi.blogspot.com/feeds/113149239429605078/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=17667459&amp;postID=113149239429605078&amp;isPopup=true' title='7 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/17667459/posts/default/113149239429605078'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/17667459/posts/default/113149239429605078'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://ribondi.blogspot.com/2005/11/amada-amante.html' title='Ama.da-Aman.te'/><author><name>Ribondi</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07599085746902668142</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='26' height='32' src='http://cora.blogspot.com/uploaded_images/ribondi.jpg'/></author><thr:total>7</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-17667459.post-113142289627917918</id><published>2005-11-08T01:56:00.000-04:00</published><updated>2005-11-08T00:08:16.303-04:00</updated><title type='text'>Solitário pacífico</title><content type='html'>Quem olha e encara o Oceano Pacífico se apaixona por ele. No seu jeito azul-chumbo, é irresistível. É mais antigo, mais profundo, maior e mais fértil que o Atlântico, mas o mar que, com forma de S,  separa as Américas da África e da Europa tem mais barcos e mais navios, tem mais velas e mais navegantes. O Pacífico é uma solidão imensa. É o sal do silêncio. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A corrente de Humboldt tem comida. Para todo o mundo: para os chilenos, para os peruanos, para os pelicanos, os tubarões. A corrente traz peixe, mas desfalca o céu. Em Lima, que fica nas margens do Pacífico, não chove. As casas, por isso, têm tetos planos, já que nada escorre deles. E os cachorros limenhos, em vez de latirem atrás dos portões, criaram a mania de subirem para os telhados. Vigiam a cidade como se fossem gatos empoleirados. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em 1972, a corrente de Humboldt secou. Os jornais acusavam a França de fazer experiências atômicas no mar. Os peixes se tornaram coisa rara. Os peruanos, então, abandonaram temporariamente o ceviche e comiam animais da terra. Os pelicanos passaram fome. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu estava sentado no banco da praça e observava a barraca de peixes. Era pouco o que eles tinham para vender e era caro também. No muro do outro lado da rua, pousou um pelicano enorme, bonito, pesado. Os pássaros nunca olham diretamente para o alvo, eles dissimulam. O pelicano não parecia assustador. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em seguida, veio outro e pousou ao lado, no mesmo muro. Poucos minutos depois, mais um. Mais tarde, eram seis, que não se moviam. Estavam inertes, pesados, elegantes. Para o telhado da casa ao lado, vieram outros. Pouco a pouco, já não era mais possível contar os pelicanos que se aproximavam, como se a notícia de peixe tivesse corrido em bico em bico. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E quando estavam todos juntos, começaram a se movimentar no muro e no telhado. Andavam com passos curtos, saltos pequenos, de um lado para o outro. Os pelicanos se esbarravam. Começaram a bater as asas. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E, finalmente, um deles deu o sinal. Levantaram vôo juntos, cobriram o céu de Lima e atacaram a barraca de peixe. O peixeiro foi empurrado por corpos imensos, bicos gigantescos. Caiu na calçada enquanto gritava. Bicos, penas, asas, pés fortes, tudo se alvoroçava em cima da barraca. O cheiro de peixe devorado corria solto pela rua limenha. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E depois, tão rápido quanto haviam chegado, veio o silêncio. O céu ficou limpo outra vez. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;As ruas eram pastos estéreis de pelicanos. Na grande avenida central da cidade, parei o carro. Pelicanos lentos choravam a saudade da corrente de Humboldt. Outros carros pararam também e buzinaram. Os pássaros, todos enormes, de olhos mortiços e parados, apenas moviam os pés, sem sair do lugar. O engarrafamento se tornou uma imensa passeata de pelicanos famintos. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Alterei os meus hábitos. Passei a correr entre pássaros imensos, a enxotar aves pescoçudas da porta de casa, de escadarias de museus, de calçadas calmas. Ás vezes, eu parava, tão imóvel quanto eles, e esperava para ver quem perdia a paciência primeiro. Os cães latiam dos altos dos telhados.  Lima era um viveiro de pelicanos à míngua. Em silêncio, eles abandonaram o mar e ocuparam a terra. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O Pacífico nunca se sentiu tão solitário quanto naquele ano.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/17667459-113142289627917918?l=ribondi.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://ribondi.blogspot.com/feeds/113142289627917918/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=17667459&amp;postID=113142289627917918&amp;isPopup=true' title='4 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/17667459/posts/default/113142289627917918'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/17667459/posts/default/113142289627917918'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://ribondi.blogspot.com/2005/11/solitrio-pacfico.html' title='Solitário pacífico'/><author><name>Ribondi</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07599085746902668142</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='26' height='32' src='http://cora.blogspot.com/uploaded_images/ribondi.jpg'/></author><thr:total>4</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-17667459.post-113136785078531052</id><published>2005-11-07T11:45:00.000-04:00</published><updated>2005-11-07T08:50:50.786-04:00</updated><title type='text'>...E por falar em homem...</title><content type='html'>&lt;a href="http://photos1.blogger.com/blogger/5241/1707/1600/cartaz1.jpg"&gt;&lt;img style="display:block; margin:0px auto 10px; text-align:center;cursor:pointer; cursor:hand;" src="http://photos1.blogger.com/blogger/5241/1707/400/cartaz1.jpg" border="0" alt="" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Para os brasilienses frequentadores do blog:&lt;br /&gt;A partir do dia 10, no Teatro Goldoni (Casa d'Italia), começa a temporada da comédia ...E por falar em homem...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Com direção de Arthur Tadeu Curado, vou estar no palco para falar de "como é difícil ser homem". &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Temporada até dia 20, sempre às 21 horas, exceto aos domingos, que a gente começa a trabalhar mais cedo porque não precisa competir com as telenovelas e, então, vai para as 20 horas. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Todo mundo lá!&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/17667459-113136785078531052?l=ribondi.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://ribondi.blogspot.com/feeds/113136785078531052/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=17667459&amp;postID=113136785078531052&amp;isPopup=true' title='12 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/17667459/posts/default/113136785078531052'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/17667459/posts/default/113136785078531052'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://ribondi.blogspot.com/2005/11/e-por-falar-em-homem.html' title='...E por falar em homem...'/><author><name>Ribondi</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07599085746902668142</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='26' height='32' src='http://cora.blogspot.com/uploaded_images/ribondi.jpg'/></author><thr:total>12</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-17667459.post-113136746449990229</id><published>2005-11-07T11:42:00.000-04:00</published><updated>2005-11-07T10:28:00.033-04:00</updated><title type='text'>A descoberta da América</title><content type='html'>&lt;a href="http://photos1.blogger.com/blogger/5241/1707/1600/paquitosm.jpg"&gt;&lt;img style="display:block; margin:0px auto 10px; text-align:center;cursor:pointer; cursor:hand;" src="http://photos1.blogger.com/blogger/5241/1707/320/paquitosm.jpg" border="0" alt="" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nunca consegui fazer a diferença entre as penas dos condores e os cabelos dos índios. Eu passava de ônibus, trem, na carroceria de caminhão, camionete, ou até a pé, nas estradas empoeiradas e tortas dos Andes, e olhava para o céu. Lá em cima, na ponta estreita e fina de alguma montanha, sempre estava um ou outro. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Que fosse um condor, era belo e fácil de entender. Mas se fosse um índio, era belo e difícil de entender. Se tem tantos vales, tantas margens de rios, tantas lhanuras, por que escalar montanhas, procurar a ponta delas, e ficar lá, em pé, de cara para o vento, enfrentando o abismo? Talvez porque não haja mesmo diferença entre ele e o condor, sendo os dois habitantes dos lugares mais altos do mundo. Talvez para entender a paisagem. Talvez para procurar lhamas. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O rio Urabamba passava lá embaixo, pulando, com força, sobre pedras na garganta entre montanhas. A ponte, feita apenas de corda e madeira, era cá em cima, com as pontas amarradas em cada margem. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Passar pela ponte, com mochila nas costas, era como tentar se equilibrar em um colchão d’água. E era isso que o americano Andrew e eu fazíamos lentamente, passo a passo. O trem, que vinha de Cuzco, tinha parado no Km 88, que não era nada, nem cidade, nem vila, nem pueblito. Apenas uma estação sem plataforma, sem guichê, sem quem trabalhasse nela. Só uma casa pequena e uma ponte de madeira e corda do lado, sobre o Urabamba.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Descemos, cruzamos o rio e chegamos ao começo do Camino del Inca, que, Andes acima, ia até as ruínas da antiga cidade de Macchu-Pichu. Era por caminhos assim, a pé, que eu tentava entender coisas estranhas, exóticas, desconhecidas, como a América do Sul, de quem o Brasil é irmão desgarrado. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fomos. Sol e frio. Um verdor intenso, quase insuportável. Cheiro inca de folhas de coca, estrume, lã, pão, batatas. Paramos no fim da tarde e comemoramos o primeiro dia com uma garrafa de vinho. Deixei o Andrew sentado em uma pedra e saí para conhecer as vizinhanças.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No alto da montanha, na ponta estreita onde o mundo acaba para se tornar vento, um condor. Ou um índio. Olhei para frente e vi três animais, dois adultos e uma cria nova. Eram bichos vesgos, altaneiros no equilíbrio sobre um pescoço grande. Os donos enfeitam as orelhas deles com penduricalhos de lã colorida, com sinos. Mascam como se não tivessem mais nada para fazer na vida. Quando me viram, levantaram os rabos curtos e deram um passo à frente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não notei que interrompia uma reunião familiar. Eles deram mais passos à frente, como quem vai e fecha a porta. Avancei. Mas um deles avançou mais que eu, já irritado. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Foi aí que desconfiei que o clima tinha uma certa tensão, como no círculo de uma arena. Um dos bichos adultos se preparou. Deu uma corridinha para ver se me impressionava. Mas fiquei no mesmo lugar, impedido de fugir pela curiosidade de ver o que iriam fazer.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E fizeram. Correram em minha direção. Corri deles. Desci o morro e quis dizer ao Andrew, aos berros, que o perigo se aproximava. Mas, por algum motivo que me escapa até hoje, por algum processo que tem o nome genérico de pânico, ou excesso de vinho no organismo, acrescentado ao efeito das alturas, me esqueci como se diziam algumas palavras. Entre elas, justamente, o nome dos animas vesgos e altaneiros. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mesmo assim corri. Corri morro abaixo. Gritava “atención, atención”. Várias vezes. E por falta de palavra mais correta, mais definitiva, quando passei a correr muito, gritei, de maneira bem comprida, assustadora mesmo, o nome do único outro animal que, eu achava, se assemelhava à família que, aos pulos e passos rápidos, me expulsava do território. Assim, por eles serem de bom porte, donos de línguas grandes e grossas, por terem rabos, quatro patas e a fêmea apresentar tetas cheias, berrei:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-Atencióóón, vaca! Vaaaaaaaaaaaca! &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Subi numa árvore, enquanto o Andrew permanecia sentado exatamente na mesma pedra, com olhos calmos. Talvez risse por dentro, coisa que, provavelmente, também faziam os animais que, agora, pastavam. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A mesma surpresa, o mesmo susto voltaram, quando cheguei à casa do Andrew, no sul dos Estados Unidos. Haviam se passado 30 anos sem que um tivesse notícia do outro até aquele dia do reencontro. Entrei num avião em Brasília e pousei lá, em Albuquerque, a cidade no meio do deserto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A casa era de tijolo cru, como nos Andes. A grama do quintal grande, imenso, tinha o mesmo verde andino. O silêncio embalado pelo Rio Grande, que corria nos fundos, também era peruano. E lá, no meio do verde, perto do rio, no pasto debaixo das árvores, dois animais, como se fossem duas vacas domésticas.  &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eram as lhamas de Andrew, que explicou:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-Para que eu não esqueça nunca a América do Sul. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Cheguei perto de Sarah e Ruby. O mesmo olhar vesgo. O mesmo jeito altaneiro e desdenhoso. Os passos miudinhos e certeiros, exatamente como as outras. Os rabos curtos e ágeis. Cheguei mais perto. Aí, pela primeira vez, conseguir tocar o pêlo. Alisei. Fiz carinho no pescoço de Sarah. Chamei Ruby, com voz baixa. As duas se aproximaram. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Três décadas antes, eu estava nos Andes, à procura da América do Sul. Achei, então, sensações dela na América do Norte. E, salvo engano, entendi que, de maneira pessoal, íntima, sincera, tão viva e quente quanto o meu sangue, a América começa nos fiapos da Patagônia e termina onde o Canadá vira gelo. Tudo passa por lhamas, geleiras, florestas, gramas verdes e rios bravos. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sarah, Andrew, Ruby e eu. Um continente só. O único que vai de um pólo ao outro. América.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/17667459-113136746449990229?l=ribondi.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://ribondi.blogspot.com/feeds/113136746449990229/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=17667459&amp;postID=113136746449990229&amp;isPopup=true' title='7 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/17667459/posts/default/113136746449990229'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/17667459/posts/default/113136746449990229'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://ribondi.blogspot.com/2005/11/descoberta-da-amrica.html' title='A descoberta da América'/><author><name>Ribondi</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07599085746902668142</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='26' height='32' src='http://cora.blogspot.com/uploaded_images/ribondi.jpg'/></author><thr:total>7</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-17667459.post-113111048856268841</id><published>2005-11-04T12:19:00.000-04:00</published><updated>2005-11-04T10:19:42.733-04:00</updated><title type='text'>Tensão pantaneira</title><content type='html'>Apesar de bonita, elegante e sonhadora, não era nem mesmo uma cidade. Bem do lado da Bolívia, rodeada de Pantanal, acompanhando um pedaço do rio Paraguai, Corumbá era, para falar a verdade, uma chapa quente deixada ao sol. Ela se ardia lentamente quando o sol, duro, amarelo, paciente, parava no meio do céu e se recusava a ir embora. Qualquer um se recusaria. Ali, o mundo é muito bonito. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Às duas da tarde, eu e o Everaldo, a gente buscava lugar para passar a noite e, no dia seguinte, entrar no Trem da Morte e seguir para Santa Cruz de la Sierra, a cidade mais rica e mais drogada da Bolívia. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E, então, com as vistas escurecidas pelo ouro do sol, com a pele arrepiada pelo vapor morno que escapava das águas do Paraguai, com as roupas umedecidas pelo suor que escorria no Pantanal inteiro, eu me sentei na escadaria que desce da cidade até a margem do rio.  &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Comprava picolés, um atrás do outro. Escolhia pela delícia das cores. Pedia um e era amarelo vivo, forte. Pedia outro e aí vinha uma água congelada de cor vermelha. Comprava mais um: era mais verde que as copas das árvores. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O Everaldo, do meu lado, com uma voz calma de quem, depois de ver o Pantanal, passa a acreditar em tudo, me perguntou:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-Estátua mexe o gogó?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Debaixo de sol muito quente, qualquer indagação faz sentido. Respondi:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-Que eu saiba, não.&lt;br /&gt;-Então, tem um jacaré aqui do lado da gente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Com o picolé na mão, olhei. Parecia ser um lagarto enorme, capaz de girar os olhos para frente e para trás. Como se engolisse em seco, movia a pele logo abaixo da boca imensa. Mas no meio do verão, fugir ou ficar ao lado do perigo é uma decisão complicada e árdua, que requer sacrifícios. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tentei compreender o jacaré. Como meus olhos sem tanta mobilidade, encarei. Por algum motivo, ele, o réptil, não se movia. E, também por algum motivo, mas de outra ordem, eu, o mamífero, não sentia medo. Não era bravura, coragem ou heroísmo. Era lassidão mesmo. Acabei de chupar o picolé e, só então, me levantei lentamente, com a calma dos anfíbios, e fui procurar uma pensão. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No calor da tarde, quis tomar banho. O banheiro da pensão era no centro do quintal, rodeado de roseiras com rosas miúdas e despetaladas. Mas o chão, feito de terra escura, compacta e úmida, enchia a planta dos pés com um frescor brando que, pouco a pouco, subia pelas pernas e chegava até o coração, uma bomba quente no meio do Mato Grosso do Sul. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Então, fui me lavar, com a toalha pendurada no ombro. Acontece que o banheiro era um arremedo de si mesmo. Ali, debaixo do céu, tinha quadro tábuas largas sem teto e, do meio delas, subia um cano alto que, em seguida, dobrava-se em linha reta. Era do próprio cano que caía um jato forte, único, de água forte e fria.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Cheguei perto. Compreendo os anfíbios, sei me sentar ao lado de jacarés pantaneiros, mas tenho uma certa indisposição com galinhas. Não só com elas. Com patos e papagaios, também. A junção de pés capazes de se contraírem com força, de penas que se arrepiam e de bicos que apontam, sempre me pareceu perigosa e assustadora. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E tinha uma galinha que, conformada com o começo do pôr-do-sol, já estava empoleirada na tábua que servia de porta para o banheiro no meio do quintal. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tentei compreender a galinha. Ela me olhou, impassível e lerda. Tomei coragem. Abri a porta lentamente, enquanto ela se acomodava no poleiro móvel. Entrei em silêncio, fechei a porta. A galinha reclamou, mas não muito. Ajeitou-se sobre a tábua e continuou ali, como quem se torna introspectivo diante da marcha lenta do dia para o resto do mundo atrás do horizonte. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tirei calça, camiseta, cueca e pendurei no único prego grudado na tábua da porta. No meio do cano tinha uma torneira, que girei. A água deu o primeiro sinal de vida: o cano se sacudiu um pouco. Em seguida, gemeu. Aí, se sacudiu mais ainda, como se anunciasse um dilúvio e, de uma vez, o cano lançou um jato só, barulhento, enérgico, que bateu na minha cabeça e se espalhou, como uma fonte, para todos os lados. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A galinha não entendeu. Deu um grito alto, abriu as asas, arrepiou as penas e arregalou os olhos. E, movida apenas pelo susto, incapaz de tomar uma decisão sensata, em vez de fugir da água, achou por bem pular para dentro do banheiro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O espaço era pouco para tanta coisa. Ela tentava se salvar do dilúvio que despencava do cano. Cacarejava e corria, espremida pelas quatro tábuas. Não tive muito o que pensar. Com um puxão forte para dentro, abri a porta que veio com tramela, roupas, dobradiças e parafuso, e ficou solta na minha mão. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Larguei a porta e corri para dentro da pensão. E só lá, na mira de olhares espantados e curiosos, lembrei que ainda estava sem roupa e que a toalha tinha ficado no prego da porta arrombada. Corri de volta para o banheiro. A água continuava farta, a galinha ainda tentava entender o acontecido, minhas roupas estavam encharcadas. Não entrei. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A dona da pensão veio em seguida. Com passos lentos e com a boca preparada para gargalhar, entrou no que restava do banheiro, girou a torneira, pegou a galinha pelos pés e me encarou. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Enquanto apanhava minhas roupas para cobrir o que estava à mostra, a mulher, ainda com a galinha na mão, avisou num tom de voz maduro e muito experiente de quem já está acostumado a pegar patos, pintos e perus:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-Ah, meu filho, não tem problema. Igual ao seu, já vi milhares. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Relaxei. Eu havia sobrevivido à galinha. Dali em diante, estava pronto e treinado para enfrentar a Bolívia inteira.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/17667459-113111048856268841?l=ribondi.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://ribondi.blogspot.com/feeds/113111048856268841/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=17667459&amp;postID=113111048856268841&amp;isPopup=true' title='7 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/17667459/posts/default/113111048856268841'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/17667459/posts/default/113111048856268841'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://ribondi.blogspot.com/2005/11/tenso-pantaneira.html' title='Tensão pantaneira'/><author><name>Ribondi</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07599085746902668142</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='26' height='32' src='http://cora.blogspot.com/uploaded_images/ribondi.jpg'/></author><thr:total>7</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-17667459.post-113098898821586898</id><published>2005-11-03T02:27:00.000-04:00</published><updated>2005-11-03T13:29:35.346-04:00</updated><title type='text'>O pingüim da Abissínia</title><content type='html'>Meu pai foi mordido sete vezes por cobra. A última vez, ele já era pai e grande. Uma dorminhoca, venenosa, esperta, enfiou os dentes na carne fina e esticada entre o dedão e o dedo indicador quando o meu pai, de mão aberta, se agarrava a uma raiz num barranco, para ter apoio e continuar a escalada da encosta barrenta. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Teve febre, os olhos lacrimejaram durante vários dias, sentia coceira insistente no braço, ficou impaciente, meio bravo pelos cantos, mas, depois, passou. Além disso, ser mordido sete vezes por cobra é remédio. Dá imunidade absoluta para todas as futuras mordidas – que, no caso do meu pai, nunca aconteceram. Não que eu me lembre.   &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O 7 é precioso. É a conta do mentiroso, porque se for contada uma mentira, mais seis terão que ser inventadas para encobrir e proteger a verdade escondida na primeira. No fim, surge uma história inteira, uma lenda genuína, ou uma ficção bem bordada e urdida, para que a primeira mentira fique de pé. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mordidas de cobra também são curadas com o 7. O bicho vem e aperta os dentes. Em casa, a vítima deve pular sete vezes sobre um banco de cozinha, de lá para cá e de cá para lá. Com energia, para que os pés batam com vontade no chão e o corpo se estremeça a cada impacto. Foi assim, aparentemente, que o meu pai se curou das seis primeiras vezes, fato confirmado por minha avó Virgínia. Mas, lá em casa, todos contavam coisas admiráveis e fantásticas porque meu pai e os irmãos dele, Ovídio e Mercedes, parecem ter sido criados numa terra mais exótica e admirável que o Oriente, mais feérica que Alexandria, mais indefinível que a Abissínia. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por isso, meu pai brincava com cobras, nos anos 20 do século XX. Não que não existissem outros brinquedos, que podiam ser feitos com sabugo de milho, melão-de-São-Caetano, pau, lata e corda. Mas quando uma pessoa vive e cresce exatamente na encruzilhada entre a Abissínia e Alexandria, lugar de que eu ouvia falar, mas que  nunca soube onde fica nem jamais encontrei a estrada para lá, o divertimento também é de cabeça para baixo. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em 1928, meu pai usava calças curtas. Saía da casa, rodopiava pelo quintal cheio de italianos e subia, em dias de calor, até o ponto mais alto das encostas, onde os pés de café estavam plantados em fileiras longas, bem feitas. Vasculhava tudo com cuidado, esmero, e, debaixo de uma das árvores do cafezal, encontrava a cobra, enrolada em si mesma, na dormência das tardes de sol.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Com uma vara, ele futucava a cobra que, desatenta, voltava a se enroscar. Futucava de novo. A cobra, então, acordava e prestava atenção. Nova futucada. Ela, que antes dormia, agora levantava a cabeça, já irritada. Na quarta vez, ela jurava meu pai de morte. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E, aí, cuidadosamente, brincando com o perigo absoluto, ele encostava a vara outra vez. A cobra se espichava, mostrava os dentes e se preparava para a grande vingança. Meu pai corria e ela ia atrás, disposta a eliminar, com veneno, o intruso no sono da tarde quente. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E era correria morro abaixo, aos gritos. Não gritos de pânico ou pavor. Muito menos de arrependimento por ter tirado o bicho do seu sossego. A descida aos galopes, com o vento na cara e o suor grudado no peito, nas mãos, nas coxas, na barriga, era felicidade pura. Era assim que eles eram felizes, lá. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A cobra se espalhava no chão com os músculos retesados, pronta para o bote na imensidão do cafezal. De repente, meu pai, com um berro vitorioso, se segurava na rama de um pé de café, girava o corpo como um atleta que se segura, rijo, à barra de ginástica. E de lá, via a cobra que, sem braços, sem mãos, sem pés, impossibilitada de qualquer ação, incapaz de frear, de interromper o deslizamento acelerado ou de se salvar, tinha um único destino. Desesperada, aos pulos e tropeções, escorregava, se esfregava no chão, se contorcia e não tinha jeito nem solução: sob o peso da fatalidade, parava só quando batia no fim da encosta, no meio do quintal. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E ficava lá embaixo, angustiada, irritada e cansada. A minha avó, mais irritada que ela, berrava o nome do filho, que já tinha sumido, à procura de novos bichos do Oriente onde ele foi criado para depois enfrentar o mundo.   &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Isto foi ele que me contou no dia em que, para me convencer a sair da banheira feita de ágata velha, com pés estranhos que imitavam garras de leão, me contou também que eu corria o risco de virar pingüim, depois de tanto tempo imerso na água morna. Como prova, segurou minhas mãos e me mostrou os meus próprios dedos, já enrugados nas pontas. Era, segundo ele, o primeiro e definitivo sintoma da pingüinização. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pulei fora d’água, mas, enquanto meu pai me enxugava com mãos fortes e firmes, eu imaginava o fascínio de ser um pingüim da Abissínia.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/17667459-113098898821586898?l=ribondi.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://ribondi.blogspot.com/feeds/113098898821586898/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=17667459&amp;postID=113098898821586898&amp;isPopup=true' title='9 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/17667459/posts/default/113098898821586898'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/17667459/posts/default/113098898821586898'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://ribondi.blogspot.com/2005/11/o-pingim-da-abissnia.html' title='O pingüim da Abissínia'/><author><name>Ribondi</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07599085746902668142</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='26' height='32' src='http://cora.blogspot.com/uploaded_images/ribondi.jpg'/></author><thr:total>9</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-17667459.post-113081671356985445</id><published>2005-11-01T13:42:00.000-04:00</published><updated>2005-10-31T23:45:13.720-04:00</updated><title type='text'>A coisa maternal</title><content type='html'>&lt;a href="http://photos1.blogger.com/blogger/5241/1707/1600/post-18-1106479572.jpg"&gt;&lt;img style="display:block; margin:0px auto 10px; text-align:center;cursor:pointer; cursor:hand;" src="http://photos1.blogger.com/blogger/5241/1707/320/post-18-1106479572.jpg" border="0" alt="" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tinha prova final de educação física. Questão única: salto de vara. Meu pai, com a agilidade dos facões e canivetes afiadíssimos, fez a vara com madeira branca, cheirosa. E treinei em casa, no fundo do quintal, porque, sendo o pior aluno da matéria, precisava de nota muito boa, daquelas que a gente não tira nunca. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E, no dia mais importante do ano, abri os olhos cedo. Lá fora, tudo escuro, sem som. Ouvi o barulho lerdo da geladeira na cozinha e combinei, comigo mesmo, que ia contar até 20 e se, nesse espaço de tempo, a geladeira não se arrepiasse e não se sacudisse nem uma vez para mudar a marcha, eu não ia fazer a prova.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Contei depressa, mas, mesmo assim, fui derrotado na aposta ali pelo número 12. Vesti o calção azul-marinho, a camiseta branca de alças, calcei os congas brancos e limpos, apanhei a vara reluzente e ainda cheirosa e, como um condenado no corredor da morte, fui. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Abri a porta de casa. Nem o céu tinha acordado ainda. Os trilhos da estrada de ferro estavam quietos, a rua parecia nunca ter sido usada, o ar gelado tinha jeito de novo. Sozinho, abri o portão de casa e andei em linha reta para a escola, me lembrando de tudo o que tinha que fazer. Não para aprender a saltar com a vara, mas para passar de ano. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A cidade estava sendo calçada e, ao longo da rua, tinham deixado montes de areia e pequenas paredes feitas de paralelepípedos empilhados. Decidi que, então, ia treinar ali mesmo, para chegar na escola com grau de excelência. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vi o monte de areia e os paralelepípedos empilhados. Os únicos espectadores eram as janelas fechadas e as luzes dos postes, ainda acesos no escuro da madrugada. Dei alguns passos para trás, segurei a vara com firmeza, raspei os pés no chão. Cheguei até a cuspir nas mãos para segurar com mais firmeza. Era assim que se fazia. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Corri, apoiei a vara no chão de terra, subi, firmei os braços, estiquei as pernas, voei por cima dos paralelepípedos e me preparei para terminar o vôo em cima do monte de areia. E, veloz, sentindo o vento gelado bater no rosto, desci.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aí, foi um berro só. Depois da beleza do vôo curto, bati sentado, quase retumbante, em cima de coisa esponjosa. Grande e gorda. E, sobretudo, coisa viva. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O arrepio nasceu na minha nuca e deslizou às pressas pelo corpo todo. Minha reação de emergência foi fechar os olhos com a promessa de nunca mais voltar a olhar ou ver ou enxergar. Por isso, a outra reação foi me agarrar ao que pudesse, para não cair mais. E só pude agarrar a coisa. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela grunhiu. Era grunhido de mula-sem-cabeça desesperada, de monstro das profundezas dos mares, perdido no alto da serra. Era gemido saído do fundo do mundo. Era coisa que babava e se sacudia, esponjosa, quente, macia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Berrei com força, ainda com os olhos fechados. A coisa se multiplicou, eram várias. Uma grande, outras menores, que se esbarravam umas contra as outras e em mim. Segurei com mais força ainda. Os meus músculos estavam duros demais para relaxar e deixar ir. E, no meio da areia e dos paralelepípedos, a movimentação se tornou um luta entre corpos, um vale-tudo coletivo, escorregadio e sem regras. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas, de repente, os grunhidos se tornaram inteligíveis, familiares, domésticos:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-Oinc... oiiiiinc!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Abri os olhos e vi a porca imensa, bonita, branca, cheia de gordura e toucinhos, rodeada de leitõezinhos. Ela me encararava raivosa, postada como uma parede entre os filhos e eu. O olhar era de desespero puro, de pânico com taquicardia por ter sido acordada por alguma coisa que tinha caído do céu justo na barriga e nas tetas, a ponto de quase matar as crias. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela e os filhos correram para um lado e eu, para outro. Eles em direção à praça. Eu, de volta para minha casa, sem a vara. Deixei o portão aberto, empurrei a porta da cozinha e me escondi na cama, com tremores que sacudiam o lençol, a coberta, o cobertor, o travesseiro e a fronha. Só saí de lá depois que as luzes do dia tinham entrado na casa toda e que a família inteira já estava em plena atividade. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-E como foi a prova de educação física?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Contei tudo, para ser salvo. Falei da porca parida que queria me atacar, por motivo nenhum. Falei, com detalhes, de como eu ia indo pela rua quando ela começou a correr atrás de mim. Expliquei que até tentar me morder, a porca tinha. Depois, me vesti para ir para a escola e, mal cheguei, fui informado que tinha ficado de segunda época. Além disso, como castigo pela insubordinação de não ter comparecido, fui obrigado a passar uma hora, no pátio do colégio, depois do horário de aula, com os braços abertos. Um tijolo em cada mão aumentava o suplício. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De repente, minha mãe entrou tensa na escola. Pisava firme, como um esquadrão inteiro. Gritava:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-É apenas uma criança! Onde já se viu absurdo destes? Ele vai embora para casa comigo. Agora!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O professor de educação física respondeu, com voz grossa, que, ali na disciplina dele, quem mandava era ele. Minha mãe reagiu com um argumento certeiro: deu um safanão no homem.  Só que ele,  por acaso, era quase autoridade, por ser primo do prefeito. Ainda bem que minha mãe gostava desses confrontos e era mestra em fazer valer os pontos de vista dela. Era assim lá em casa, era assim no mundo inteiro. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-Eu não tenho medo nem do senhor nem do seu irmão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ia saindo e voltou, avermelhada:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-E quer saber? Não tenho medo da sua mãe também, não. Ela devia ter criado melhor a família para agora não ser avó de menina sem pai. Diga isso a sua irmã!  &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando seguia para casa, aos tropeções, quase arrastado pela minha mãe que, furiosa, prometia que as coisas não iam ficar daquele jeito, vi a porca e os leitões outra vez, na rua. Ela dormia tranqüila, tranqüila.  &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Procurei a vara. Nunca mais achei.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/17667459-113081671356985445?l=ribondi.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://ribondi.blogspot.com/feeds/113081671356985445/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=17667459&amp;postID=113081671356985445&amp;isPopup=true' title='9 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/17667459/posts/default/113081671356985445'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/17667459/posts/default/113081671356985445'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://ribondi.blogspot.com/2005/11/coisa-maternal.html' title='A coisa maternal'/><author><name>Ribondi</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07599085746902668142</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='26' height='32' src='http://cora.blogspot.com/uploaded_images/ribondi.jpg'/></author><thr:total>9</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-17667459.post-113072636670561820</id><published>2005-10-31T00:37:00.000-04:00</published><updated>2005-10-30T22:39:26.723-04:00</updated><title type='text'>Cachorrada</title><content type='html'>&lt;a href="http://photos1.blogger.com/blogger/5241/1707/1600/animais25.jpg"&gt;&lt;img style="display:block; margin:0px auto 10px; text-align:center;cursor:pointer; cursor:hand;" src="http://photos1.blogger.com/blogger/5241/1707/320/animais25.jpg" border="0" alt="" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O avô da Marizete, que era homem dos mais importantes e ricos da cidade do interior goiano, morreu. De uma vez. Cambaleou, levou a mão ao peito, disse “Nossa Senhora” e caiu no chão. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Marizete, quando recebeu a notícia dentro da redação do jornal onde trabalhávamos, parou tudo. Fechou os olhos, ainda sentada em frente da máquina de escrever, cobriu o rosto com as mãos e chorou pelo avô. Para ela, a importância dele era só familiar. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas não para os outros. Durante o velório, poucas pessoas choravam lágrimas sentidas: a Marizete e a família, alguns amigos verdadeiros, uma mulher desconhecida que ninguém sabia por que chorava. O resto, vestido como para recepção no Palácio das Esmeraldas, em Goiânia, estava ali para aproveitar a última oportunidade de bajular o poderoso da cidade de interior de onde, feito trampolim, se pulava para a capital do estado e, depois, para o grande mar da política federal. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O calor abrasava. Na sala, perto do corpo em cima da mesa, as flores se ressentiam da temperatura e reagiam com cheiros fortes, nauseabundos, como se gritassem. As moscas, impacientes, pousavam onde podiam: rostos, mãos, ombros, lábios, flores, paninhos da cômoda, jarros embelezados por rosas de plástico. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O cortejo ia começar, rumo ao cemitério. Três da tarde, as flores verdadeiras se curvavam com o peso do sol quente sobre os ombros. A viúva, acalorada, sentia as ondas do desmaio. A família decidiu que ela ficaria em casa, acompanhada. Um grupo de terno preto discutia quem teria a grande, incomparável honra de segurar o caixão durante o percurso de quase meia hora.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O burburinho acabou por escolher quatro deles. O caixão saiu da sala, passou por toda a rua onde havia morado o falecido, cruzou a rua da farmácia, atravessou a praça, com poucas árvores para cidade de tanto brilho solar, passou em frente à prefeitura e à câmara dos vereadores, ambas com bandeira a meio-mastro, e tomou o rumo da rua íngreme, sem calçamento, que ia dar no cemitério.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Algumas pessoas da rua sem calçamento saíram até as varandas e portões, em silêncio diante de enterro tão distinto. Os cachorros, que dormiam debaixo de roseiras, pés de jabuticaba, jasminzeiros e pés de goiaba, abriram os olhos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um deles, miudinho e enfezado, saiu do conforto e do frescor do chão da cozinha e veio ver. Latiu. Chegou perto do caixão e latiu com mais força. Um outro, que estava aproveitando a terra úmida debaixo da roseira, levantou a cabeça e se interessou pelo assunto.   &lt;br /&gt;&lt;br /&gt; Um grandão, que morava no fundo de um quintal de muro alto, rosnou. Uma cadelinha recém-parida, ainda com as tetas bem penduradas, saiu do ninho, por pura curiosidade. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E todos os cães começaram a latir. Juntos, tomaram coragem e foram chegando. Misturaram-se a todos os pés de sapatos pretos que desfilavam atrás do caixão. Latiam e rosnavam. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O miudinho invocado foi o primeiro a atacar. Agarrou-se à barra da calça de um dos oportunistas que seguravam a alça do caixão e puxou. Balançava a cabeça de um lado para o outro. O dono da calça tentou se livrar, dando safanões. O cão era renitente, insistiu. O homem, sério, ridiculamente pungido, enxotou entre dentes: &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-Sai, porra, sai daí. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O cortejo não ouviu, mas os cães, com audição assombrosa, entenderam perfeitamente. E não gostaram da ofensa. Atacaram. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Cada um escolheu a melhor barra de calça e segurou firme. Com o focinho baixo e o rabo apontado pra cima, fincaram os pés no chão de terra e prenderam os carregadores de caixão. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um homem aproveitou uma das pernas livres e chutou o cachorro que rasgava a calça dele. O cão revidou com força: uma mordida bem dada, generosa, na canela. Ele tentou gritar, mas os enterros são ambientes silenciosos, por definição. Acontece que a dor foi grande e ele, em pânico, largou a alça do caixão. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Desabou tudo. O caixão fez um barulho forte, duro, oco. No alvoroço que se seguiu, tinha cadela latindo, tinha criança gritando em cima de muro, tinha gente correndo para dentro da casa dos outros, tinha dono de cachorro chamando:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-Totó, já para dentro!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E tinha homens de terno que mantinham um certo ar impávido. O calor absurdo reluzia sobre a cidade. O caixão ficou parado, no chão, à espera de socorro. Um cachorro preto aproveitou e fez xixi ali mesmo, na madeira nova. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um homem gritou, impôs respeito. Um outro cachorro, o grande, que morava no fundo do quintal e que tinha pulado o muro no afã de participar, fez a mesma coisa. Para impor o seu devido respeito, mordeu o homem. Com muita força. Mordida definitiva. Aí, espalhou todo mundo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Das janelas, as pessoas e o cortejo observavam. Cães que, acalorados pela discussão, andavam em círculos pela rua e cheiravam tudo. Cadelas que rosnavam e tentavam morder macho que, confundindo as coisas, achava que a reunião era para fins de acasalamento. E, ali, no meio de tudo, largado no chão, o caixão com um morto dentro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Demorou muito até que tudo se acalmasse e as pessoas tivessem coragem de voltar ao cortejo. Foi até bom porque, aí, o sol já tinha diminuído de força. Marizete, quando retomou a rua, não conseguia controlar a gargalhada, diante do espetáculo dos bajuladores do avô.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas havia quem entendesse:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-Coitada, é reação nervosa. Era muito apegada ao falecido.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/17667459-113072636670561820?l=ribondi.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://ribondi.blogspot.com/feeds/113072636670561820/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=17667459&amp;postID=113072636670561820&amp;isPopup=true' title='5 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/17667459/posts/default/113072636670561820'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/17667459/posts/default/113072636670561820'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://ribondi.blogspot.com/2005/10/cachorrada.html' title='Cachorrada'/><author><name>Ribondi</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07599085746902668142</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='26' height='32' src='http://cora.blogspot.com/uploaded_images/ribondi.jpg'/></author><thr:total>5</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-17667459.post-113063699049119207</id><published>2005-10-29T23:41:00.000-04:00</published><updated>2005-11-04T13:35:31.693-04:00</updated><title type='text'>O pai, o filho e o Espírito Santo</title><content type='html'>&lt;a href="http://photos1.blogger.com/blogger/5241/1707/1600/pele4.jpg"&gt;&lt;img style="display:block; margin:0px auto 10px; text-align:center;cursor:pointer; cursor:hand;" src="http://photos1.blogger.com/blogger/5241/1707/320/pele4.jpg" border="0" alt="" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nasci, abri os olhos e vi um mundo feito de pedras, montanhas, morros, orquídeas, jequitibás, jacarandás, lírios, copos-de-leite, marias-sem-vergonha, borboletas, pacas, palmeiras, tinhorões, jacas e carambolas, preguiças, palmitos, mexericas, laranjas-seletas, arapongas e onças. E, no meio da Mata Atlântica, aprendi a reconhecer meu pai, minha mãe e meus dois irmãos mais velhos ao lado de bananas-da-terra, cobras, aipins, taruíras, moquecas de cascudos, tanajuras, bromélias, beija-flores, taboas, e cabritos das montanhas. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tudo fazia frio, tudo cheirava, e, tirando uma ou duas cidades feias e desalmadas, tudo era bonito e forte, no que se parecia muito com o meu pai, bonito e forte, ele também. Sabia que ele era forte porque eu me abraçava ao corpo dele quando a gente, no lombo do cavalo, subia um pedaço puxado de montanha. A trilha era estreita e acompanhava, em volteios e largura, o córrego de voz baixa e jeito cristalino, até chegar no nosso sítio. Era lá que morava uma onça. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas antes da onça, tinha o portão do sítio e, em seguida, a casa onde morava minha avó Virgínia, magra, muito bonita e tão séria e grave que era impossível chegar perto dela e dar um beijo. Sempre falou uma tentativa de português misturado com o vêneto da terra de onde era. Com ela, moravam também o meu tio Ovídio, a mulher dele e os dois filhos. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O chuveiro da casa ficava no terreiro, perto do paiol, da pedra-mó e do enorme pilão de socar arroz.  No alto de uma pedra grande, uma canaleta feita de bambu trazia a água, pesada, macia, barulhenta, para cair de uma vez só no chão cercado de imensas e altas folhas de tinhorão, que serviam de cortina para o banheiro ao ar livre. Era lá que eu me agachava, brincando com sabugos de milho, para ouvir as histórias do meu pai, enquanto ele tomava banho, com o corpo protegido pelas folhas graúdas e muito verdes dos tinhorões capixabas que transformavam os respingos d’água em pérolas bem feitas e escorregadias.   &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Era em cima desse banheiro de água fria que chegavam, nas horas de sol, as borboletas, todas elas, todas as que existissem no mundo, para rodopiar como uma espiral de asas amarelas, brancas, avermelhadas, azuis, furta-cores.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Uma fileira de orquídeas, plantadas e cuidadas por meu pai, enfeitava a varanda, as janelas e os corredores da casa de madeira.   &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E depois do curral, onde as vacas mugiam antes do sol aparecer, como se fossem despertadores exigentes; depois do pasto, onde os cavalos desfilavam com os rabos arrebitados e elegantes; depois do morro inclinado coberto por capim e grama, surgia, no alto, o nosso pedaço da Mata Atlântica, o lugar proibido, a caverna das coisas nunca vistas, o esconderijo do mistério.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Era de lá, a qualquer hora, em dia de sol, em dia de chuva, na boca da noite, ao meio-dia, de manhã cedinho, que vinha o urro. O urro imenso, bravo, bonito, espichado, feliz, valente e nobre da onça.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E no meio da mata, os micos, afobados, gritavam fino. As arapongas, martelos com plumas, abriam o bico para estalar o berro. Os cavalos esticavam as orelhas e o rabo para correr pasto abaixo. Meu tio parava, em silêncio, com a corda na mão. Minha avó, dentro de casa, colocava o dedo indicador sobre os lábios e pedia silêncio.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-É ela. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nessas horas, eu, sentado no parapeito da janela, e meu pai, abraçado a mim, não tínhamos mais nada para fazer, além de ouvir o canto terno e solitário da onça, que acalmava a roça e trazia silêncio até para as águas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Depois, exatamente como pintura a óleo deixada na chuva, as coisas se desmancharam. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Primeiro foram os palmitos, que, antes, chegavam na minha casa, para o preparo da torta capixaba, em troncos grandes e honrosos, e, depois, passaram a aparecer em vidros. Na mesma época, os palmitais, com suas palmeiras perdulárias, derrubadas e mortas a cada colheita, começaram a ocupar os lugares dos jequitibás e das preguiças. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em seguida, os eucaliptos, magros e secos, avançaram desde o norte do Espírito Santo. O cheiro fétido da celulose cobriu o cheiro macio das jacas e das carambolas. As onças e os beija-flores, todos muito delicados, correram para longe. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Minha avó morreu, meu tio foi embora. O sítio se perdeu e a Mata Atlântica, cheia, cheirosa, sombreada, úmida, capaz de produzir névoa que cobrisse o Espírito Santo todo, começou a cair, tronco a tronco, até caírem todas as árvores. Foi nessa época também que os madeireiros capixabas passaram a ser conhecidos como cupins. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E, então, meu pai. O homem das mãos grandes e gentis, dos olhos escondidos de quem vê e não fala, que amava todas as flores e todos os bichos, que sabia alisar pêlo de preguiça e colocar araponga entre os braços, o homem que cheirava a madeira e a vinagre, ele também achou por bem morrer. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Encarei bem o homem deitado, e desisti do Espírito Santo. Só voltei muitos anos depois, para descobrir uma coisa que eu devia saber desde sempre, mas que não contava nem para mim. Que Espírito Santo, tem muitos. Tem para quem quiser ficar mais rico que os ricos. Tem para quem acha bom se amontoar nas praias. Tem também para quem rouba tudo o que encontra. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas tem um outro, que ainda é cheio de borboletas e tinhorões, que continua coberto de neblina e de montanhas verdes, com gente reservada e envergonhada de falar. É nesse Espírito Santo que eu ouço, até hoje, o urro doce e manso da onça. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Porque esse Espírito Santo fica lá, na Mata Atlântica capixaba, que é o esconderijo do mistério.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/17667459-113063699049119207?l=ribondi.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://ribondi.blogspot.com/feeds/113063699049119207/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=17667459&amp;postID=113063699049119207&amp;isPopup=true' title='12 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/17667459/posts/default/113063699049119207'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/17667459/posts/default/113063699049119207'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://ribondi.blogspot.com/2005/10/o-pai-o-filho-e-o-esprito-santo.html' title='O pai, o filho e o Espírito Santo'/><author><name>Ribondi</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07599085746902668142</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='26' height='32' src='http://cora.blogspot.com/uploaded_images/ribondi.jpg'/></author><thr:total>12</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-17667459.post-113054924441487014</id><published>2005-10-28T23:24:00.000-04:00</published><updated>2005-11-06T21:04:41.816-04:00</updated><title type='text'>Catherine em Paris</title><content type='html'>&lt;a href="http://photos1.blogger.com/blogger/5241/1707/1600/sil129_windchimes.jpg"&gt;&lt;img style="display:block; margin:0px auto 10px; text-align:center;cursor:pointer; cursor:hand;" src="http://photos1.blogger.com/blogger/5241/1707/320/sil129_windchimes.jpg" border="0" alt="" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Catherine se transformava em um gato. Aos poucos, ela pegava o jeito, a maneira de andar, o olhar. Isto a gente, Chris, Jean-Paul e eu, ia percebendo dia após dia. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela chegava. Com os cabelos pretos e muito lisos, cortados rente na altura das orelhas, como se fosse um capacete de fios macios, que se moviam quando ela olhava pela janela, ou quando virava a cabeça para soltar a fumaça do cigarro. Entrava, não falava, se sentava e ficava ali, com os olhos grandes e abertos. Ou então se encostava no sofá e dormia, com calma, sem ruídos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Havia quem dissesse que Catherine não tinha o que falar. Até diziam que não era uma mulher brilhante e que, por isso, se calava. Mas, na verdade, ela se tornava um gato, não qualquer um, mas o gato que vivia com ela e que ia junto para todos os lugares, dentro de um cesto de palha onde também estavam guardados o maço de cigarros, a caixa de fósforos, as imensas agulhas de madeira para tricotar, o novelo de lã, o batom, o lápis para sobrancelhas e os cartões-postais que, em momento de tédio, ou de inspiração súbita, ela mandava para os amigos com alguma mensagem curta escrita no verso. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O gato da Catherine saía pouco do cesto. Dele, a gente conhecia os olhos, as orelhas e os pêlos retos do focinho, que eram as partes que ele exibia, quando queria acompanhar as conversas. Tinha seus motivos: um dia, meses antes, estava investigando o apartamento de terceiro andar, numa rua estreita perto de La Bastille, onde vivia, quando se encantou com o pedaço bem recortado do céu grudado na janela e foi lá para ver.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sentou-se no parapeito, olhou, cheirou, enrijeceu os pêlos do focinho, estendeu as unhas afiadas e tentou rasgar o céu. As patas escorregaram e ele caiu, em vôo livre, até o chão cimentado do pátio interno. A partir daí, manco de uma perna, e com o rabo torto, passou a ter pavor de alturas e de espaços abertos. Preferia o cesto. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O silêncio de Catherine também vinha da solidão. Não era solidão escolhida. Catherine e a mãe tomaram rumos diferentes no primeiro dia: uma nasceu e a outra, exausta, morreu. O pai foi interrompido por uma aneurisma e ela, com 15 anos, herdeira do apartamento no terceiro andar da rua estreita, sem avós, sem tios, aprendeu a viver sozinha. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Catherine era um gato lindo. Quando sentia fome de carinho, de amor, de afagos, ela se enroscava nos nossos corpos, com doçura, suavidade. E ficava ali, de olhos grandes, com um sorriso feito faca afiada que cortava seus lábios em dois. Seu jeito descaradamente abusado de pedir carinho, amor e afagos era uma maneira de sobreviver. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Passamos, uma noite, Chris e eu, na casa dela para, depois, irmos os três ao cinema. Ela não estava. Deixamos um bilhete na porta e, duas horas depois, voltamos lá. Como ela ainda não tinha voltado, esperamos sentados na escada. Tarde da noite, desistimos, mas, quando íamos pela rua, a Chris resolveu voltar. Eu fui para casa. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Chris esperou até as seis da manhã. Saiu, comeu no café em frente, e voltou. Eram oito e meia. Chamou a polícia que veio e, com um soco só, abriu a porta. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O gato estava sentado no centro da sala, como uma esfinge do rabo torto. Os olhos imensos, absolutamente redondos, encaravam. As unhas estavam apontadas, ameaçadoras. Os miados, ritmados, longos, eram doloridos, como se falassem dos infernos da alma. E, debaixo do gato, estava o corpo estirado, frio, inerte, pálido, lindo, de Catherine. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela não tinha herdado apenas o apartamento do pai. Ele também tinha deixado o aneurisma para a filha, que, com 22 anos, caiu no chão com o cérebro explodido. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ninguém se aproximava. O gato, sem se mover de onde estava, sobre o corpo, não permitia que incomodassem a Catherine. Apenas girava a cabeça para acompanhar os passos que circulavam pelo apartamento. Depois, lambia as patas e encostava a cabeça no peito da morta. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um dos policiais conseguiu pegar o gato. Ele se contorceu, unhou, miou, usou as patas da frente e as patas de trás para se livrar. Mordeu, escapou e se escondeu debaixo da cômoda da sala. Com os olhos grandes e desesperados, viu o corpo ser examinado, tocado e, finalmente, retirado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando a polícia tentava passar pela porta do apartamento e começar a descer as escadas, o gato pulou. Quis se abraçar ao corpo da Catherine ou quis pedir que ela não se fosse. Mas foi afastado e voltou para dentro de casa. Da janela viu quando passaram pelo pátio.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E, então, invadido por um amor incontrolável, por uma ameaça de saudade que ele não ia nunca poder suportar, esqueceu-se da morna segurança do cesto de palha, perdeu o medo dos espaços abertos, desconheceu os perigos do ar, e pulou de uma vez: o vôo de encontro a Catherine, em outra Paris. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Bateu no cimento e ficou lá. Depois, Chris pegou o gato e saiu, para tratar dos dois enterros.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/17667459-113054924441487014?l=ribondi.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://ribondi.blogspot.com/feeds/113054924441487014/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=17667459&amp;postID=113054924441487014&amp;isPopup=true' title='6 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/17667459/posts/default/113054924441487014'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/17667459/posts/default/113054924441487014'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://ribondi.blogspot.com/2005/10/catherine-em-paris.html' title='Catherine em Paris'/><author><name>Ribondi</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07599085746902668142</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='26' height='32' src='http://cora.blogspot.com/uploaded_images/ribondi.jpg'/></author><thr:total>6</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-17667459.post-113047051503531081</id><published>2005-10-28T01:30:00.000-04:00</published><updated>2005-10-28T00:08:30.326-04:00</updated><title type='text'>O dente perdido</title><content type='html'>&lt;a href="http://photos1.blogger.com/blogger/5241/1707/1600/dogmobile.jpg"&gt;&lt;img style="display:block; margin:0px auto 10px; text-align:center;cursor:pointer; cursor:hand;" src="http://photos1.blogger.com/blogger/5241/1707/320/dogmobile.jpg" border="0" alt="" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mimosa, a minha cachorra quase bassê, perdeu um dente. Em acidente doméstico relativamente grave, mas, de acidentes, a minha casa vivia cheia. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ás vezes, era uma aranha, encontrada na copa, com as pernas cabeludas à mostra – e uma delas eu quis pegar. Acelerei o engatinhamento e estendi a mão, até que alguém, mais alto, mais ágil e mais conhecedor dos perigos que eu, me levantou no ar e me pôs no colo. Outras vezes, era um rato, que passava em disparada perseguido por cães e gatos e iam todos parar embaixo da cama dos meus pais, quando os dois descasavam depois do almoço. Ou, então, era eu, o acordeonista da família. Não achava nenhuma graça naquilo, estudava no Conservatório da Irmã Celeste porque era levado aos empurrões por minha mãe. Mas, uma noite, com a sala cheia de visitas, recebi a ordem:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-Pega lá e toca.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E eu fui e voltei com o acordeão vermelho, feito de madrepérola. Como sempre, abotoei bem a camisa porque me irritava, sempre,  com os beliscões que o fole do instrumento dava em minha barriga. E abri a cintura da calça curta, para poder me sentar melhor. E, aí, toquei o que minha mãe e as visitas achavam encantador: Besame Mucho, Danúbio Azul e Tico-tico no Fubá. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fiquei empolgado com a atenção de todo o mundo e quis ser mais profissional. Decidi me levantar para anunciar a interpretação seguinte. Foi aí que a calça, desabotoada, caiu e escorregou até o meio da canelas. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em pé, imobilizado pela calça, no centro dos risos e gargalhadas, tirei o acordeão do peito. Joguei no chão, e prometi, aos berros: &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-Nunca mais toco isso, nunca mais!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E nunca mais toquei mesmo. Até hoje. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas, o acidente da Mimosa: nos fundos da minha casa, tinha um barranco. Que ia paralelo ao parapeito da varanda comprida, com um tanque onde minha mãe lavava a louça dos almoços, para não sujar a pia da cozinha. Entre o muro e o barranco, sobrava um beco estreito, onde cabiam somente as galinhas, os gatos, as taruíras e, às vezes, eu. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mimosa tinha arranjado a mania de caminhar pelo barranco e, com um salto, ir se sentar em cima do parapeito da varanda que, se era baixo perto do portão, era alto, quase um muro, nas proximidades do tanque. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E, um dia, chovia. Chuva fina, mole, sem pressa para passar. Minha mãe lavava uma quantidade especial de panelas, caldeirões e baldes. Na borda do tanque, punha um pano. Apoiava as panelas cuidadosamente sobre o pano, enquanto esfregava uma bucha com sabão e areia, para tirar a sujeira grossa. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mimosa escalou o barranco, com passos miudinhos. Chegou no ponto que mais gostava. Mirou. Afastou-se um pouco. Mirou bem, para não errar. Enquanto isso, minha mãe, de costas para  barranco, muro e cachorra, areava as panelas empilhadas no tanque.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mimosa pulou. De uma vez. Estava acostumada com o salto e sabia onde ia pousar. Pousou. Mas era dia de chuva e o muro estava molhado. As patas deslizaram. Ela tentou se equilibrar, as unhas rangeram. Buscou equilíbrio. Não conseguiu. Ganiu e levantou vôo novamente, varanda adentro, até que, como um manga madura que despenca de árvore alta, pousou de uma vez só, pah!, na nuca da minha mãe.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Foram bater as duas dentro do tanque, no meio das panelas e caldeirões. O estardalhaço ecoou pela casa: o som metálico das latas e ferros, o grito de pavor de uma e o latido de outra. Quando cheguei na varanda, minha mãe tentava sair do meio do desencontro e Mimosa tentava entender, sem conseguir, o que tinha acontecido. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Minha mãe foi beber água com açúcar. Eu saí às pressas com Mimosa para tratar do sangue que escorria da boca. Era o dente. Perdido para sempre. Meu medo era que o dente fosse encontrado enfiado na nuca da minha mãe, ou nos cabelos dela, mas foi achado, depois, dentro de uma das panelas.   &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Com o copo de água com açúcar na mão, minha mãe foi triunfante até o portão da varanda. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-Essa cachorra podia ter me matado! Podia ter quebrado o meu pescoço e, aí, você ia ver a falta que faz uma mãe. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Jurou, com voz que ecoava entre as árvores, que ia dar cabo de todos os cachorros e gatos, um a um. Que esperassem. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mimosa e eu ficamos um bom tempo escondidos no fundo do quintal. Depois, as coisas se acalmaram, porque não há nervosismo que dure para sempre nem mãe que, um hora, não se lembre que também gosta daquilo tudo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Além do quê, minha mãe quase nunca cumpriu as barbaridades que prometeu.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/17667459-113047051503531081?l=ribondi.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://ribondi.blogspot.com/feeds/113047051503531081/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=17667459&amp;postID=113047051503531081&amp;isPopup=true' title='12 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/17667459/posts/default/113047051503531081'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/17667459/posts/default/113047051503531081'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://ribondi.blogspot.com/2005/10/o-dente-perdido.html' title='O dente perdido'/><author><name>Ribondi</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07599085746902668142</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='26' height='32' src='http://cora.blogspot.com/uploaded_images/ribondi.jpg'/></author><thr:total>12</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-17667459.post-113038019239928015</id><published>2005-10-27T00:29:00.000-04:00</published><updated>2005-10-26T22:35:48.496-04:00</updated><title type='text'>A visita</title><content type='html'>-Então, conta outra vez.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Do que ela contou, várias vezes, ao longo dos anos, ficou a lembrança. As imagens surgiram aos poucos, sem convicção, sem cores fortes. Mas, agora, são completas, visíveis:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A gata estava ali parada na porta dos fundos, que dava para o quintal. Viu e deu o sinal. Estava sentada, apreciando a vida, quando se espremeu toda e ficou arrepiada da nuca até a ponta do rabo. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O bebê estava no meu colo. Vi o susto da gata, mas ela estava calma, achei que não era de ser nada. Prestei atenção e, lá de fora, não vinha barulho, só aquelas coisas de quintal mesmo. Fiquei de olho porque gato é gato, não se arrepia por nada. Os outros dois meninos estavam brincando no quarto. Coisa de criança. Pulavam de uma cama para outra, para ver quem caía primeiro e se espatifava no chão.  &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A gata veio para trás, sem tirar os olhos e sem desmanchar o arrepio. Ficou naquela posição de ataque e eu achei curioso, esquisito mesmo:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-Iá, que coisa. Que será que foi?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tentei me levantar da espreguiçadeira, uma de pano branco com listras. Não achei apoio, não tinha onde. Tentei de novo e desisti. Com um bebê nos braços, não tinha como. Esperei. A gata parou, o rabo em pé.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-E o que era? &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-Entrou pela porta da cozinha. Vinha em tique-taque.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-Em quê?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-Sem ser em linha reta. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-E o que é que vinha em ziguezague? &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-A cobra.&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;Lenta, toda mole, se esfregando, com a língua de fora, porque cobra é cega, não vê, acho que nem olho tem. Parou ali mesmo, ainda com metade do corpo na escada. Era precavida. O único som, no quintal, na casa toda, até na rua, era bem fininho, de criança. Os dois meninos que gritavam para dizer que iam pular. Nem sabiam de nada.  &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um calor. Mimoso do Sul fica muito quente mais para o fim do ano. É que Mimoso é no meio das pedras, acharam um buraco no meio delas e fizeram uma cidade. E o sol vem, bate nas pedras e espalha o mormaço. Entra por debaixo da saia, vai até no coração. A gente fica com um jeito de ser de calor.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-Deu medo quando viu a cobra?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-Medo, medo, não. Mas sei que é perigoso, quem é que vai parado com o bicho daqueles chegando?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nisso, joguei de novo o peito para frente, para me levantar da espreguiçadeira baixa, que estava na cozinha. A cada ida minha, o bebê abria a boca querendo o bico do peito. E a cobra ia entrando pela casa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Lá dentro do quarto, os dois gritavam sem parar. Era assim um som que parecia espetada de agulha, fino, que incomodava, mas sem ser forte.  Chamei um, o mais velho, o que tinha 11 anos: &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-Paulinho...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-O mais velho é o Carlinhos. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-Isso. Carlinhos!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas era a hora do pulo mais importante, para cair sentado na cama que tinha encostada na outra parede, porque os dois dormiam no mesmo quarto. Chamei:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-Carlinhos...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele ouviu, sem sair do lugar. Eu estava arrepiada feito a gata e, aí, tive a idéia de dizer para trancar a porta que a brincadeira ia ficar melhor.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-Ele trancou?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quem dera. Ele fez foi não entender por que ia ficar melhor. Por isso desceu da cama e foi na cozinha, perguntar. Só não gritei por causa da bicha que estava ali. Falei baixo porque quando a gente tem filho novo não dá para sair gritando feito louca:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-Volte pro quarto, agora. Tranque a porta!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele ficou lá me olhando na espreguiçadeira, o irmão mais novo no meu colo. Olhou a gata, e só aí viu a danada que estava inteira dentro de casa. Deu um grito só. Quis correr na cozinha.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quase consegui me levantar, mas a espreguiçadeira se fechou e eu fiquei dentro, apertada. O bebê procurou novamente o bico do peito que roçava na carinha dele. Dei uma ordem e bastou: &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-Volte para o quarto! Fecha a porta!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele voltou e se trancou com o irmão. Os dois ficaram encolhidos na cama, atrás dos travesseiros. Os gritos iam ficando cada vez mais finos. Dei outro solavanco com o corpo. Só que desisti. Fiquei ali, parada. E a gata dando aqueles miados compridos. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O mundo inteiro era da cobra. Comprida, forte, ela se esfregava em tique-taque no chão fresco da cozinha, porque era dia de calor abafado. A gata pulou em cima do rabo do fogão. A cobra parou, elas param quando sentem movimento, para saber onde é. Depois, passou outra vez a deslizar no assoalho fresco, quase gelado. Ai, que horror. Fui ficando muito nervosa. Era um silêncio impressionante. Eu ouvia ela pondo a língua de fora. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas os gritos dos outros dois guiavam a cobra. Ela se espichava, se encolhia, escorria pela casa. Esbarrou na minha sandália e parou. Devagarinho foi mudando de direção, indo mais para lá, mais para cá, até esbarrar no meu pé. Deu uma parada. Ela se preparava e eu também.  Ela começou a se mexer, eu de olho, mas sem me mexer. Pensei no que fazer.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-E fez o quê?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-Nada. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E a cobra escorregava, sem pressa, por cima dos meus pés. &lt;br /&gt;Demorou muito até todo o corpo da cobra passar e eu, ali, sem dizer nada, sem respirar alto, sem mostrar que estava a ponto de perder as forças. Não podia fazer nada, fiquei dura, de boca fechada. De repente, veio um grito do quarto:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-Já dá pra sair?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A cobra também sentiu que a voz vinha de lá. Encolheu o corpo comprido e se espichou no assoalho da cozinha. Foi aí que vi e notei a fresta por debaixo da porta do quarto. Era casa velha. Em dois tempos, medi largura da fresta, medi a cobra. Dava para ela passar por debaixo. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Dentro de mim, eu só pensava nos meus dois filhos, lá no quarto, em cima da cama. Pensava que o Carlinhos não ia saber nem como agir numa hora destas, ele era mais velho e tinha que ajudar o Xandinho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-Paulinho...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-É, ajudar o Paulinho, o do meio. Que naquele dia mesmo tinha ido no barbeiro, cortar os cachos loiros. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas se eles não iam saber o que fazer, foi um berro só: &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-Sai pela janela, leva seu irmão. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A cobra foi se aproximando da porta do quarto. A gata se mexeu em cima do fogão, não se agüentava mais. Aflita. Abria a boca, mostrava os dentes bem finos e chiava pronta para se defender se fosse atacada. Acho que meu grito confundiu a cobra: &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-Pula! Pula agora!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ouvi o barulho da janela, quando eles abriram. Ouvi os pulos, os gritos, a corrida pelo quintal. Quando entraram pela porta da cozinha, de mãos dadas, a cobra, lenta, até calma, se virou para trás. Espichava a língua para saber aonde ir. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-Depressa, aqui.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O mais velho veio, tirou o bebê do meu colo e só aí deu para me levantar. A espreguiçadeira se desmontou no chão. Acho que eu tremia toda, não conseguia enfiar os pés nas sandálias. Até tentava, mas, em vez de calçar, empurrava para longe com os dedos, me confundia toda. Saí descalça. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-Vamos embora. Vem, vem. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas tudo isso eu dizia baixinho, até para não assustar mais os meninos. E a gente foi para o quintal, com a cobra vindo também. Nisso, a gata pulou do fogão e parou na porta. Veio a cobra, e a gata se levantou, com as patas para frente. Miava como se estivesse doida. Carlinhos é que dizia:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-Sai daí, sai daí.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas a gata ficou lá, na porta. Até que a cobra mudou de rumo e foi embora, pela frente da casa. Só aí a gente voltou e, de noite, os meninos gritavam sem parar, contando para o pai. Ninguém quis dormir separado. Foi todo o mundo para a mesma cama.  A gata ficou no quintal, de olho. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-E eu? Não gritei, não fiz nada?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-Nada, era como se você soubesse, o tempo todo. Não tinha nada mais silencioso lá em casa naquela hora do que você e a cobra.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/17667459-113038019239928015?l=ribondi.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://ribondi.blogspot.com/feeds/113038019239928015/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=17667459&amp;postID=113038019239928015&amp;isPopup=true' title='6 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/17667459/posts/default/113038019239928015'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/17667459/posts/default/113038019239928015'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://ribondi.blogspot.com/2005/10/visita_27.html' title='A visita'/><author><name>Ribondi</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07599085746902668142</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='26' height='32' src='http://cora.blogspot.com/uploaded_images/ribondi.jpg'/></author><thr:total>6</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-17667459.post-113032968199843581</id><published>2005-10-26T10:26:00.000-04:00</published><updated>2005-10-26T08:28:02.006-04:00</updated><title type='text'>Onde se lê leia-se, leia-se lê</title><content type='html'>No texto "Tudo por você", onde se lê sarda, leia-se sarna. &lt;br /&gt;Um dia ainda aprendo como corrigir esses textos sem ter que apagar tudo.&lt;br /&gt;Alguém sabe me dizer como é que faz?&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/17667459-113032968199843581?l=ribondi.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://ribondi.blogspot.com/feeds/113032968199843581/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=17667459&amp;postID=113032968199843581&amp;isPopup=true' title='11 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/17667459/posts/default/113032968199843581'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/17667459/posts/default/113032968199843581'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://ribondi.blogspot.com/2005/10/onde-se-l-leia-se-leia-se-l_26.html' title='Onde se lê leia-se, leia-se lê'/><author><name>Ribondi</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07599085746902668142</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='26' height='32' src='http://cora.blogspot.com/uploaded_images/ribondi.jpg'/></author><thr:total>11</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-17667459.post-113029379598421611</id><published>2005-10-26T00:29:00.000-04:00</published><updated>2005-10-26T09:08:30.750-04:00</updated><title type='text'>Tudo por você</title><content type='html'>O Zé e a Glória nem sabiam se eu gostava de cachorro, mas também não sabiam que eu gostava de roça. Ficaram surpresos quando disse para eles que aparecessem na Vila Mateus, a casa branca de Olhos d’Água, o lugarejo velho, dedicado a Santo Antônio, à direita de quem sai de Brasília para Goiânia, e, para isso, é preciso largar tudo, asfalto, cidades, sinalização e se embrenhar Goiás adentro, até parecer que não tem mais para onde ir, e, aí, é lá. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O Zé e a Glória chegaram de motocicleta, mas ela, em vez de na cabeça, levava o capacete pendurado no antebraço, como uma cesta, e, dentro, uma coisa pequena, redonda, felpuda, como duas bolas. Uma, a cabeça e a outra, o corpo. Quando pus as mãos dentro do capacete, ele me esperava com movimentos apressados do rabo, apreensivo e pronto para ser feliz. Já era o Lula, o meu Lula. Sendo eu, o Alexandre dele. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Foi pequeno por muito pouco tempo, porque parecia querer ser adulto. E quando cresceu, mostrou o que era. Porte médio, pêlos longos cor de caramelo e uma gola branca que se estendia, caprichosa, sobre o peito. O focinho era afilado, o que garantia um perfil esguio, com ares de alta velocidade. Ninguém sabia nada da  família dele, porque tinha sido comprado num bar, às três horas da madrugada. Mas parecia de raça. Em algum galho alto da árvore genealógica, devia haver um collie elegante que observava o Lula. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele me ensinou coisas importantes. Foi ao lado dele que conheci o estado de Goiás, para entender que, ao contrário do que dizem as ciências, a terra não é redonda. É plana, reta, enfeitada por relevos suaves, córregos prateados, buritis espalmados, ipês amarelos, lilás, vermelhos. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Também foi ele que me ensinou a técnica de procurar poços escondidos no cerrado e ficar à espera do momento certo. Imóvel, em silêncio, é preciso aguardar até que o sol chegue no ponto certo, em temperatura e localização, para pular na água, de uma vez. Eu, com um grito, as pernas dobradas à altura do joelho. Ele, com um latido firme, um só, o rabo tenso, firme. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aprendi a andar mato adentro, sem me preocupar com cobras ou arranhões graves. Era só mantermos o combinado: eu olhava o mundo. Lula cheirava a paisagem. Um completava o outro. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De noite, na varanda, quando os grilos pensavam em voz alta, os sapos arrotavam e os abacates explodiam ao bater no chão sem luz, ele me ensinava as coisas silenciosas. Lula era contemplativo. Nunca abanava o rabo em excesso, pulava e saltava apenas o suficiente para mostrar contentamento e, depois, se recolhia. De noite na varanda, mostrava a maneira correta de olhar para nada, e enfrentar uma hora, duas horas, três horas com a resignação da felicidade absoluta. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pelo Lula, desejei ser cão. Invejei os pêlos dele, que brilhavam como seda pura. Quis ser apenas o essencial, que, sem nada, tem tudo. Sonhava me deitar na laje fresca ou debaixo da cama ou no meio da cozinha e estar satisfeito. Planejava ter fome até esperar pela comida com os olhos cheios de atenção e brilho, como se a fome fosse o único desejo sincero. E pretendi amar como se nada, fora do amor, fosse real, plausível ou sustentável. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um dia, o Lula se coçou. Com a pata traseira, arranhou a orelha. No outro dia, a coceira estava lá. Uma semana depois, foi para o hospital em Brasília. A coceira já marcava as orelhas, a barriga, o peito, as coxas. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Levaram o Lula para uma mesa alta, de ferro. Ele esperou. Rasparam a pele, tiraram sangue, examinaram cocô e xixi. Não era alergia. Não era sarna. Não era zequizira. Não sabiam o que era. Ele voltou para casa, em Brasília. Sentou-se para se coçar. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não demorou muito para voltar ao médico. Desta vez, já entrou no hospital com a cabeça baixa, um jeito lento e servil de andar. Ele, mais que os médicos, sabia que era grave. Outra vez, tiraram raspas da pele, sangue, xixi, cocô, temperatura. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em casa, o pêlo começou a rarear. O rabo, sempre em pé e curvado na ponta, como uma pluma, se tornou apenas um fio de carne escura. O peito estava marcado pelas unhadas. Ele se sentava, se levantava, girava sobre si mesmo, se coçava, voltava a se sentar e, outra vez, muitas vezes, se levantava. Ia da cozinha para o corredor, de lá para o banheiro, entrava no quarto, buscava os cantos. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Uma manhã, ele cheirou mal. Dei banho. A água aliviava as coceiras. O cheiro apaziguava-se, mas, em seguida, voltava, intenso, ácido. Eu esfregava os cremes na pele dele. Ele me olhava com paciência. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando lindo, as pessoas chegavam perto, perguntavam nome, idade, raça, queriam saber se tinha filhos. Seis meses depois do primeiro sintoma, ele caminhava sozinho, como se sua passagem fosse uma ousadia de lepra. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Até que não quis mais sair de casa. Queria ficar sozinho. Às vezes, eu me abaixava perto dele e o abraçava. A felicidade destes momentos era quieta, imóvel. Depois, me lavava para tirar o cheiro insuportável do meu cachorro que se desmanchava vivo. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Passados nove meses de visitas a todos os médicos da cidade, ele me chamou. Não tinha pêlos. Os olhos eram ainda felizes, como uma gratidão a tudo. Ficamos nós dois sentados, um ao lado do outro. Não chorei nem nada. Mas ele me lembrou os momentos mais bonitos de nós dois, cada um deles. Levantou a pata e me tocou. Depois, se coçou. Aí, eu me afastei. Pensei que fazer tudo, tudo por você, não era só buscar a salvação. Era perceber a total ausência de crueldade, a absoluta inocência que há nas coisas de morrer. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Lula tinha 11 anos e três meses. Foi uma boa vida. A minha, ao lado dele, foi.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/17667459-113029379598421611?l=ribondi.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://ribondi.blogspot.com/feeds/113029379598421611/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=17667459&amp;postID=113029379598421611&amp;isPopup=true' title='8 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/17667459/posts/default/113029379598421611'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/17667459/posts/default/113029379598421611'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://ribondi.blogspot.com/2005/10/tudo-por-voc.html' title='Tudo por você'/><author><name>Ribondi</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07599085746902668142</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='26' height='32' src='http://cora.blogspot.com/uploaded_images/ribondi.jpg'/></author><thr:total>8</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-17667459.post-113015721076304146</id><published>2005-10-24T10:31:00.000-04:00</published><updated>2005-10-24T08:34:25.973-04:00</updated><title type='text'>Mensagens num iceberg</title><content type='html'>&lt;a href="http://photos1.blogger.com/blogger/5241/1707/1600/TRSW3.jpg"&gt;&lt;img style="display:block; margin:0px auto 10px; text-align:center;cursor:pointer; cursor:hand;" src="http://photos1.blogger.com/blogger/5241/1707/320/TRSW3.jpg" border="0" alt="" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aprendi muitas coisas ali, às margens do Mar Báltico. No Centro de Criatividade Alternative, em Heiligenhafen, onde eu trabalhava com adolescentes, conheci algumas novidades do início dos anos 70. Uma delas era uma mesa que, em vez de ser de madeira, era feita de uma enorme tela preta ligada na tomada, onde deslizavam imagens coloridas, que, como amebas ou bolhas de sabão, mudavam de forma e de cor, enquanto o café, o chá, o chocolate eram servidos sobre o caleidoscópio gigante.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;As bebidas quentes eram extremamente úteis. O café servia para dar energia e trabalhar com os garotos e garotas, pouco mais novos que eu, que passavam o dia, e a noite, na Alternative, em um salão envidraçado virado para o mar, comandado por Rainer, um homem alto, de fala tranqüila, sorriso escondido, que, por circunstâncias do clero e da nacionalidade, parecia ter pedigree: era um pastor alemão. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O chá e o chocolate eram o refúgio contra o outono alemão, que brilhava sobre o porto de Heilengafen, e o sul da Dinamarca, com cores vivas, como se, em vez de estação do ano, fosse caixa de lápis de cor enlouquecida com vermelho, cor-de-abóbora, azul-claro, azul-escuro, roxo, amarelo, lilás.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas a grande novidade era outra: um aparelho do tamanho e peso de uma câmara de cinema. Com uma diferença suprema, que era a de mostrar, em seguida, o que tinha acabado de ser filmado, sem precisar mandar revelar no laboratório. Bastava, para isso, colocar a fita recém-gravada em um aparelho especial, acoplado ao aparelho de televisão, e lá estavam as imagens de um minuto atrás. Cheguei a escrever uma carta ao meu pai sobre as maravilhas que eu via na Alemanha moderna, rica, silenciosa e plana. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E foram as duas cartas do meu pai, como paisagens de nanquim; com riscos curvos, longos, ondeados, como se o alfabeto fosse um lago de cisnes; com o H sempre altaneiro entre o A e o I, para me perguntar “como está o frio ahi?”; foram essas duas cartas, mandadas com demora entre elas, que faziam com que eu me sentisse um navegante perdido nas águas azul-chumbo do Mar Báltico. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas era a letra dele que desenhava o mapa da volta. Meu pai transformava tudo, telefonemas, abraços, passeios de mãos dadas, saladas de agrião, bilhetes, melancias vermelhas abertas em cima da mesa, tudo o que tocava, em cartas de amor. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Peguei a câmara nova e fui para a praia, a cinco passos da minha casa com varanda para o mar. O mar fica esquecido quando chega o outono. Entre minha casa e o mar, havia um lago fino, comprido, como uma pista de pouso e de decolagem. Lá, as águas frias, arrepiadas pelo vento rasteiro, estavam cobertas por patos que, com sons mais ou menos estridentes, discutiam o trajeto para o sul. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Arrepiavam as penas, batiam as asas, afiavam os bicos. Todos se preparavam para o grande vôo. Outros patos chegavam e abanavam o rabo para se ajeitarem na água. A algazarra tinha a  ansiedade dos aeroportos. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E, no meio dos patos, colocado como um copo-de-leite em pé na superfície da água do lago comprido, como um bibelô branco e dourado em cima da mesa da casa da minha mãe, ele, o cisne. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Apontei a câmera. Esqueci o frio do outono, as cores do fim da tarde, e entrei no lago, com águas até os joelhos. Saboreava tudo: penas, asas, pescoço, bico. Eu era o paparazzo das aves alemãs.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O cisne me olhou. Girou o pescoço como uma grua e me encarou através da lente da câmara. Ergueu-se lentamente como um iceberg majestoso, imenso, branco.  Pela lente, percebi que a maré não estava para peixe. O cisne esticou o pescoço, abriu o bico, enrugou o cenho. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Dei dois passos para trás, na água. Ele avançou. Segurei a câmera com firmeza e saí do lago até a faixa de areia estreita que, em seguida, acabava no mar. Ele veio atrás, como uma celebridade decidida a espancar paparazzo. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Saiu da água. Mas era imenso, gordo, pesado. Caminhava com dificuldade, como se fosse um elefante com o mais lindo pescoço do mundo. Corri. Ele voltou para a água e, aí, tornou-se leve e suave outra vez. Mostrava apenas a ponta do iceberg que, de tão branco, era quase azul, luzidio. Abaixo da superfície do lago, escondia o resto, um bloco imenso. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Voltei ao lago no dia em que descobri que o outono é, também, uma caixa de música. Os patos, os passarinhos, os cisnes cantavam para anunciar a partida. Corri para lá. Os patos aceleravam a velocidade dentro d’água, batiam as asas, moviam os bicos e, depois, levantavam vôo. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E, no meio deles, o cisne. Deslizou sobre as águas como um barco. Ondulou o pescoço como se fosse uma vela soprada pelo vento. Bateu as asas brancas. Correu no lago. Mais. Mais. Seu corpo imenso começou a vir à tona. Ergueu-se acima da água, mas ainda voou baixo até o fim do lago. E, então, empinou como um avião sobre a baía da Guanabara, encarou o céu, e foi.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Corri ao longo da praia como se levasse o fio de um papagaio. Não perdia o cisne de vista enquanto ele, pouco a pouco, diminuía de tamanho, se tornava asas serenas sobre o Báltico. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Corri mais, queria ir junto. Parei de uma vez. Todas as cores se misturavam no céu da Alemanha. Pus as mãos em forma de funil em volta da boca e gritei:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-Diz para o meu pai que estou bem. Que um dia volto.     &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Acenei e esperei o cisne desaparecer. Ele era o branco da caixa de lápis de cor.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/17667459-113015721076304146?l=ribondi.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://ribondi.blogspot.com/feeds/113015721076304146/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=17667459&amp;postID=113015721076304146&amp;isPopup=true' title='7 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/17667459/posts/default/113015721076304146'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/17667459/posts/default/113015721076304146'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://ribondi.blogspot.com/2005/10/mensagens-num-iceberg.html' title='Mensagens num iceberg'/><author><name>Ribondi</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07599085746902668142</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='26' height='32' src='http://cora.blogspot.com/uploaded_images/ribondi.jpg'/></author><thr:total>7</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-17667459.post-113008522261400869</id><published>2005-10-23T14:24:00.000-04:00</published><updated>2005-10-23T12:33:42.626-04:00</updated><title type='text'>De como interromper</title><content type='html'>&lt;a href="http://photos1.blogger.com/blogger/5241/1707/1600/screammwm.gif"&gt;&lt;img style="display:block; margin:0px auto 10px; text-align:center;cursor:pointer; cursor:hand;" src="http://photos1.blogger.com/blogger/5241/1707/320/screammwm.gif" border="0" alt="" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nunca tinha ouvido falar da República de Trinidad-e-Tobago, as Índias Ocidentais, livre da Inglaterra desde 1964. Anos depois, fui trabalhar na embaixada deles, em Brasília. Era o bilingual secretary da representação diplomática do país das steel bands, do calipso, da angostura e do bacalhau com abacate.  &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tudo moderno. Tinha telefone com PABX, máquina de escrever elétrica, cofre pesado com segredo onde eram guardados talões de cheque para pagar os funcionários, notas fiscais de compra de papel higiênico e sabonete, correspondências pessoais dos diplomatas. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vez ou outra, alguma coisa acontecia na chancelaria enfiada dentro de uma casa de dois andares na avenida W3-Sul, cercada de árvores e gramado verde. A casa ao lado era uma pensão com serviço de almoço. A manhã começava a acabar e a embaixada era invadida, nos dois andares, por um aroma abusivo e penetrante de bife com pimenta-do-reino e mandioca cozida. De chuchu ensopadinho com arroz solto. De feijão com carne-seca. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O embaixador, que era o decano de fato do corpo diplomático estrangeiro em Brasília, um homem entrado nos 50 anos, moreno dos cabelos grisalhos, tinha, além da esposa - uma canadense loira e espigada -, uma amiga brasileira, novinha, capaz de entrar em calças compridas que não aceitariam sequer uma das minhas pernas. E eu era magro.  &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Então, o motorista da embaixada tinha a função de, em caso de visita da amiga, ficar na porta dos fundos para dar o sinal se surgisse a esposa do embaixador. Eu, como bilingual secretary, tinha que me ocupar da porta da frente, sobre a qual balouçava a bandeira trinitária.&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;A manobra, que consistia em 1) motorista pelos fundos e 2) eu pela frente, sempre deu certo. E a vida seguia calmamente na nossa Trinidad-e-Tobago, o país que não tinha grandes razões para manter escritório de representação no Brasil. Mas eu, no rigor da análise, não tinha nada a ver com isso. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Uma tarde, o salão da embaixada, que também era o meu escritório atrás do balcão de madeira escura, foi invadido por um casal de cachorros. Não entraram separados. Entraram juntos. A bem da verdade, apesar de unidos, olhavam em direções opostas. Um dava um passo à frente, o outro era levado junto, de costas. Os cães têm esse momento constrangedor, assim como nós, humanos, passamos pela mesma coisa quando, em seguida aos confrontos carnais, um olha para o outro e, sem nada para dizer, pergunta:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-Quer que eu te chame um táxi? &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E ficam os dois, ali, aflitos, mais ou menos constrangidos, num silêncio de fazer dó, à espera do carro que levará um para longe do outro, definitivamente. Então, era assim: os dois cães que invadiram a embaixada estavam à espera do táxi. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eles não se contentaram com o salão. Passaram pela segunda sala, onde trabalhava a contabilidade - e onde ficava o cofre pesado, com segredo – e marcharam, um puxado pelo outro, para a cozinha. O motorista viu e se escandalizou. Lembrou que água fria resolvia. Ou uma vassourada. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Abri os braços. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-Gostaria que fizessem isso com você numa hora destas?&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;Iniciou-se o bate-boca sobre sexologia. Eu numa posição extremada e ele, em outra. Nisso, a amiga do embaixador chegou, sorriu com o jeito meio acanhado que tinha, caminhou com as calças justas de amásia, e subiu as escadas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas, como a discussão continuava acalorada na cozinha, eu não pude ver que a esposa do embaixador, a canadense loira e espigada, tinha entrado pela porta da frente, poucos minutos depois. Fiquei sabendo mais tarde, mas, aí, já era tarde demais.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os cães entrelaçados estavam voltando, sob minha escolta, para o salão principal, quando o primeiro pitaco teve lugar no de cima. Foi um som relativamente agudo, algo como um cinzeiro Kosta Boda que voasse rumo a uma testa e, num erro de mira, batesse contra a parede.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Depois, aconteceu novo estardalhaço, mas de outra ordem. Era som humano, destes que costumam ser emitidos para comunicar dor profunda. A amiga do embaixador bateu lá embaixo, de uma vez só, como uma jaca adúltera, desconhecendo a técnica de usar os degraus da escada. Os cães se agitaram, mas estavam tecnicamente impossibilitados de tomarem grandes atitudes, já que não se conheciam bem e tinham gostos totalmente diferentes. Eram dois estranhos, por assim dizer. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Outro grito veio do segundo andar. Também humano, mas, desta vez, masculino, Precedido de um som duro, pesado, como uma cadeira que se espatifa. Lá embaixo, a amiga do embaixador, numa tentativa diplomática de mostrar que tinha caído das escadas por puro acidente doméstico, limpou as calças apertadíssimas, e saiu correndo porta afora.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No segundo andar, no entanto, era o pandemônio. Os cães se assustaram e tentaram correr. Cada um para o seu lado. O macho, mais franzino, foi arrastado até o balcão. Ganiu. E quem não ganiria sendo puxado assim, de forma tão esmagadora? &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O embaixador, lá em cima, ganiu também. Eram os machos sendo devorados por fêmeas enlouquecidas, tensas, nervosas. E começou a pancadaria propriamente dita. A cadela tentou morder o cão que não largava do seu pé. A embaixatriz desceu o braço. O resto do corpo diplomático tentou apaziguar. Mas era guerra mesmo. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Desceram as escadas aos trancos e barrancos. Eu, ainda jovem, nunca tinha visto uma autoridade apanhar de maneira tão impiedosa. O cão entrou em pânico. A embaixada ardia. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A cadela se soltou. O macho correu, enquanto ela, a fêmea, ali mesmo no salão, se sentava, esticava a perna traseira, como professora de ginástica aeróbica que mostra a posição certa, e se lambia. O embaixador saiu de cabeça baixa e, com passos rápidos, entrou no carro. Um mês mais tarde pediria remoção do cargo, de volta à sua ilha caribenha.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Depois, veio ela, a loira espigada. De cabeça erguida, sem que o nó do lenço no pescoço tivesse ao menos se contraído um pouco, como se nada tivesse acontecido, como se a embaixada estivesse na mesma pachorrenta e adormecida atividade de sempre, cumprimentou todo o mundo, no seu jeito canadense de ser:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-Hellooooooo. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E entrou no carro, para ir atrás do marido.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No fim da tarde, depois de retirarmos a bandeira do mastro, com uma falsa solenidade, fui embora para casa. Caminhava no  gramado verde, coberto por árvores bem plantadas, em direção ao meu carro, quando reencontrei a cadela. Olhou para mim, sentada, com o corpo sendo sacudido pela língua pendurada boca afora. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Parecia estar se controlando para não cair na gargalhada.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/17667459-113008522261400869?l=ribondi.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://ribondi.blogspot.com/feeds/113008522261400869/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=17667459&amp;postID=113008522261400869&amp;isPopup=true' title='11 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/17667459/posts/default/113008522261400869'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/17667459/posts/default/113008522261400869'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://ribondi.blogspot.com/2005/10/de-como-interromper.html' title='De como interromper'/><author><name>Ribondi</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07599085746902668142</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='26' height='32' src='http://cora.blogspot.com/uploaded_images/ribondi.jpg'/></author><thr:total>11</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-17667459.post-112995097820289757</id><published>2005-10-22T13:14:00.000-04:00</published><updated>2005-10-21T23:16:18.206-04:00</updated><title type='text'>Indagações sobre o camelo</title><content type='html'>&lt;a href="http://photos1.blogger.com/blogger/5241/1707/1600/camelo2.jpg"&gt;&lt;img style="display:block; margin:0px auto 10px; text-align:center;cursor:pointer; cursor:hand;" src="http://photos1.blogger.com/blogger/5241/1707/320/camelo2.jpg" border="0" alt="" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Chego, pelas 8 da noite, e o Aeroporto de Bagdá é uma grande feira. Mulheres cobertas de pano; homens que, pela altura da voz, parecem gritar pregões; crianças deitadas em malas, caixas, embrulhos; galinhas, cabras; ocidentais perdidos; melancias, tâmaras. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Caminho até a calçada e entro no carro que me espera. No vidro traseiro, o lado direito tem um furo redondo, bem marcado, de uma bala. Escolho, então, o lado esquerdo, mas o motorista, com fiapos de inglês, me avisa que, como já haviam acertado a direita, irão, agora, mirar a esquerda. Aceito a ponderação dele e mudo de lugar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O carro sai rumo à cidade. Meu coração, acelerado. Minha boca anseia por sabores. Meu nariz, por cheiros. Meus olhos, loucos por paisagens e corpos. Entro em Bagdá, a cidade com nome que tem tradução: “presente de Deus”. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na manhã seguinte, saio do hotel. 40 graus. Meus olhos giram, enlouquecidos. Sol. Areia. O rio Tigre ladeado por terras baixas. Tamareiras. Mais tamareiras. Milhares de tamareiras. Estou cercado delas. Muros. Chás. Laranjas. Uma loja de melancias. Risos. Gritos. Tiros. Casas derrubadas. Guerra do Golfo. Soldados. Sorrisos. O som doce da língua de Alá. Homens que andam de mãos dadas. Bagdá, linda.   &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Entro numa rua, decidido a me perder. O calor escorre por meu corpo. Cheiro de carne. Cheiro de urina. Ouro e prata na vitrine. Passo em frente a um prédio. Na varanda do terceiro andar, um camelo. Uma mulher coberta dos pés à cabeça dirige um carro. Homens se beijam no rosto. Crianças correm. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um camelo no terceiro andar? &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Volto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Paro na calçada em frente ao prédio. Um camelo na varanda do terceiro andar. Os olhos vesgos e soberbos, os maxilares desencontrados. O pescoço longo se estica para lá e para cá. Vasculha a cidade. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sento-me no bar em frente. Peço chá. Os homens de Bagdá sorriem. As mulheres, não sei. Estão escondidas como pássaros em gaiola coberta por pano preto. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O camelo continua na varanda. O calor aumenta. O chá refresca. Pergunto, a mim mesmo, o que o camelo faz ali. Subiu como? Empurrado escada acima pelos homens da casa? Para que serve um camelo no terceiro andar da cidade dada por Deus? Ele gira a cabeça para o rio Tigre. Acompanho o olhar dele: tamareiras. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A guerra arrebenta tudo. Penso no camelo. Desceu as escadas e se salvou? Caminhou lento, indiferente e elegante pelas ruas de Bagdá? Para ele, o que é o céu quando explode? Um camelo em pânico, nunca vi. Ninguém leva susto no deserto. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Chego em Copacabana. Do hotel, ligo para uma amiga e digo que venha. Pouco tempo depois, Cora, a amiga, chega com uma valise e se instala. Na varanda, vemos o prédio em frente, do outro lado da rua. No quinto andar, uma mulher sozinha, sentada no sofá folheia uma revista. Sobre sua cabeça, no andar de cima, no meio da sala do apartamento, uma kombi. No sétimo andar, dois homens conversam na janela. Talvez olhem para nós.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Uma kombi no sexto andar? &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Voltamos o olhar para lá.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-Você viu?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-Vi.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-Em Bagdá, tinha um camelo no terceiro andar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-Mas um camelo se desenvolve. Vai ver, subiu bebê e cresceu lá em cima. Agora, uma kombi?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-Talvez desmontada, peça por peça?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-Acho pouco provável. E, depois, para quê? &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A mulher, embaixo, ainda lê a revista. Os homens, em cima, ainda olham pela janela. A kombi continua no mesmo lugar, no centro da sala. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Olho para o resto da cidade. Mulheres de biquíni. Homens que, pela altura da voz, parecem gritar pregões. Crianças dormem nas calçadas, em cima de caixas de papelão. Uma loja de sucos de frutas. Tiros. Meninos pela rua. Camelôs. O mar. 40 graus. As favelas. Risos. Soldados. Abacaxis. Mangas. Homens que passam abraçados. Gargalhadas. O som doce da língua de Deus. Rio de Janeiro, lindo.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/17667459-112995097820289757?l=ribondi.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://ribondi.blogspot.com/feeds/112995097820289757/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=17667459&amp;postID=112995097820289757&amp;isPopup=true' title='11 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/17667459/posts/default/112995097820289757'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/17667459/posts/default/112995097820289757'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://ribondi.blogspot.com/2005/10/indagaes-sobre-o-camelo_112995097820289757.html' title='Indagações sobre o camelo'/><author><name>Ribondi</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07599085746902668142</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='26' height='32' src='http://cora.blogspot.com/uploaded_images/ribondi.jpg'/></author><thr:total>11</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-17667459.post-112985785294159780</id><published>2005-10-20T23:21:00.000-04:00</published><updated>2005-10-20T21:25:38.603-04:00</updated><title type='text'>Kuk</title><content type='html'>&lt;a href="http://photos1.blogger.com/blogger/5241/1707/1600/CASTUPVK.jpg"&gt;&lt;img style="display:block; margin:0px auto 10px; text-align:center;cursor:pointer; cursor:hand;" src="http://photos1.blogger.com/blogger/5241/1707/320/CASTUPVK.jpg" border="0" alt="" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O que é para fazer, que atitudes tomar, quando a gente vai andando por uma rua, tarde da noite, e acha um gato adolescente, ainda tropeçando na vida, totalmente perdido? Você põe no colo, acaricia a cabeça, faz cócegas na barriga, pergunta o que que foi. Mas, depois, o que fazer se você também está quase tão perdido quanto ele, em um país estranho, com língua de palavras ocas? &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Era assim que eu me sentia em Estocolmo, pelas duas da madrugada, vindo, a pé, de um bairro alto, derramado sobre o mar,  chamado Mariaberg, de que tinha compreendido, até então, duas coisas. Primeiro, Maria era Maria mesmo. E, depois, berg quer dizer monte ou morro, o que fazia da Mariaberg o Morro da Maria e, do iceberg, um monte de gelo.  Viajar é sempre muito ilustrativo. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tinha, até aquele dia, aprendido outra coisa também. Quando fui ter uma reunião, das sérias, com uma diplomata sueca, no Itamaraty deles, resolvi anotar uma palavra que, em vários pontos da cidade, tinha sido escrita em muros: kuk. Pensei, sinceramente pensei, em Komunist-Union-alguma-coisa e, na sala elegante e acarpetada, perguntei à ministra sueca o que aquilo, afinal de contas, queria dizer. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela me encarou, coçou a testa, me encarou outra vez, sugeriu um minúsculo sorriso, tossiu. Eu, já me espremendo contra o encosto do sofá, pensei bem baixo, tão baixo que mal dava para que eu mesmo ouvisse meu pensamento:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-Ah, minha Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, é palavrão...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E era. Kuk é parente próximo do cock inglês e parente afastado (por serem eles nórdicos e, nós, latinos) do nosso piru. Kuk era caralho. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas vai daí que eu ia pelas ruas de Mariaberg em direção a Gamla Stan, a Cidade Velha, onde eu estava vivendo aqueles dias, e achei o gatinho. Ele miava, possivelmente de fome. Ou de frio, porque o vento corria desde a Lapônia até as minhas mãos congeladas. E, com as mãos frias, peguei o bicho abandonado e pensei no que fazer. Olhei para um lado. Olhei para o outro lado. Não reconhecia nada. Mas sabia que, por tradições nórdicas, muitos bares, em dias de inverno, deixam pequenos fogareiros acesos no chão, em frente à porta, para avisar que somos bem vindos e que podemos entrar. Se achasse um, tentaria conseguir leite. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando já estava perto da cabeceira de uma das pontes que ligam as milhares de ilhotas de Estocolmo umas às outras, como se fosse uma Veneza dedicada a Thor, vi três homens. Eram rapagões, usavam calças jeans apertadas, botas de cano alto, casacos de couro enfeitados com alfinetes e correntes. Altos. Andavam como quem marcha. Continuei minha caminhada rumo à ponte.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas eles me chamaram. Como não sou dado à língua sueca, de que só sei dizer “at vara eller inte vara” (“ser ou não ser” – e não sei por que aprendi isso, já que nunca usei em padarias ou farmácias), apenas me virei e olhei, à espera que eles preenchessem o buraco deixado pelas palavras vazias e insossas que me dirigiam. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por isso, se aproximaram em semicírculo. O parapeito da ponte, eu e o gato, e, na nossa frente, eles, fechando a roda. Alguma coisa me dizia que eu devia exclamar kuk e sair correndo. Mas, pelo sim, pelo não, fiquei, com olhar de expectativa. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eles me olharam de cima embaixo. Era um olhar ensaiado, teatral. Como que examinassem minhas roupas, meu nariz, meus óculos, meus cabelos e meus olhos, que não eram azuis. São castanhos. Um deles se aproximou mais ainda, eu olhei para o mar que passava embaixo da ponte. O gatinho se ajeitou nas minhas mãos. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-Você é de onde? &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Se eu respondesse, eles falariam de palmeiras, de futebol e de carnaval? Achei que não. O tom de voz do rapaz que me fez a pergunta era cortante, era cínico. Tinha uma suspeita de maledicência que eu já havia sentido quando ele encarou os meus olhos. Que são castanhos. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Percorri o mapa da Europa em um segundo. Reduzi o espaço e vasculhei o mapa da União Européia, à procura de uma nacionalidade segura, que não suscitasse orgias de nazismo tardio.  &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-Itália. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um deles falava italiano, cazzo! kuk!  Tentei responder que era de Veneza, de Verona, de Mântua. Eles se olharam e um deles deu mais um passo à frente, diminuindo o semicírculo, o que me espremeu mais ainda contra o parapeito da ponte de Mariaberg. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Insisti:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-Provem que não sou italiano. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tentaram me vasculhar para encontrar o passaporte. Empurrei os intrusos com uma das mãos, enquanto segurava o gatinho com a outra. Eles se alvoroçaram. Eu também, já que estava decidido a não ser vítima na madrugada de Estocolmo, em cima de ponte sobre águas nórdicas geladas. Mas, além de nós quatro, quem mais se assanhou foi o gatinho. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não acredito que ele tivesse alguma percepção política. Ou que fosse, por princípios, contra os skinheads. Acho que os gatos têm como princípio e como percepção a sobrevivência, a fuga, o combate pela retirada. Os gatos gostam é de viver. Por isso aquele lá tinha aceitado, sem arranhões e contrariedades, o meu colo quente. E por isso também, na hora em que fui empurrado por dois dos rapazes suecos, ele deu um pulo firme e voou sobre as cabeças do semicírculo, com um miado longo, dolorido, triste. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os três tiveram a reação natural de se afastarem diante do pulo do gato. Aproveitei e passei entre eles. Corri. O gato atravessou a ponte, ainda miando. Eu não sabia mais onde estava, mas sabia, podia ouvir, que havia três pares de botas que corriam atrás de mim. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O gato entrou numa rua larga e vazia. Fui junto. Pulou sobre um carro, atravessou para a outra calçada, dobrou a esquina, desceu uma escadaria, pulou uma cerca. Eu não perdia de vista o rabo dele. Ia atrás, desesperado. Se ele não tinha lógica na sua correria desenfreada pelas ruas da cidade, que lógica teria eu? E que lógica tinham os três rapazes que também corriam atrás de mim? &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O gato, então, me levou para uma rua clara, acesa, cheia de vida. Os três rapazes diminuíram os passos e devem ter decidido que eu não valia a pena tanto esforço. Quando passei por um grupo de pessoas que falavam o oco e vazio sueco, me senti finalmente em casa. Nunca havia sido tão bom ouvir a língua deles. Finalmente, ela era doce, meiga, amigável, familiar. Era como se eu entendesse tudo o que eles falavam entre si. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Procurei o gatinho. Ele estava sentado, paciente, na porta de um restaurante mexicano. Olhei pela vitrine. Lá dentro, alhos e cebolas saltitavam numa chapa quente, comandados por uma espátula. Entramos os dois. Eu comi um bife com aroma e sabor de coisas acaloradas, longínquas. Ele bebeu leite. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ali pelas três da manhã, a gente se despediu. Ele empinou o rabo e foi. Eu enfiei as mãos no bolso do casaco e fui.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/17667459-112985785294159780?l=ribondi.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://ribondi.blogspot.com/feeds/112985785294159780/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=17667459&amp;postID=112985785294159780&amp;isPopup=true' title='13 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/17667459/posts/default/112985785294159780'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/17667459/posts/default/112985785294159780'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://ribondi.blogspot.com/2005/10/kuk.html' title='Kuk'/><author><name>Ribondi</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07599085746902668142</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='26' height='32' src='http://cora.blogspot.com/uploaded_images/ribondi.jpg'/></author><thr:total>13</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-17667459.post-112978553871339094</id><published>2005-10-20T01:16:00.000-04:00</published><updated>2005-10-20T01:18:58.723-04:00</updated><title type='text'>Perigosíssimas</title><content type='html'>&lt;a href="http://photos1.blogger.com/blogger/5241/1707/1600/serradomar.jpg"&gt;&lt;img style="display:block; margin:0px auto 10px; text-align:center;cursor:pointer; cursor:hand;" src="http://photos1.blogger.com/blogger/5241/1707/320/serradomar.jpg" border="0" alt="" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Era muito importante, até mesmo vital, saber os horários dos trens que, de Cachoeiro de Itapemirim para Vitória, ou no sentido contrário, passavam pela cidade, pequena, silenciosa, ensolarada e fria onde eu morei. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E a importância não vinha apenas do fato de que a chegada na estação, anunciada pelo badalo do sino, era fundamental para a vida social. Minha mãe gostava de se arrumar para ir ver o trem parar rente à plataforma coberta por telhas francesas. Meu pai gostava de se sentar num dos bancos da estação para ouvir, sem ser notado, os telegramas que chegavam em código Morse, que ele havia aprendido na Itália, durante os anos da guerra. Ás vezes, meu pai sabia de notícia de morte antes mesmo da família enlutada. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu, o que eu gostava mesmo era de ficar sentado em cima dos blocos de  mármore da serra capixaba que tinham sido deixados no largo em frente à estação construída pelo nosso vizinho, doutor Rose, o engenheiro inglês da British Railway. As pedras não serviam para nada, eram apenas o luxo da minha cidade: ter mármore precioso e caro jogado na rua. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas a importância do conhecimento dos horários se devia a outro fator. Da minha cidade até Jaciguá, que era do mesmo tamanho mas que, por algum motivo do terreno da magia, era também maior que a minha, a caminhada levava cerca de uma hora, pela estrada que, contorcendo-se entre as árvores da hoje falecida Mata Atlântica, ladeava o córrego, o mesmo que passava dentro do meu quintal. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No entanto, se o percurso até Jaciguá fosse feito pelos trilhos do trem, a caminhada era reduzida em 30 minutos. Por isso, quando eu e dois amigos, Marcelão e Marcelinho, queríamos mudar de ares, era obrigação saber a que horas passava o trem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Para ir, era necessário também um certo conhecimento de causa. O trilho, ao sair da cidade, passava justamente em frente do portão da minha casa, quase dentro da varanda de madeira. Nesse trecho, tínhamos que correr para não sermos barrados pela fiscalização do serviço de segurança materna da Estrada de Ferro Federal Sociedade Anônima, que era exercida, em caráter voluntário, por minha mãe.  &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Depois, passávamos pela bica da Rainha que, de acordo com os elogios do meu pai, era a melhor água mineral do mundo. Em seguida, havia um túnel longo, com uma curva em seu interior, o que impedia, exatamente aí, a visão das duas extremidades. Era o breu. Pouco mais tarde, tinha mais um túnel, menor e, finalmente, sem grandeza nenhuma, mas espetacular, estava Jaciguá com dois salões de sinuca. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E, numa tarde de domingo, de volta de Jaciguá, encontramos Senhorinha, Marlene e Jacy, que iam na mesma direção. Antes mesmo do primeiro túnel, os pares já estavam estabelecidos e, quando entramos na escuridão, os relacionamentos foram selados. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Entramos, alguns minutos de caminhada mais tarde, no segundo túnel, o grande, o que tinha o ponto de breu.  Senhorinha, Marlene e Jacy, como se carregassem, cada uma, um balde d’água fria, avisaram que tinham pressa em chegar em casa. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Do outro lado do túnel, havia uma vaca. Grande. Gorda. Chifruda. Ela tentava escalar o morro íngreme e muito verde encostado aos  trilhos. Marcelão, que tinha fama de corajoso, tirou a camisa vermelha e brincou de toureiro. Um homem montado a cavalo subiu desde a estrada de terra e avisou:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-É brava. Tem cria nova. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Foi aí que surgiu o bezerro, filho dela, desnorteado, vindo em nossa direção. A vaca-mãe pulou do morro onde estava e nos encarou, decidida a matar ou morrer. Fincou as patas no chão pedregoso da estrada-de-ferro e disparou. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sem ordem alguma, em completo alvoroço, entraram no túnel, mas cada um por si, Marcelão, Marcelinho, eu, as três meninas, o bezerro desnorteado, a vaca enfurecida, um cavalo e um cavaleiro montado nele. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E foi então que chegamos ao ponto escuro do túnel. Em momentos de pânico, perder o senso de direção é questão de segundos. Ninguém, nem vaca nem cavalo, e muito menos nós, sabia mais onde estávamos. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O barulho dos cascos sobre as pedras dos trilhos aumentava o ardor da coisa. Marcelão, o corajoso, gritava. Eu me encostei na parede do túnel, tomada pela água abundante que sempre escorre das pedras e dos montes capixabas, e jurei, de forma mais ou menos solene, que não voltaria, nunca mais, a sair dali e ver a luz do dia. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O vaqueiro berrou. O cavalo empinou. O bezerro se assustou e correu. A vaca-mãe entrou em desespero. O rabo dela chicoteava a escuridão. As meninas se acocoraram. E, finalmente, luz. A mãe encontrou o filho, o mundo estava em paz novamente. Saíram, eles, para um lado e nós, para outro, para longe de Jaciguá, de volta para casa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Jacy deu o alarme lacrimoso:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-Perdi minha sandália.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Era sandália de salto. Branca. Nova, domingueira. Impossível voltar para casa sem ela. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-Minha mãe me mata. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A única solução era ir de novo para o túnel. Lá, no escuro úmido, onde os pequenos fios d’água que despencavam do teto se transformavam em cascatas poderosas, gastamos uma caixa de fósforos completa para encontrar a sandália, caída como morta perto da vala por onde escorria água das chuvas e das bicas. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-O salto quebrou!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas foi assim mesmo, acompanhando a marcha manca, lenta e chorosa de Jacy, que tomamos o caminho de volta, mais de duas horas depois. O que a gente não sabia é que o vaqueiro já estava lá e tinha contado tudo no bar do seu Evaristo, que funcionava como um alto-falante da cidade. O que fosse narrado ou insinuado ali, em pé no balcão, escorria porta afora, reverberava nas paredes, quicava nas esquinas, chocava-se nas árvores e, com pulos miúdos, mas enérgicos, entrava em cada casa e batia, certeiro, em todos os ouvidos. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando passamos pela bica da Rainha e entramos na cidade, lá estavam minha mãe e a avó da Senhorinha em pé, de braços cruzados, sobre os trilhos. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Seriam capazes de barrar qualquer coisa, até trem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E pareciam mais perigosas que a vaca-mãe.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/17667459-112978553871339094?l=ribondi.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://ribondi.blogspot.com/feeds/112978553871339094/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=17667459&amp;postID=112978553871339094&amp;isPopup=true' title='15 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/17667459/posts/default/112978553871339094'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/17667459/posts/default/112978553871339094'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://ribondi.blogspot.com/2005/10/perigosssimas.html' title='Perigosíssimas'/><author><name>Ribondi</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07599085746902668142</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='26' height='32' src='http://cora.blogspot.com/uploaded_images/ribondi.jpg'/></author><thr:total>15</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-17667459.post-112972754214597768</id><published>2005-10-19T11:10:00.000-04:00</published><updated>2005-10-19T09:12:22.153-04:00</updated><title type='text'>O vôo do cardume</title><content type='html'>&lt;a href="http://photos1.blogger.com/blogger/5241/1707/1600/urubus1.jpg"&gt;&lt;img style="display:block; margin:0px auto 10px; text-align:center;cursor:pointer; cursor:hand;" src="http://photos1.blogger.com/blogger/5241/1707/320/urubus1.jpg" border="0" alt="" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando ficava sentado na várzea para observar de perto, achava que urubu parecia uma galinha mais magra, elegante, vestida de preto. Então, decidi que queria um. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Meu pai já tinha me falado que, para caçar pato, o melhor método era amarrar a isca na ponta de um barbante bem comprido e esperar que ele engolisse. Como se fosse uma pescaria. Essa técnica, usei duas vezes. A segunda foi em Lima, a capital do Peru, quando decidi que ia pescar um pelicano e usei sardinhas em lata. Deu tudo certo, exceto por um detalhe: o pelicano foi quem me pescou e, se não soltasse o fio de nylon a tempo, eu seria levado para o mar alto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas peguei um pedaço de carne crua e deixei escondida, até cheirar mal. Apanhei um barbante e amarrei. Fui para a várzea, junto com Mimosa e Malvina, as duas cadelas que viviam comigo. Joguei a carne podre e esperei. Mas tive que enxotar as duas e mandar de volta para casa, para poder ficar em paz na minha estratégia de tentar abraçar urubu. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele veio, aos saltinhos. Com o bico longo, como se fosse ave imperial, beliscou a carne fedida. Meu coração disparou, não me movi, não fiz barulho. Beliscou de novo. Deu mais uns saltos, mudou de posição. Beliscou. Aí, engoliu. Estava pescado. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Cheguei perto do urubu, o bicho sagrado do Espírito Santo, mais útil do que os lixeiros, mais eficiente do que a vigilância sanitária. Matar um era incorrer em pecado mortal. Por isso, peguei com cuidado. Ele se agitou. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas pescar e pegar nas mãos era pouco. Se eu contasse depois, quem ia acreditar? Levei para casa e escondi debaixo de um caixote emborcado, no fundo do quintal das árvores, que ficava depois da cerca. Tomei banho, apanhei uma bolsa enorme, enfiei o urubu dentro e fui para a escola, bem mais cedo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Cheguei, e a escola dos alemães estava vazia. As poucas pessoas que encontrei no pátio, evitei conversar com elas me escondendo entre as amoreiras plantadas em filas. Apanhei um casulo de bicho-da-seda pendurado na folha da amoreira e dei para o urubu. Ele não quis. Ou não comia casulo ou estava aterrorizado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Entrei na sala de aula e fechei a porta. Emborquei o caixote de lixo, que ficava perto da mesa da professora, e transferi o urubu para lá. Depois, voltei para o pátio, entrei em fila, cantei o Hino Nacional com a mão no peito e marchei de volta para a sala de aula. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando a professora de francês entrou, pedi para ir no banheiro e, na hora que passei perto do caixote de lixo, tropecei por querer nele. O urubu, livre, solto, com um pedaço de barbante pendurado no bico, retomou o fôlego e bateu as asas. Como não via direito onde ficava a janela, sobrevoou a sala, rodopiou, bateu asas, pousou numa carteira e voou de novo. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A professora gritou, para dar início ao pânico. Os outros correram, se esbarraram, abaixaram as cabeças, abanaram cadernos e livros para enxotar o invasor. Eu, na primeira carteira, era o único que não se espantava com nada. O urubu finalmente encarou o céu e partiu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Todos, os alunos e a professora, correram para a janela. O urubu pousou perto, descansou da agitação. Mas aí, abriu as asas negras, luzidias, retesou os pés magros, e voou em direção ao alto das montanhas.&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;A agitação da sala virou paz. Ninguém tirou os olhos do ponto negro que flutuava, sem bater as asas. No silêncio rigoroso, grande, de pura admiração, observávamos a beleza voar. O urubu era o peixe das profundezas do céu. Encontrou outros e formaram, então, uma multidão celestial. O cardume do firmamento sobrevoou o córrego, as amoreiras, a casa da Carlota, a solteira linda que já devia ter se casado e que morava sozinha. Voou em círculos sobre a caieira e os lírios do brejo. Mergulhou na luz intensa do sol e sumiu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando a professora voltou para o espaço que era dela, entre a mesa e o quadro-negro, era eu o dono da verdade. Comecei a rir, só para mim mesmo. Não resisti, ri para todo o mundo na sala. A professora parou e me encarou. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-O senhor teria, por acaso, algo a nos explicar?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Cobri o rosto com as mãos e ri. Tentei falar e fui invadido pela gargalhada cheia de lágrimas de contentamento. Ela, a professora com a pinta sobre o lábio, de cabelos falsamente lisos, caminhou até a porta da sala, apontou para o corredor e disse:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-Para a secretaria. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando me levantei, dezenas de pares de olhos me encaravam. Passei por eles e não resisti. Voltei a rir. Alguém mais deu uma risada fina, anônima. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-Silêncio!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando a porta voltou a se fechar e fiquei sozinho, tomei rumo contrário ao da secretaria. Fui para o pátio. O sol se misturava ao vento frio das montanhas e ao cheiro das amoreiras carregadas de casulos dos bichos-da-seda. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Olhei para cima. Os urubus tinham mergulhado ainda mais fundo no céu. Não dava para ver. Mesmo assim, fui para os lados da caieira, voar com eles.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/17667459-112972754214597768?l=ribondi.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://ribondi.blogspot.com/feeds/112972754214597768/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=17667459&amp;postID=112972754214597768&amp;isPopup=true' title='14 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/17667459/posts/default/112972754214597768'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/17667459/posts/default/112972754214597768'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://ribondi.blogspot.com/2005/10/o-vo-do-cardume_19.html' title='O vôo do cardume'/><author><name>Ribondi</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07599085746902668142</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='26' height='32' src='http://cora.blogspot.com/uploaded_images/ribondi.jpg'/></author><thr:total>14</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-17667459.post-112969235101800511</id><published>2005-10-19T01:23:00.000-04:00</published><updated>2005-10-18T23:25:51.026-04:00</updated><title type='text'>Aquelas duas</title><content type='html'>&lt;a href="http://photos1.blogger.com/blogger/5241/1707/1600/gatoeave.jpg"&gt;&lt;img style="display:block; margin:0px auto 10px; text-align:center;cursor:pointer; cursor:hand;" src="http://photos1.blogger.com/blogger/5241/1707/320/gatoeave.jpg" border="0" alt="" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Uma era australiana. Toda azul. Uma periquita de nome Nina Blue. &lt;br /&gt;A outra era goiana. Uma gata branca chamada Lolita Weiss. Chegaram juntas na minha casa, um apartamento insuportavelmente novo, ainda aprendendo a ser habitado naqueles dias do ano de 1977. De tão novo e lustrado, ficava no meio do cerrado, com uma pista barrenta de terra vermelha para chegar até ele. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nina e Lolita ocupavam todos os espaços do apartamento de três quartos. Além delas, eu, Romário, as duas gêmeas Luísa e Valtair. Eles quatro eram amigos de infância, de Minas Gerais. Nina e Lolita também eram amigas desde os primeiros dias. Só eu tinha conhecido todo mundo depois de já ter crescido. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E as duas ocupavam a casa com tanta facilidade que a grande mesa da sala tornou-se território delas. Implicavam com os pratos, não aceitavam os talheres, se esbaldavam na jarra d’água. Tanto que, com o passar do tempo, deixamos de usar a mesa e comíamos em qualquer outro lugar. Sentados em cadeiras na cozinha, quase deitados na cama, refastelados no chão. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E, depois, Lolita Weiss, a gata, se deitava com o focinho entre as pernas e, em seguida, vinha Nina Blue que, pacientemente, com os pés em forma de garras perigosas, escalava as costas da amiga. As duas fechavam os olhos e dormiam.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Acordavam, às vezes, com o som que sacudia, com certa força, a tela de proteção das caixas de som. Nina, que, das duas amigas, era a única que cantava, parecia se entusiasmar com Joan Baez. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Joan Baez tinha a mania de trinar:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Cucurucucuuuuuuuuu, paloooooma-a-a-a. Cucurucucu-u-u-u”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nina inchava o peito e ia junto:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pirrrrrrrrr....pi...pi-pi-iiiiiiiiiiiiiiiiiii&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Segundos uns, que conseguiam gostar da Joan Baez, Nina cantava de prazer, como uma back-vocal vestida de azul. Segundo outros, como eu, era reação de puro desespero. Em ocasiões assim, e nunca em outras, Nina e Lolita se separavam. A gata ia para o fim do corredor e ficava lá, distraída com os próprios pêlos brancos. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Poucas vezes se desentendiam. Uma manhã, levantei da cama e, com os olhos semi-fechados, para continuar dormindo e, também, para escapar do sol forte, alegre e descontrolado que se esparramava desde o céu até as paredes brancas do apartamento novo, entrei no box e, de uma vez, com  o contentamento do verão, abri a torneira. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um piado agudo, cortante, subiu pelas minhas pernas até os ouvidos. Abri os olhos e encarei o chão. Lá embaixo, uma periquita pequena, azul, caminhava como uma pata choca para longe da água do chuveiro. Reclamava da vida e vibrava as penas, para se secar da chuva súbita. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando chegou na mesa da sala, vingou-se em Lolita, que ainda dormia. Bicou o nariz da gata e ela revidou com uma patada. Nina rolou e caiu no chão, ainda tentando voar com uma das asas aparada com tesoura. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas foi a partir desse acidente que alguns cuidados foram exigidos. Ninguém, na casa, tinha permissão de abrir porta com força, deitar-se sem sacudir os lençóis, sentar em cadeira de uma vez e pôr panela no fogo sem olhar dentro. Até mesmo o uso do vaso sanitário exigia certas precauções, porque Lolita Weiss, ainda de pequeno porte, costumava cair lá dentro em momentos de investigação de território. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vem o tempo e passa. Lolita Weiss deixou de ser uma gatinha branca e doida para se tornar uma gata grande, de olhos claros e jeito sedutor. Lambia-se com o capricho das cortesãs. Esticava a perna como se vestisse meias de nylon. Olhava como quem está pronta para caçar antílopes. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E as penas da asa da Nina Blue cresceram. Não tinha passado pela cabeça de ninguém que passarinho e céu são do mesmo elemento   e que Nina também era azul. Ela pulou da mesa até a caixa de som, da caixa de som até a parte mais alta da janela e, dali, para a maior parte do mundo. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Três dias depois, Lolita também pulou. De uma vez só. Com as patas esticadas e os bigodes hirtos, os olhos faiscantes de tanto azul, nela e no céu, saltou como uma estrela olímpica. Com perfeição, bateu em pé lá embaixo, na rua barrenta. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E, aí, saiu, ainda meio desencontrada, ainda meio tímida, atrás da amiga que tinha batido asas e voado. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Chegamos em casa e a mesa da sala estava vazia.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/17667459-112969235101800511?l=ribondi.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://ribondi.blogspot.com/feeds/112969235101800511/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=17667459&amp;postID=112969235101800511&amp;isPopup=true' title='9 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/17667459/posts/default/112969235101800511'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/17667459/posts/default/112969235101800511'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://ribondi.blogspot.com/2005/10/aquelas-duas.html' title='Aquelas duas'/><author><name>Ribondi</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07599085746902668142</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='26' height='32' src='http://cora.blogspot.com/uploaded_images/ribondi.jpg'/></author><thr:total>9</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-17667459.post-112965016355901776</id><published>2005-10-18T11:39:00.000-04:00</published><updated>2005-10-18T11:42:43.566-04:00</updated><title type='text'>Gata na hora do poente</title><content type='html'>&lt;a href="http://photos1.blogger.com/blogger/5241/1707/1600/gata.jpg"&gt;&lt;img style="display:block; margin:0px auto 10px; text-align:center;cursor:pointer; cursor:hand;" src="http://photos1.blogger.com/blogger/5241/1707/320/gata.jpg" border="0" alt="" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Conheci Shantung em noite de festa numa casa branca, com tudo branco: paredes, chão, portas, janelas, tapetes, sofás, cadeiras. A dona da casa, uma sueca chamada Maria, também era toda branca, apesar do tom amarelo dos cabelos. Mesma coisa com o marido dela. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Estava na varanda que dava para o gramado, verde, olhando para o lago Paranoá que, por causa do escuro da noite sem lua, tinha águas negras. E foi aí que ela se aproximou. Uma gata cinza e preta, muito pequena, como se, naquela noite, estivesse saindo sozinha pela primeira vez. Dava um passo sem saber direito onde ia pôr o pé, cambaleava, tentava se firmar e caía. Miava primeiro e, depois, se levantava para tentar tudo outra vez. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Peguei no colo e ficamos, os dois, olhando o lago em noite quente, quando Maria, branca, loira e grávida, chegou perto: &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-Você trouxe um gato?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-Pensei que fosse seu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-Odeio pêlos, odeio miados, odeio rabos, odeio focinhos. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aparentemente, Maria odiava gatos. E foi enfática:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-Tira daqui!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Procurei, por cima da cerca viva do quintal, algum indício de ninho faltando um. Não encontrei e, por isso, apertei mais a gatinha no colo e deve ter sido aí que ela sentiu o meu cheiro pela primeira vez. Um dos convidados da festa, um poeta, quis socorrer:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-Vou embora daqui a pouco, levo o gato e solto em qualquer lugar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Maria sorriu, eu fechei a cara.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-Nem por cima do meu cadáver. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E, assim, saí da festa, antes mesmo do poeta. Ainda na porta da casa de Maria, perguntei à gata miúda e muito frágil:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-Gosta mais de Shantung, Chinchila ou Caxemira? &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Achei que ela ia dizer Chinchila, mas escolheu Shantung, e já foi como Shantung, em carne e osso, que ela entrou no carro. Primeiro, serena, pesquisadora. Liguei o carro. Ela, sem aviso prévio, pulou como milho em pipoqueira quente. Com unhas estiradas, agarrou-se ao volante, aos meus cabelos, à gola da minha camisa, às minhas coxas. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No meio do ataque furioso, consegui desligar o motor. Ela serenou. Respirávamos ofegantes. Abri o porta-luvas, tirei os óculos escuros, protegi os olhos e, antes de voltar a ligar o carro, avisei com voz firme:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-Rasgado, fatiado, arranhado, eu vou chegar em casa. E você vem junto.  &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E assim, entre unhadas e ronronadas caprichosas, ela cresceu. Tinha manias. O travesseiro era dela. Todos os dias, passava em frente da televisão e, de repente, via a imagem. Arqueava-se, ficava arrepiada das unhas até o bigode, e corria para se proteger dentro do armário. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E foi em cima do travesseiro, que ela se sentiu mal. Espichava o corpo todo, inclusive o rabo. Miava, fazia força. A barriga estava dura, inchada. A caminho do médico, tentou embirrar com o carro, mas estava doente demais e consentiu em viajar em paz. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Dois dias depois, quando fui no hospital buscar Shantung magra, cansada, com olheiras e besuntada do óleo da lavagem para retirar os pêlos presos nos intestinos, resolvi que ela iria passar os fins de semana na roça, comigo. Gostando ou não de carro. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E assim foi que um trecho bastante considerável da estrada entre Brasília e Olhos d’Água ficou sabendo que eu estava indo para Vila Mateus, a minha roça.  O mundo inteiro ao longo da estrada via: eu ao volante lutando contra uma fera que rugia grudada ao teto, aos bancos, ao tapete de borracha, à maçaneta da porta. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nas viagens seguintes, fui intransigente. Ela teria que entrar na caixa. Mas não foi preciso muito esforço nem muita repetição porque, um dia, na hora de voltar, ela se recusou. Da maneira dela. Subiu na trave do teto, lá em cima, e afiou as unhas. Busquei uma escada, subi até ela, mas Shantung foi categórica:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-Estou avisando. Não vem. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu fui e ela ficou na Vila Mateus, fazendo companhia ao meu cão Lula, aos meus quatro cavalos, às duas dúzias de galinhas, mais o galo Evaristo, além do bando de maritacas que, todos os dias, ali pelas sete da manhã, pousava no pé de abacate para o café-da-manhã. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Shantung passou a ser a grande mulher que seria para sempre. Tinha novas manias. Ninguém passava pelo portão da Vila Mateus sem que ela cheirasse, com desdém. Ninguém entrava no banheiro sem que ela entrasse antes, inspecionasse o ambiente e se sentasse de olhar fixo, como quem pergunta com pouca, quase nenhuma, boa vontade:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-O quê? &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pariu todas as vezes que pôde. Ou estava esperando filhotes, ou estava amamentando filhotes. Ou estava pensando seriamente nisso.  Sentava-se no alto do portão da Vila Mateus e se lambia, sensual. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ficou amiga do cão Lula e da égua Estrelinha. Juntos, íamos os quatro para um gramado alto e plano no fundo da roça para ver coisas como o pôr-do-sol ou estiagem depois de toró. Nestas horas, gostava de se sentar entre minhas pernas e, sem que ninguém mais visse, me acariciava com movimentos, firmes e delicados, do rabo cinza e preto. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um dia, defendeu sua ninhada de um cachorro bravo que conseguiu entrar no quintal. Foi linda, corajosa, brava e feliz até o fim.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/17667459-112965016355901776?l=ribondi.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://ribondi.blogspot.com/feeds/112965016355901776/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=17667459&amp;postID=112965016355901776&amp;isPopup=true' title='18 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/17667459/posts/default/112965016355901776'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/17667459/posts/default/112965016355901776'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://ribondi.blogspot.com/2005/10/gata-na-hora-do-poente.html' title='Gata na hora do poente'/><author><name>Ribondi</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07599085746902668142</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='26' height='32' src='http://cora.blogspot.com/uploaded_images/ribondi.jpg'/></author><thr:total>18</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-17667459.post-112963773424128524</id><published>2005-10-18T10:13:00.000-04:00</published><updated>2005-10-18T08:15:34.250-04:00</updated><title type='text'>Conto de fada</title><content type='html'>&lt;a href="http://photos1.blogger.com/blogger/5241/1707/1600/lobo1.jpg"&gt;&lt;img style="display:block; margin:0px auto 10px; text-align:center;cursor:pointer; cursor:hand;" src="http://photos1.blogger.com/blogger/5241/1707/320/lobo1.jpg" border="0" alt="" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nunca tinha visto um, mas nem por isso mudava de opinião: o lobo era o mais belo dos mamíferos. Também nunca tinha ouvido, mas já sabia que a voz do lobo era a mais envolvente e a que mais podia me enfeitiçar. E sabia também que jamais escaparia do seu olhar. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu tinha medo dos lobos. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O carro, um Renault, subia devagar pela estrada estreita, solitária, úmida e retorcida da serra do Marão, no norte de Portugal, lá onde ninguém ousa falar alto, lá onde não há ser vivo com coragem de interromper o que o mundo sabe fazer por contra própria. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;As árvores crescem. Os musgos embrulham e apertam as árvores. As vacas e os homens bafejam para cobrir o Marão de névoa. Os homens não falam, por respeito à mudez da natureza. O Marão é a pátria do silêncio. &lt;br /&gt; &lt;br /&gt;Eu e o Rui, a gente vinha das margens do rio Tâmega para subir a serra. A estrada, quase um ângulo reto em relação ao rio lá embaixo, forçava o carro. De repente, a fumaça começou a sair de dentro do capô. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Saímos do carro enguiçado. Fora do carro, nada. Só a serra, porque “bem alto é o Marão, que não dá palha nem grão”. Mas, ali, tinha, pelo menos, um rego estreito, que, aos pulos sobre pedras, descia desesperadamente o monte, escorregando sem conseguir  se agarrar às rochas lisas. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Passaram, bem perto, um homem e sua vaca. O mesmo silêncio, o mesmo jeito de andar com obstinação, como se andassem, os dois,  sem esperança de chegar. O mesmo olhar mudo. Passaram sem surpresa, como se o carro, Rui, o rego d’água e eu fôssemos coisa do Marão e estivéssemos ali há um século.  &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Enquanto eles sumiam serra abaixo, refleti sobre as silhuetas idênticas na névoa:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-E se Darwin tivesse viajado para o Marão? Ia escrever que o homem descende da vaca? Ia chegar na academia e dizer que, em um momento da vida, os dois grupos, o dos homens e o das vacas, tomaram rumos biológicos diferentes mas mantiveram a mesma paciência, o mesmo silêncio e a mesma resignação? &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Foram embora. Do outro lado da estrada escurecida ao meio-dia pela névoa, sobrava um pedaço de mata de pinheiros bravos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Enquanto Rui levantava o capô do carro, atravessei a estrada e olhei o nada do Marão. No meio da cerração, entre os troncos dos pinheiros bravos, alguém me viu. Vi também e parei o olhar. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Reconheci. Não muito tempo antes daquele dia, eu estava dentro do carro, à noite, perdido, procurando a cidade mais próxima para me localizar no mapa de Portugal, quando, ao longo do acostamento da estrada, um bando de cães passou a me acompanhar, na mesma velocidade que o carro. Eles corriam como se festejassem e anunciassem minha chegada. Olhei os animais que, como batedores, abriam passagem para mim.  Rui disse:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-São lobos de Trás-os-Montes. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por isso, reconheci. O pêlo era cor de prata e o olhar dele, seu jeito quieto e impassível de mirar, de não mexer os olhos, de fixar, atento, como quem cheira o mundo, foi o que mais me paralisou. Não tinha escapatória, não havia o que ser feito, ali no Marão, no meio da névoa, separado do resto do mundo por um rego finíssimo de água fria que despencava morro abaixo, não por querer, mas por inexorabilidade. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Olhei também. Mas os olhos dele eram mais belos e mais misteriosos que os meus. Parei.  Ele sabia parar mais que eu. Sabia ser firme como uma árvore. Eu tentava falar, queria dizer que estava com medo, tentava pedir socorro ao Rui, mas o lobo comandava o silêncio do Marão, que era tão quieto e antigo quanto ele. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Estávamos à distância de um bote certeiro, eu e ele. Mexeu a cabeça. Ergueu o olhar, fixo em mim. Dobrou uma das pernas e levantou a pata. Estendi o braço com a palma da mão aberta. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os pinheiros bravos e ele. Como um cão de prata. Meus cabelos estavam úmidos, com a névoa deslizando entre eles. Lentamente, dei um passo para trás, queria voltar para o carro. Cheirou o ar. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Então, ele se afastou entre as árvores. Mas parou. E me olhou novamente. Descobri, quando me olhou, que meu medo era pura fantasia, ilusão. Que, se havia algum risco, era o de virar poeta, ali, na frente da beleza prateada. Descobri que ele não precisava de mim, para nada. Que ele, escondido entre os troncos, esperava a hora certa de ir embora. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas ele queria dizer alguma coisa, pelo jeito de me olhar sem ir embora. O chão que ele e eu pisávamos era rude, velho. O cão de prata começou a correr para sumir no meio das árvores e da névoa. O trote ligeiro, solitário, elegante falava.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O que você não conhece, o que é estranho, o que está além da imaginação, não mate, não ataque, não morda. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O que você desconhece, o que você não entende, pertence às árvores, são coisas do Marão.  &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O lobo foi embora morro acima. Eu fiquei para trás, trêmulo, sem medo algum, ouvindo o ronco do carro que voltava a funcionar. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Dei por mim: a gente encontra um lobo cara a cara, a gente sente, na pele, a ternura do olhar dele, reconhece a gentileza do pêlo,  aprende que a alcatéia se senta nos morros para cantar. A gente olha, vê e disse que então é isso, que eles ainda são o que fomos um dia, quando nos encontramos pela primeira vez. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando a gente encontra um lobo, qualquer um reconhece a própria  timidez.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/17667459-112963773424128524?l=ribondi.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://ribondi.blogspot.com/feeds/112963773424128524/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=17667459&amp;postID=112963773424128524&amp;isPopup=true' title='10 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/17667459/posts/default/112963773424128524'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/17667459/posts/default/112963773424128524'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://ribondi.blogspot.com/2005/10/conto-de-fada.html' title='Conto de fada'/><author><name>Ribondi</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07599085746902668142</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='26' height='32' src='http://cora.blogspot.com/uploaded_images/ribondi.jpg'/></author><thr:total>10</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-17667459.post-112951761421635590</id><published>2005-10-17T00:51:00.000-04:00</published><updated>2005-10-16T22:53:34.223-04:00</updated><title type='text'>A era de aquário</title><content type='html'>&lt;a href="http://photos1.blogger.com/blogger/5241/1707/1600/ornamenfish.jpg"&gt;&lt;img style="display:block; margin:0px auto 10px; text-align:center;cursor:pointer; cursor:hand;" src="http://photos1.blogger.com/blogger/5241/1707/320/ornamenfish.jpg" border="0" alt="" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O peixe, que, por decorrência natural das coisas, passou a ser conhecido como Peixinho, parecia tranqüilo, mas 1973 não estava sendo bom. Emílio Garrastazu Médici, o ditador brasileiro, também chamado de “Lola de Bagé” (cidade gaúcha onde ele tinha nascido, 70 anos antes), decidira que íamos pagar caro pelo milagre econômico.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;1973 estava sendo o pior ano das nossas vidas. O título de país com a concentração de riqueza mais injusta de todo o mundo era  nosso. Mas Peixinho nadava suavemente em círculos bem desenhados dentro de um aquário pequeno, redondo, deixado em cima de um caixote de manzanas argentinas encostado na parede do quarto do mocó.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O mocó era o quarto-de-empregada, o banheiro-de-empregada e a área de serviços que, com porta dos fundos independente, e isolado do resto do apartamento, era alugado para alunos da Universidade de Brasília. No mocó, moravam cinco pessoas e Peixinho, que, feitas as contas, era quem mais tinha espaço e conforto. O resto era compartilhado às cotoveladas. Mas seria por pouco: era só a casa em Sobradinho ficar vazia, que a gente se mudava para lá. Três meses de aluguel já estavam pagos adiantado. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando acordava, a luz do sol já entrava pela basculante e batia em Peixinho, nadando em volta de si mesmo. Depois, olhava, sempre, todos os dias, pela janela grande, para ver o carro de polícia. Um tubarão que rondava as nossas águas. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um dia de chuva forte, a polícia entrou na sala, durante a aula, conversou em voz baixa com o professor, que, depois de ouvir,  apenas apontou com o dedo, sem olhar com os olhos, para um aluno, perto de mim. A polícia se aproximou dele e avisou que era para sair da sala.  &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Voltei para casa e me sentei no chão, do lado de Peixinho. Naqueles dias de 1973, quando os barris de petróleo começaram a se tornar um dos produtos mais lucrativos do mundo, eu traduzia o Livro Vermelho de Mao Tse-Tung. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-O que você acha da Revolução Cultural chinesa?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Peixinho nunca respondia. Era do tamanho do meu dedo mindinho, tinha cor de salmão misturada com cor de tomate, abanava o rabo enorme, como um leque feito à mão, com as plumas unidas por fios de seda. O aquário tinha um ar de águas tranqüilas. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quem também tinha um leque era dona Maximiliana, a estranha. Estava sempre vestida de branco, como uma mãe-de-santo. Usava  um turbante branco. E um leque, nunca aberto, feito de fibras de casca de árvore, com cheiro de sândalo. Ela era dona do apartamento de que o mocó fazia parte. Tinha a voz rouca, acigarrada, e se achava sensual. Derramava os olhos em cima de quem estivesse perto dela.   &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando abri a porta do mocó, para sair, ela abriu a porta do apartamento dela e me chamou fazendo um anzol com o dedo indicador. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-A polícia está dentro do 204. Prendendo todo mundo que toca a campainha. Passe batido. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No apartamento 204, morava a totalidade dos amazonenses que eu conhecia na minha vida. Eram irmão e primos, vindos de Manaus, para estudar.  Nesse dia, então, não bati na porta deles para avisar que estava na hora de ir para a universidade. Passei direto, sem olhar para os lados. Corri pela avenida L2 e, na universidade, encontrei Yeda, parada, paralisada, tensa, dura, em pé sobre a grama imensa, verde, luzidia em dias de chuva.  Avisou que dois amigos nossos estavam desaparecidos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela me perguntou. Tinha voz, olhos e mãos de puro pavor:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-E agora? &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De volta para casa, fiquei, por mais de três horas, de olho no meu prédio. Pouco a poucos os outros habitantes do mocó foram chegando. Eu dava a notícia e ficávamos ali mesmo, parados, à espera do fim do dia. Decidimos ir logo para Sobradinho.  Telefonamos da padaria. Ficou acertado que o dono da casa ia nos pegar, dentro de uma hora, no máximo. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Subimos as escadas sem fazer barulho. Degrau por degrau. A porta da dona Maximiliana gemeu ao abrir. Ela olhou e fez sinal para que sumisse todo mundo dali. Entramos no mocó. Em silêncio absoluto, colocamos as panelas, pratos, talheres e caixas de mantimentos dentro de caixas. Dobramos as roupas, as roupas de cama, as toalhas, e fizemos as malas. Enrolamos os colchões &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Peguei o aquário de Peixinho e o livro de Mão Tse-Tung. Ia saindo e dona Maximiliana me chamou. Cochichou:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-Eles já estiveram aí na porta duas vezes. Vocês vão ser os próximos.  Vão embora, vão, vão. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Desceram as escadas aos galopes, com caixas e malas. Desci devagar. Peixinho ainda nadava em círculos, docemente, no aquário apoiado no Livro Vermelho. As águas dele tinham a mesma calmaria de sempre. Meu coração era uma caldeira.  &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;  &lt;br /&gt;Eram quase seis da tarde e o dia acabava, do jeito brasiliense de  acabar. O céu, bem marcado pela linha retíssima do horizonte plano, se abre arredondado como cauda de pavão. Luzes muito claras riscam o azul. O sol ferve, vira cobre, e desce entre os riscos claros. Depois, lentamente, a cauda do pavão se fecha e a noite vem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A Rural-Willys do dono da casa chegou.  Guardamos as caixas e as malas. Na hora de entrarmos no carro, avisei:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-Vou na frente com Peixinho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando a Rural começou a manobrar em frente ao prédio, dois outros carros chegaram. De cada um, saíram três homens. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-Depressa, depressa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Segurei o aquário com força, para que a água de Peixinho não se agitasse. Saímos da Asa Norte em direção a Sobradinho. Atravessamos a ponte sobre o lago. Subimos. Subimos mais. O carro tentava acelerar.  E quanto mais pedia para que não corresse, mais eu me segurava a Peixinho, que nadava em círculos, em paz. Olhei bem: sua cauda de seda se movia com serenidade, cortando a água para se locomover. Levantei o aquário até a altura do meu rosto e passei a olhar a estrada de Sobradinho através do vidro, da água e de Peixinho. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Entramos na casa nova. Coloquei Peixinho em cima da mesma caixa ao lado do meu colchão. Era tudo que tinha no meu quarto. Outras notícias começaram a chegar: alguns fugiram para o Chile. Outros embarcaram para a França. Uns foram presos. A Universidade de Brasília se tornava um campo de concentração.  Enterrei o livro de Mao Tse-Tung debaixo de uma bananeira no fundo do quintal. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Só Peixinho continuava em sua marcha diária e constante em torno de si mesmo. Chegava em casa e procura o aquário. Olhando a cauda que ia e vinha lentamente, como um abanador de realezas, eu tinha a sensação, boa, serena, de que salvava Peixinho. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um dia, na universidade, uma vizinha me avisou que não voltasse para casa:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-O clima está seco. Os outros ficaram gripados e foram levados para o hospital. Todos. Menos você. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Andei pelas ruas de Brasília durante dois dias. Depois, fui até Sobradinho. Os colchões estavam rasgados, as roupas, retiradas dos armários, tinham sido espalhadas no chão. O vidro de uma janela estava espatifado. A terra em volta da bananeira estava intacta e, se nada aconteceu, os livros ainda devem estar lá, até hoje. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No meu quarto, me sentei durante muito tempo ao lado dos cacos do aquário espalhados pelo chão. Pensei, antes de ir embora sozinho:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Ninguém está protegido para sempre. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;1973 também tinha sido um péssimo ano para Peixinho.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/17667459-112951761421635590?l=ribondi.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://ribondi.blogspot.com/feeds/112951761421635590/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=17667459&amp;postID=112951761421635590&amp;isPopup=true' title='13 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/17667459/posts/default/112951761421635590'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/17667459/posts/default/112951761421635590'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://ribondi.blogspot.com/2005/10/era-de-aqurio.html' title='A era de aquário'/><author><name>Ribondi</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07599085746902668142</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='26' height='32' src='http://cora.blogspot.com/uploaded_images/ribondi.jpg'/></author><thr:total>13</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-17667459.post-112932669392918544</id><published>2005-10-14T17:49:00.000-04:00</published><updated>2005-10-14T17:51:33.936-04:00</updated><title type='text'>A aventura dela</title><content type='html'>&lt;a href="http://photos1.blogger.com/blogger/5241/1707/1600/093.jpg"&gt;&lt;img style="display:block; margin:0px auto 10px; text-align:center;cursor:pointer; cursor:hand;" src="http://photos1.blogger.com/blogger/5241/1707/320/093.jpg" border="0" alt="" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Era uma bela mesa, e sempre que Romário, o outro brasileiro, e eu passávamos por lá, um de nós comentava:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-Reparou?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quem ainda não tem mesa em casa, repara todas. E esta, era uma bela mesa redonda, com abas dobráveis, o que podia fazer dela retangular, se fosse o caso. Perfeita para o quarto na Bégude, a casa de campo onde a gente morava, lá perto da Côte d’Azur. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Até que, um dia, decidimos.  A rua já estava escura, nas primeiras horas da noite. A casa era a última, na parte mais alta da alameda que subia desde o centro da cidade e se perdia no bosque provençal, que cheira sempre a ervas e a azeitonas pretas. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Paramos o carro, um pouco antes da casa. Era um deux chevaux cor-de-abóbora, que já tinha subido a rua com os faróis cuidadosamente apagados, na tentativa de tornar discreto um carro que, pela cor e pela própria natureza, chamava a atenção por onde passasse. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Com as mãos presas nos dedos entrelaçados, Romário fez um apoio para eu subir e observar o lado de lá. A mesa estava no mesmo lugar, num canto do terreno enorme em volta da casa de dois andares, que, naquela hora, tinha apenas uma luz acesa. Perto da mesa redonda, de pés e bordas da tábua trabalhados em relevo, estava o resto dos entulhos: duas caixas lacradas, um tapete velho enrolado, uma televisão quebrada, uma mala de fecho enferrujado. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pulei. Romário, mais ágil, pulou depois, sem precisar de ajuda. Andamos no silêncio do terreno que já tinha sido estudado antes, quando a gente passava por ali, de dia. Cada um de um lado, começamos a levantar a mesa, que seria colocada em cima do muro, enquanto nós pulássemos para fora. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um barulho pesado, mas veloz, de pisadas firmes, começou a ser ouvido na escuridão do quintal. Paramos, ainda segurando a mesa. O barulho se aproximou, sem que nem eu nem ele conseguíssemos enxergar. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O barulho abriu a boca e fechou quando encontrou as carnes do alto da coxas do Romário. Um cachorro grande, marrom, de dentes afiados, tinha sentido o cheiro dos invasores. Romário não gritou mas, com a mão, tentava se livrar do animal. No começo, eu observava, feito árbitro de luta-livre, telecatch, judô. Depois, larguei a mesa e dei pontapés no ar. O cão sentiu o primeiro chute, rosnou e travou mais ainda os dentes. Romário parecia que ia começar a gritar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Puxei o cachorro pelo rabo. Ele era forte, resistia, estava pronto para uma verdadeira luta a três. Consegui segurar um das orelhas dele e o cão, mais ameaçador ainda, balançava a cabeça, sem largar as carnes do Romário, para se livrar da minha mão que segurava com firmeza. Ele, então, rosnou mais alto, abriu a boca e Romário subiu na mesa, de onde dava pontapés sem rumo, falando baixo:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-Sai, cachorro. Sai. Va-t-en, chien de merde.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O cachorro provavelmente não falava nenhuma das duas línguas e passou a me encostar contra o muro. Mostrava os dentes. Dei dois passos para trás. Ele avançou mais. Pulou. Me desviei e, quando ele passou no ar, abri a boca e mordi a anca do bicho. Com força.  Quando caiu no chão, me olhou por poucos segundos, até entender o que tinha acabado de acontecer e, aí, fugiu, ganindo como filhotinho assustado, à procura da barra da saia da dona.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Desistimos da mesa. Eu já estava com uma perna em cima do muro, quando todas as luzes do quintal se acenderam. Na varanda do segundo andar da casa, uma mulher tentava enxergar o que acontecia perto do muro que dava para a rua. E, com a voz aguda e quase estridente das francesas, cumprimentou daquele jeito estranho que eles têm de dizer bom-dia mesmo quando já é de noite:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-Bonjour! &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nós dois, em pé em cima da mesa, feitos náufragos agarrados a um pedaço de navio, ficamos calados. Ela desceu a escada em caracol e se aproximou, acompanhada pelo cachorro, que, imenso, se escondia atrás das pernas dela. Quando chegou bem perto, perguntou:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-C’est qui?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quem que a gente era? Mas isso eu não dizer nunca. E, por isso, continuamos em pé em cima da mesa. Ela insistiu na pergunta, e havia um sorriso no rosto dela que dava vontade de responder. Mas dizer o quê? Que a gente era ladrão de mesa? Ela voltou a fazer a mesma pergunta, pela terceira vez. E não fechava o sorriso. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-É que a gente estava dando uma olhada na mesa. É da senhora?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-E esse cachorro aí me mordeu. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela, então, parou de sorrir. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-Mordeu? Onde?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Romário se virou e mostrou o traseiro, furado em vários pontos pelos dentes do bicho bravo que, agora, estava mansinho e amedrontado. Ela se alarmou. Pediu que descêssemos. E ainda precisou de um bom tempo para nos convencer a entrar na sua casa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Lá dentro, mostrou o atestado de vacina do animal, quando voltou do quarto com mercúrio-cromo e algodão. Tive coragem de dizer que tinha mordido o cachorro dela, também. Ela deu uma gargalhada alta, ampla, saborosa. Procuramos no pêlo dele e lá estava a marca dos meus dentes. Da cozinha, vinha um cheiro delicioso, terno, de batatas assadas com muita manteiga e ervas. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A gentileza talvez seja uma grande arma de defesa. Ela sorria com ternura e seus olhos azuis pareciam invejar, com prazer, os dois rapazes estrangeiros que tinham pulado o muro da casa dela para roubar uma mesa. Por isso a casa de dois andares, no alto da rua que ia dar no bosque provençal, onde já corria o vento frio das primeiras noites de outono, estava vazia. Por isso é que as batatas ao forno eram só para uma pessoa e que as uvas em cima da mesa pareciam abandonadas. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela sorriu mais. Tinha a doçura de quem sonha. Perguntou qual era o nosso país. Seus olhos brilharam com a resposta. Até o cachorro olhava com desejo e saudade. Haviam vivido dias mais agitados, apesar de serem ainda jovens, os dois. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela acompanhou a gente até o muro. Ajudou a colocar a mesa em cima do carro. Deu opinião sobre como amarrar bem, para não cair durante a viagem até a Bégude. Fomos embora e, lá embaixo, no fim da rua, na entrada da cidade, a polícia exigiu que Romário parasse o carro. Depois de mais de 10 minutos de conversa truncada e errada, subimos todos de volta para a casa da mulher. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela abandonou o prato na mesa e, mais uma vez, veio até o portão. Quando viu a polícia, comentou, quase gargalhando, como quem não controla a alegria:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-Hoje não é o nosso dia de sorte, não é verdade?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O dia também já era dela. Tinha se apossado da aventura. Talvez fosse dormir tranqüila. Quando finalmente fomos embora, para nunca mais nos vermos, ela ficou lá em pé no portão, acenando com a mão.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/17667459-112932669392918544?l=ribondi.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://ribondi.blogspot.com/feeds/112932669392918544/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=17667459&amp;postID=112932669392918544&amp;isPopup=true' title='12 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/17667459/posts/default/112932669392918544'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/17667459/posts/default/112932669392918544'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://ribondi.blogspot.com/2005/10/aventura-dela.html' title='A aventura dela'/><author><name>Ribondi</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07599085746902668142</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='26' height='32' src='http://cora.blogspot.com/uploaded_images/ribondi.jpg'/></author><thr:total>12</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-17667459.post-112930700860472270</id><published>2005-10-14T12:21:00.000-04:00</published><updated>2005-10-14T12:23:28.610-04:00</updated><title type='text'>As vítimas</title><content type='html'>&lt;a href="http://photos1.blogger.com/blogger/5241/1707/1600/medievo4.jpg"&gt;&lt;img style="display:block; margin:0px auto 10px; text-align:center;cursor:pointer; cursor:hand;" src="http://photos1.blogger.com/blogger/5241/1707/320/medievo4.jpg" border="0" alt="" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu tinha um bodoque, feito à mão pelo meu pai, e logo na terceira lição, para aprender como lançar as bolas de barro com um arco, eu passei  a me sentir armado e, além disso, a pessoa mais perigosa do quintal. Também, e por causa do bodoque, passava as primeiras horas da noite sentado na cozinha enrolando bolas de barro, que depois iam ao forno. Era uma maneira de espantar o frio que rondava a nossa casa no alto das montanhas e era também, mais do que tudo, um jeito de, como acontecia cada vez menos, ficar do lado do meu pai que, sentado ali, bebia vinho de jabuticaba ou molhava os lábios, com lentidão e precisão, em cachaça temperada com ervas perfumadas. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Armado com meu bodoque enorme, quase do meu tamanho, eu saía para a caça. O bodoque, pendurado em meu ombro, tinha o mesmo efeito que se fosse a mão do meu pai: eu me sentia valente. Mas as taruíras são muito ligeiras e ágeis e não dão tempo ao inimigo para colocar a bola de barro no pedaço de couro preso por dois barbantes esticados paralelamente, esticar o arco, fazer pontaria, respirar fundo e disparar. As taruíras fogem antes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Foi aí que reparei nas galinhas. Elas apenas ciscavam no quintal. Primeiro, esticavam a perna e pisavam com a ponta do pé, como se fossem bailarinas desajeitadas que entrassem no palco. E giravam os olhos como se estivessem eternamente desconfiadas, sem nunca ter certeza de qual era o perigo em volta. Isto porque, tirando a perfeição e a beleza do ovo, todo o resto da galinha é patético e simplório. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Já tive oportunidades de mudar essa opinião, mas não mudei. Uma vez, viajava de trem entre Arequipa e Cuzco, e me sentei em frente a uma moça de tranças pretas e saia rodada, uma índia peruana, que levava um galo nos braços. Passou a viagem inteira abraçada ao bicho, e, todas as vezes que ele soltava resmungos do fundo do peito, e girava os olhos com aquele jeito espantado e zangado que as galinhas e os galos têm, a moça acariciava a crista do animal e beijava a cabeça dele. Em vez de mudar a minha opinião e deixar de achar que eram patéticos e simplórios, passei a achar que somos capazes de amar qualquer coisa, um galo, um toco amarrado em barbante, um bichinho de pelúcia, um envelope com carta dentro, um pai que tenha ido embora, como se o amor fosse uma sina. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas lá estava eu, na varanda, observando, do meu posto elevado, os inimigos ciscadores. Pus a bola de barro no bodoque, puxei os barbantes paralelos para trás, no preparativo do disparo, fechei um olho, mirei e atirei. A bolinha voou veloz pelo quintal e foi acertar o peito de uma galinha nova que passava por ali. Ela caiu para trás e ficou lá. Olhei desde a varanda, me achando perfeito. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Só que a franguinha não saiu mais do lugar. Olhei bem. Não se movia, estava caída com as pernas para cima. Lá em casa, as galinhas eram contadas todas as noites e recontadas todas as manhas, numa espécie de contabilidade de galinheiro, e alguma explicação haveria de ser dada, por alguém, no caso de a última contagem não bater com a anterior. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Corri até a vítima. Ela já tentava agitar as asas. Peguei a galinha e corri para o tanque do fundo do quintal. Abri a torneira e enfiei a cabeça dela debaixo d’água. E rezava para São Francisco de Assis, valei-me, fazei com essa galinha não morra. Até que ela se espantou, cheia de vida, mas ainda tonta, e fugiu do tanque. Quando pulou, encontrou a boca aberta do Maico, o cachorro enorme que trabalhava de guarda no nosso quintal.  Ele prendeu a franguinha com os dentes e correu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Corri atrás. Segurei Maico (era para ser Michael, mas virou Maico) pelo rabo, mas ele, naqueles dias, era maior e mais forte do que eu e, por isso, houve uma carreira desenfreada, nos fundos da nossa casa: na frente de tudo, a galinha quase morta entalada numa boca assassina. Logo depois, o assassino em pessoa, o Maico. Depois, eu, sendo arrastado preso ao rabo dele. No fim do cortejo, Mimosa e Malvina, que latiam para anunciar a passagem da alegoria. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Foi nesse momento, desesperado, meio esfolado de tanto ser arrastado e, sobretudo, vencido, que pensei em meu pai, o autor do bodoque. Mas ele não ficava mais muito em casa, preferia ir trabalhar ou parar na casa dos amigos. Então, emiti o pedido de socorro, o meu SOS:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-Mãããããe!!!!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela veio. Mas tem alguns pedidos de socorro que nunca deveriam ser emitidos. Quando minha mãe compreendeu a situação, pôs a galinha de volta no galinheiro, onde ela teria tempo para se recuperar de dois sustos seguidos, amarrou o Maico na árvore, e, com uma técnica precisa que consistia em me pegar pelo braço, bem abaixo do sovaco, e apertar as mãos até que as unhas entrassem, sem cortar, mas com muita dor, na minha carne, me empurrou para dentro do quarto e trancou a porta. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fiquei lá muito tempo e, quando saí, quis novamente treinar, provavelmente para esquecer as mágoas. Outra vez no meu posto de comando, que era a varanda, apanhei o bodoque feito pelo meu pai, coloquei a munição no local e, para evitar dramas, não apontei para o quintal e, sim, para fora dele. Disparei.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Só que, o que tem que acontecer, acontece. Não adianta fugir, não adianta espernear. Está escrito, tem uma certa dose de fatalidade nesses momentos. A bolinha de barro queimado voou, subiu o mais algo que pôde, voltou a descer em alta velocidade e, como um projétil inteligente, foi se espatifar e esfarelar bem na testa da minha mãe que, justo naquela hora, voltava para casa. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando ela abriu o portão, não era só o galo na testa dela que estava vermelho. As bochechas também. E o pescoço - que arfava. Os olhos apresentam vermelhidão. Talvez não babasse, mas me lembro, de maneira meio difusa, que babava, sim. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Meu bodoque foi quebrado em dois e lançado para o fundo do quintal. Minha cabeça tornou-se um pandeiro onde tamborilavam, de maneira pesada, as mãos da minha mãe, a caminho do meu quarto. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fiquei lá muito tempo. Para pensar. De noite, deu para ouvir que, no quarto deles, meu pai e minha mãe discutiam feio. Era algo sobre bolinhas de barro, sobre irresponsabilidade dele, sobre ai meu Santo Pai, toma jeito, homem. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu até achei, anos mais tarde, quando eles se separaram, que a culpa tinha sido da pedrada.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/17667459-112930700860472270?l=ribondi.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://ribondi.blogspot.com/feeds/112930700860472270/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=17667459&amp;postID=112930700860472270&amp;isPopup=true' title='12 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/17667459/posts/default/112930700860472270'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/17667459/posts/default/112930700860472270'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://ribondi.blogspot.com/2005/10/as-vtimas_112930700860472270.html' title='As vítimas'/><author><name>Ribondi</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07599085746902668142</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='26' height='32' src='http://cora.blogspot.com/uploaded_images/ribondi.jpg'/></author><thr:total>12</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-17667459.post-112925943594247501</id><published>2005-10-14T00:08:00.000-04:00</published><updated>2005-10-13T23:10:35.946-04:00</updated><title type='text'>Baseado em fatos reais</title><content type='html'>&lt;a href="http://photos1.blogger.com/blogger/5241/1707/1600/santiago_catedral2.jpg"&gt;&lt;img style="display:block; margin:0px auto 10px; text-align:center;cursor:pointer; cursor:hand;" src="http://photos1.blogger.com/blogger/5241/1707/320/santiago_catedral2.jpg" border="0" alt="" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;Meu caro, meu prezado e meu querido, &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A indecisão na hora de escolher a melhor maneira de me dirigir a você é natural, já que nunca me havia passado pela cabeça que chegaria o dia de lhe enviar uma carta. Ou missiva. Ou correspondência. Ou seria melhor usar trombetas celestiais? &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De qualquer jeito, e antes de mais nada, tenho que esclarecer que, de maneira geral, evito dizer “baseado em fatos reais”, já que, para mim, baseado em fatos reais é só uma coisa: cigarro de maconha enrolado em folha de jornal. Mas o que vou dizer aconteceu de verdade, e você tem a ver com isso. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A primeira vez que fui a Santiago de Compostela, a minha ida não tinha nada a ver com você, pessoalmente. Tinha mais a ver com curiosidade, e também porque eu tinha lido o alemão Goethe, que acreditava que “a Europa se fez pelo caminho de Santiago” e que o cristianismo era “a língua materna” do continente. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Cheguei e comecei a caminhar pelas ruas. Fé? Nem fé nem dúvida, que é uma maneira de ter fé. O que eu sentia era indiferença. Mal tinha descido do carro, ia caminhando pelas ruas cheias de gente quando ouvi um latido, que vinha de um pouco longe, de um pátio coberto. Um cachorro pequeno, comprido, bem tratado, de pêlo limpo, latia. Pulou sobre os bancos do pátio, atravessou o gramado, parou na calçada do outro lado da rua onde eu caminhava e latiu de novo. Veio com passos miúdos entre os carros que passavam de um lado para o outro, se desviou, parou para esperar, correu e chegou. Sentou-se em minha frente na calçada e me olhou. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Como ainda era muito cedo, coisa como seis da manhã, achei mesmo que ele estava com fome, depois de ter passado a noite na rua, longe de casa. Estendi a mão com um pedaço de queijo, mas ele só cheirou e não quis. Isso sempre me irrita, quando os cães e os gatos cheiram e não querem. Porque se a gente tivesse confiança absoluta neles, comia o que eles recusaram. Mas, não. Jogamos fora. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele ficou ainda sentado me olhando. Retomei meu caminho. Ele não deixou. Correu até a minha frente e sentou-se novamente. Nem abanava o rabo. Só me olhava, sem sorrir muito. Cachorro quando olha nos olhos quer desafiar e comprar briga.  Mas ele só queria mesmo era olhar fundo nos olhos. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Latiu e mostrou que queria atravessar a rua. Você sabe que eu nunca fui dessas coisas, de achar que cachorro quer falar com  estranhos, mas fui atrás. Eu não tinha nada que fazer, São Tiago não significava nada para mim. Você também não. Então, fui. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele passou por ruas afuniladas, por becos, por largos que, num contra-senso arquitetônico, eram estreitos. E chegou ao pátio da grande igreja de Santiago de Compostela.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A visão é surpreendente. Num pátio amplo, majestoso, ensolarado, está a igreja mais imponente e mais altaneira da Europa inteira. Isso tudo era para você? O cristianismo no fim do mundo, o milagre de Santo Iago na Finis Terra. Lá, para os romanos, o mundo acabava. Lá, para o Vaticano, a fé também chegava.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O cachorro subiu as escadas que vão do pátio até a porta principal e parou. Olhou para mim. Subi. Ele latiu. Traduzi os latidos e, então, entrei. Cedo assim, estava vazia. Escura. Solene. Messiânica. Pesada. Ruim. Olhei para o teto, percorri as naves, as alas, o túmulo do santo, os altares e o altar-mor. Cansei. Que prazer podia haver naquela imensidão? Eu ainda preferia o Louvre, por ser menos monotemático, por ter mais coisas que a arte em louvor à fé. E desde quando você era messiânico? Logo você que, para desespero nosso, nunca quis provar nada, nem mesmo a própria existência. Além disso, alguns bancos também exibem poder em prédios grandiosos. Os shoppings fazem a mesma coisa. Saí para ir embora, para ir até um bar, tomar café. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas o cachorro, lá na porta, não deixou. A cada passo que eu dava em direção aos degraus da escada, ele, baixinho, comprido, de passos miúdos, corria e se sentava na minha frente, com os olhos fixos em mim. Ri dele. Por causa do riso, ele latiu. Latiu mas também, com impaciência, olhou várias vezes para trás, como se esperasse alguém que já era para estar ali e que se demorasse mais, eu ia embora. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Foi aí que apareceu, vinda das ruas estreitas, uma mulher. Atravessou o pátio majestoso, subiu as escadas, e sem olhar para os lados, entrou na igreja. Era uma mulher com menos de 30 anos. Vestia calças compridas largas, feitas de um pano que, além de azul-claro, brilhava com fios dourados. Tinha também um suéter branco e uma écharpe azul. Era muito bonita, e você sabe como as pessoas bonitas me impressionam. Cada uma delas é como se fosse a definitiva. Como se fosse a mensageira das boas novas que modificarão tudo na minha vida. Tão bonita, que o fato de ser careca, não ter um só fio na cabeça, não alterava em nada a beleza. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Olhei bem quando ela passou por mim. Entrou na igreja e fui atrás, pelo prazer de seguir a beleza. Sem escolher lugar, ela se ajoelhou, de mãos postas e olhos fechados. Fiquei em pé logo atrás.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas, aí sim, foi aí que aconteceu essa coisa curiosa, que queria contar desde o começo. Talvez eu deveria dizer que foi aí que aconteceu um milagre, mas não quero parecer exagerado. De qualquer jeito, eu, em pé ao lado dela ajoelhada, reparei que a igreja, mesmo escura, taciturna, pesada, tinha umas janelas por onde entravam fiapos da luz do sol e que esses fiapos escorriam pelo chão, pelas paredes, pelas mãos dela. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E reparei também que o silêncio tinha uma algazarra de sons inaudíveis e que é assim que melhor se ouve, com sons inaudíveis. E entendi que a grandeza da igreja não tinha nada a ver com você. E senti que o meu coração batia com força enquanto olhava para aquela moça que, de mãos postas, agradecia, enquanto outro fiapo de luz vinha alisar a cabeça que tinha perdido todos os fios de cabelo com a crueldade da quimioterapia curativa, que também tinha feito com que ela ficasse de olhos fundos e cansados, marcados por olheiras imensas. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Cheguei bem devagar e me ajoelhei do lado dela. A moça se virou para mim rapidamente e voltou a fechar os olhos. Fiz a mesma coisa. Se rezei? Acredito que sim. Para falar a verdade, rezei sem dizer uma palavra sequer. Então era assim, você estava ali. Esqueci a igreja inteira e compreendi que alguns milagres são verdadeiros complôs: era por você que o cachorro galego tinha me procurado no meio da rua, me levado até a igreja e me feito esperar pela moça careca.   &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Era para estar ao seu lado, era para te olhar nos olhos, era para te encarar, era para te desafiar. Lentamente, como se o silêncio me dissesse, eu me senti parte daquela mulher bonita, e me senti parte sua. Apreciei os raios de sol que entravam pelas janelas e deslizavam sem rumo pelo chão da vida. Respirei como se respirar fosse a maneira de mostrar e provar e anunciar que eu e você existimos e respiramos juntos. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mais silencioso que a igreja toda, eu me levantei, sem me despedir da mulher, porque ela me acompanharia para sempre, e fui para fora. O cachorro estava lá. Sentado, me olhava. Abanou o rabo que se arrastou no chão do alto da escadaria. Latiu duas vezes. E só então se virou, desceu os degraus aos saltos, porque era muito baixinho, atravessou o pátio inteiro com passos ligeiros de quem tem mais coisas para fazer e sumiu na rua estreita. Foi sem olhar para trás. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Então, era por você que eu estava ali. A indiferença que eu sentia ao chegar em Santiago de Compostela já tinha acabado. Agora, eu estava apenas em plena dúvida, que é o começo da fé. Porque é mentira quando dizem que a fé é cega. Não é. Ela vê, ela pergunta, ela duvida.  &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E, por falar nisso, uma dúvida: para que eu fosse até a igreja e te encontrasse, você apenas mandou o cachorro ou você estava dentro dele o tempo todo?&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/17667459-112925943594247501?l=ribondi.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://ribondi.blogspot.com/feeds/112925943594247501/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=17667459&amp;postID=112925943594247501&amp;isPopup=true' title='11 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/17667459/posts/default/112925943594247501'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/17667459/posts/default/112925943594247501'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://ribondi.blogspot.com/2005/10/baseado-em-fatos-reais_14.html' title='Baseado em fatos reais'/><author><name>Ribondi</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07599085746902668142</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='26' height='32' src='http://cora.blogspot.com/uploaded_images/ribondi.jpg'/></author><thr:total>11</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-17667459.post-112922440730294936</id><published>2005-10-13T13:23:00.000-04:00</published><updated>2005-10-13T13:26:47.306-04:00</updated><title type='text'>Mimosa</title><content type='html'>&lt;a href="http://photos1.blogger.com/blogger/5241/1707/1600/choro.jpg"&gt;&lt;img style="display:block; margin:0px auto 10px; text-align:center;cursor:pointer; cursor:hand;" src="http://photos1.blogger.com/blogger/5241/1707/320/choro.jpg" border="0" alt="" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu tinha um amigo, lá na cidade capixaba onde passei a infância e comecei a virar gente graúda, que tinha uma cachorra chamada Piranha. Levou três cascudos, alguns safanões e beliscões da mãe, uma coça do pai, mas não mudou de idéia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-É Piranha. Piranha. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E disse sílaba por sílaba, para marcar bem: &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-Pi-ra-nha. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E era só chegar na frente da casa, gritar bem alto&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-Piraaaaaaaaaaaaaaaanha!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Que, de lá de dentro, viam a mãe dele, de cara amarrada, e a cachorra, toda sorridente e toda preta, gorda, satisfeita. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Foi por isso que inventei de ter uma cachorra para acompanhar a Piranha. O meu irmão-do-meio, que já morava em Vitória, a maior cidade do mundo, com uns 100 mil habitantes, tinha inventado um dia de amarrar o cinto num pedaço de pau e arrastar pela cidade. Fiz a mesma coisa. Procurei, no fundo do quintal, um pedaço de lenha, curto, bem redondo, amarrei um barbante no meio e batizei: Tua-mãe. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Então, era assim. Ia o meu amigo e a Piranha e, do lado, ia eu com a Tua-mãe. Deixávamos as duas na praça, entrávamos na venda e, aí, o meu amigo me perguntava, em voz alta:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-Cadê a Piranha?&lt;br /&gt;-Está na praça com Tua-mãe. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Este toco passou a valer muito. Cheguei a viajar com ele, para não ficar sem Tua-mãe. Fui, uma vez, no cinema com ele. Levava para a escola. Saía de noite com ele. Fui na missa. Lavava no córrego. Eu e Tua-mãe éramos inseparáveis. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Até que minha mãe (não confundir com Tua-mãe) achou aquilo muito estranho e foi conversar com o seu Otacílio, da farmácia Nossa Senhora do Carmo, a única autoridade do terreno da medicina em toda a minha cidade. A farmácia, no beira do córrego, a poucos passos da minha casa seguindo a linha do trem, era o prédio mais bonito do lugar. Pintado de creme, tinha, no alto, em cima das três portas, um relevo com o nome do estabelecimento, e uma taça enrolada por uma cobra. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Seu Otacílio tinha o jeito capixaba de falar, aos tropeções, sem fôlego, engolindo sílabas, mastigando pontos finais, limpando os dentes com vírgulas. Foi categórico:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-Menino sozinho sozinho poucos amigos fica muito em casa preci  companhia precisa precisa de companhia. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Minha mãe ainda contou:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-E nessa idade voltou a molhar a cama...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-Amigo tem que ter amigo brincar não pode ficar em casa conversando com toco.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Foi por causa dos conselhos dele que meu irmão mais velho, o mais velho de todos, que já era adulto, apareceu lá em casa com uma cachorrinha bem novinha, pretinha, com sobrancelhas cor de creme. A mãe dela era mistura de bassê com vira-lata e o pai, vira-lata puro. Então, ela era daquele jeito que até lembrava bassê. Dava para dizer que era bassê. Mas não era. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E se chamou Mimosa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-Mimosa é nome de vaca.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-Mas vai ser Mimosa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-Mas você já teve uma cachorra, quando você era bem pequeninho, que você também chamava de Mimosa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-Vai ser Mimosa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E foi Mimosa mesmo, uma das duas únicas cachorras do mundo com nome de vaca malhada. Foi por causa dela que esqueci de Tua-Mãe. Foi por causa dela também que deixei de vez de sair do quintal da minha casa. Acordava cedo, atravessava a neblina do quintal, tirava o pijama, pulava no córrego gelado, espirrava água em Mimosa e ia para a padaria, ainda de pijama e com os cabelos molhados. Depois, ia para a escola e, quando voltava, corria para o quintal dos fundos. Mimosa estava lá.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nunca aconteceu nada de excepcional na vida dela. Não foi particularmente inteligente. Não sabia truques. Não deixava as visitas encantadas com seu jeito de ser. Não sabia caçar paca. Não me lembro, em todos os anos que passamos juntos, de nada que ela tenha feito que possa ser contado, narrado ou lembrado para sempre. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Só me lembro do domingo em que ela morreu, porque Mimosa estava cheirando a beira da rua e uma caminhonete passou por cima. Ela tentou ir embora do local do acidente, mas não conseguiu. Minha mãe ouviu o barulho do carro e correu até a porta. Gritou e voltou para dentro de casa. E ficou lá repetindo baixinho, andando de um lado para o outro na sala:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-Não quero ver não quero ver pelo amor de Deus que não sofra não sofra. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Meu pai foi até lá e apanhou Mimosa que, de longe, deu para ver que tentava morder meu pai, porque doía muito. Meu pai se afastou com ela sem dizer para onde ia. Era o último ano que eu ia passar no Espírito Santo, mas ainda não sabia disso, e só fiquei sentado na escada da frente da minha casa vendo meu pai se afastar levando Mimosa quebrada. E abaixei os olhos meio envergonhado quando a vizinha entrou correndo lá em casa para acudir a minha mãe, que chorava em cima da cama. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mimosa nunca tomou banho de córrego comigo. Nunca pulou muros. Quando me acompanhava até a várzea onde pousavam os urubus, ia devagar porque tinha as pernas curtas e se cansava com facilidade. Nunca brigou nem nunca latiu para cobras. Nunca aprendeu nada. Nunca foi heróica. Nunca foi linda. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas foi o primeiro grande amor da minha vida.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/17667459-112922440730294936?l=ribondi.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://ribondi.blogspot.com/feeds/112922440730294936/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=17667459&amp;postID=112922440730294936&amp;isPopup=true' title='15 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/17667459/posts/default/112922440730294936'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/17667459/posts/default/112922440730294936'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://ribondi.blogspot.com/2005/10/mimosa.html' title='Mimosa'/><author><name>Ribondi</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07599085746902668142</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='26' height='32' src='http://cora.blogspot.com/uploaded_images/ribondi.jpg'/></author><thr:total>15</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-17667459.post-112906385639048140</id><published>2005-10-11T17:49:00.000-04:00</published><updated>2005-10-11T16:50:56.400-04:00</updated><title type='text'>Berinjelas</title><content type='html'>&lt;a href="http://photos1.blogger.com/blogger/5241/1707/1600/horse1.jpg"&gt;&lt;img style="display:block; margin:0px auto 10px; text-align:center;cursor:pointer; cursor:hand;" src="http://photos1.blogger.com/blogger/5241/1707/400/horse1.jpg" border="0" alt="" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu já era grande, tinha crescido, encorpado. Tinha 22 anos, não era pouca coisa. E morava longe, muito longe, lá perto da Côte d’Azur, num casarão enorme feito de pedra. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu já tinha crescido, estudava coisas raras e, talvez, preciosas, na Université de Provence; tinha acompanhado, de perto, uma tomada de poder por militares no Brasil, um golpe de Estado no Chile, uma revolução cravejada de flores em Portugal, e lá estava eu, outra vez, na roça. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Uma roça ao lado da Côte d’Azur, mas sem cidade, sem vila, sem endereço. Quem quisesse me visitar, tinha que conhecer duas referências essenciais, que eram a Montanha Sainte-Victoire e o Château Noir, habitado pelos descendentes do primeiro dono, o Cézanne, que, por sinal, gostava de pintar a Sainte-Victoire e o Pont des Trois Sautets, que era por onde eu passava, de mobilete, quando ia até a cidade. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas esses conhecimentos não bastavam e, por isso, tinha o mapa desenhado à mão, com texto elucidativo:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Como quem vai para Saint-Tropez, siga a Route Nationale 96 até o restaurante Les Cigales. A casa fica à esquerda de quem vai, perto da estrada, e tem uma parede enorme pintada com um anúncio. Um garçom levando uma bandeja com duas taças e uma garrafa e, em cima, a frase: Saint-Raphaël – L’apéritif de France.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Dentro da casa anciã, imensa, de três andares, que tinha nome de batismo, e era conhecida como La Bégude, ou A Hospedaria, em bom langue d’oc, morávamos um austríaco baixinho, que me ensinou o primeiro prato que cozinhei, um goulash vermelho e denso; uma sul-africana nervosa e suicida, que, para se aliviar, quebrava os móveis da casa; uma alemã alta, muito alta, de 1,90,  de franja e rabo-de-cavalo, meiga como uma anã órfã; Romário, um brasileiro filho de italianos e que tinha recebido esse nome em homenagem às capitais dos dois países, sendo Roma lá e Rio aqui; um gato preto de nome Robson – que era chamado de Rôb-zôn pelos habitantes da casa de língua alemã, de Róbisson pelos brasileiros e de Robson mesmo pela sul-africana, e que, por essa variedade lingüística que ele provocava, era também tratado pelo título de Le bateau des amis, ou Barco dos Amigos. Ou Friendship.  Abrindo uma porta da cozinha que dava diretamente no estábulo, vivia Zéphyr, o cavalo virginalmente branco.  E tinha eu também. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Zéphyr era, de todos os habitantes da Bégude e do vizinho Château Noir, o território dos Cézannes, o mais calmo, o mais pacífico, o mais suave e o mais belo. Quando não estava no estábulo, gostava de caminhar, lento e empinado, como se fosse artista de circo, no campo que rodeava a casa, coberto das flores coquelicots, vermelhíssimas e frágeis, que eu não sabia que existiam quando me mudei para lá. Só na primeira primavera é que me dei conta de que não morava apenas na roça. Morava mesmo era dentro de mato florido. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Zéphyr sabia trotar, conhecia a arte de enfiar a cabeça pela porta entre o estábulo e a cozinha, sabia relinchar demoradamente, como se entoasse cantigas antigas, tão antigas quanto a Bégude, capazes de atrair unicórnios. E sabia me levar, e trazer de volta, sem voz de comando, até Fuveau, a cidadezinha miúda, feiosa e sem importância, mas com a grande qualidade de ter padaria, açougue, bar, mercearia e correios. Era nas costas dele, gigantesco, que eu entrava em Fuveau e desfilava por todas as ruas, nenhuma reta, todas íngremes e montanhosas, da cidadezinha sem eira nem beira. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ia à feira em Aix-en-Provence de mobilete, passando pelo Pont des Trois Sautets, a única paisagem da pintura impressionista que, ademais da Sainte-Victoire, conheço com intimidade e afeto. Às três da tarde, recolhia, de graça, tomates levemente amassados, alfaces de folhas um pouco enferrujadas, cebolas relativamente moles, dentes caídos das tranças de alho, batatas quase perfeitas, abobrinhas-italianas sem talo e berinjelas feridas. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Chegava em casa, punha os legumes em cima da pia e entrava no estábulo com o caixote cheio de berinjelas. Zéphyr levantava o rabo, empinava o trote, relinchava com os beiços soltos, sacudia a cabeça e se aproximava. Uma a uma, eu oferecia as berinjelas, que ele apanhava com os dentes à mostra, o pescoço espichado e os olhos doces como a cor deles, que era mel. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A berinjela era mais estranha que viver entre os franceses. Eu segurava aquele enorme ovo roxo, quase sem cheiro e sem aroma, e entregava a Zéphyr, sem mesmo acreditar que ele pudesse gostar de coisa tão bizarra. Ele, cuidadosamente, com os dentes, abria o fruto como quem desembrulha uma preciosidade oriental. Os olhos dele, enormes, silenciosos, doces, penetrantes, calmos, atentos, iam da comida deixada no chão até as minhas mãos. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Me agachei perto. Zéphyr engolia nacos de berinjela, a fruta desconhecida, a estranheza mediterrânea. Olhei então para as coxas dele, o peito, as pernas, o pescoço, o pêlo branco. Tudo era bonito. Pela beleza dele, levei uma berinjela ao nariz e cheirei. Era um aroma que parecia vir de longe, de grama muito úmida, o primeiro cheiro roxo que eu sentia entrar em meu corpo. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Olhei para Zéphyr que, com a cabeça e a boca viradas para a berinjela, me olhava também, com o cantos dos olhos. Por causa da língua de Zéphyr, que se espichava entre os dentes, lambi a berinjela, ali mesmo. Ele relinchou. Depois de olhar para a boca dele, mordi, e meus dentes entraram, ainda com insegurança, na carne macia e crua do fruto de Zéphyr. Depois, me sentei no chão do estábulo e esperei, para que o prazer do cavalo que comia me ensinasse a gostar do que eu não conhecia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Voltei para a cozinha. Cortei tomates, cebolas, aborbinhas-italianas, alhos. Parei. Olhei para as berinjelas. Cortei também. Reguei com azeite de oliva. Pus sal. Abri o fogo. Era o cheiro do meu fogão que fazia Zéphyr relinchar e bater com os cascos das patas no chão. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pus a comida num prato fundo, enchi um copo com vinho, cortei uma fatia de pão e voltei para o estábulo. Zéphyr balançava a cabeça, enquanto eu comia a ratatouille perfumada com thyn e romarin. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Cresci mais ainda, encorpei mais ainda, e sei que todas as berinjelas do mundo são invenções e crias de Zéphyr, o meu cavalo branco rodeado de coquelicots ao pé da Sainte-Victoire. É ele, o meu Zéfiro, que traz esse cheiro bom e manso de coisas mediterrâneas, de azeites e alhos. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E até quando voltei, 30 anos depois, e que ninguém estava mais lá, as berinjelas me faziam pensar em coisas como cheiro, grama, tempo, galopes, calmarias, suor. Parei o carro, muitos anos depois, na Route Nationale 96 e, no lugar da Bégude, havia casas modernas, de bom-gosto facilmente detectável, impessoal e antipático, cercadas por um muro de condomínio. Escrito em cima do portão de entrada, estava o nome da minha casa de antigamente.  &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Do outro lado da estrada, o restaurante Les Cigales tinha se tornado ruínas modernas, de vidros quebrados. No muro branco, uma frase, escrita com letras de tinta preta, gritava a quem lesse ou, mais que tudo, a quem pudesse entender. Alguém, alguém como o austríaco cozinheiro, como a sul-africana sofrida e doida, como a alemã gigante doce como uma anã, havia deixado o recado para quando eu chegasse por lá.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“C’est tout fini, Alexandre!” &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O aviso, “Acabou-se tudo, Alexandre!”, podia ser grafite sem rumo, podia ser aviso de fim de namoro para algum Alexandre. E podia ser, tinha que ser, para mim. Eu senti com dor no peito que era para mim. Com o aperto incontrolável da garganta, eu sabia que alguém, algum deles, me avisava que nós, nós éramos o passado de um dia lá longe, perto da Côte d’Azur. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Entrei num restaurante em Aix-en-Provence. Não olhei cardápio. Pedi ratatouille. Na primeira mordida, senti o sabor das aubergines roxas e montei em Zéphyr. Na segunda, alisei o pescoço poderoso dele. Na terceira, começamos a marchar lentamente e, a partir da quarta, desembestávamos feitos loucos, felizes, cheios de vida, pelo campo de coquelicots. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-Vai, Zéphyr, vai!! Não me deixe pra trás, nunca!&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/17667459-112906385639048140?l=ribondi.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://ribondi.blogspot.com/feeds/112906385639048140/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=17667459&amp;postID=112906385639048140&amp;isPopup=true' title='9 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/17667459/posts/default/112906385639048140'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/17667459/posts/default/112906385639048140'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://ribondi.blogspot.com/2005/10/berinjelas.html' title='Berinjelas'/><author><name>Ribondi</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07599085746902668142</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='26' height='32' src='http://cora.blogspot.com/uploaded_images/ribondi.jpg'/></author><thr:total>9</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-17667459.post-112906326735360025</id><published>2005-10-11T17:36:00.000-04:00</published><updated>2005-10-11T16:41:07.360-04:00</updated><title type='text'>O inexistente</title><content type='html'>&lt;a href="http://photos1.blogger.com/blogger/5241/1707/1600/jaguar1.jpg"&gt;&lt;img style="display:block; margin:0px auto 10px; text-align:center;cursor:pointer; cursor:hand;" src="http://photos1.blogger.com/blogger/5241/1707/320/jaguar1.jpg" border="0" alt="" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="http://photos1.blogger.com/blogger/5241/1707/1600/jaguar.jpg"&gt;&lt;img style="float:left; margin:0 10px 10px 0;cursor:pointer; cursor:hand;" src="http://photos1.blogger.com/blogger/5241/1707/320/jaguar.jpg" border="0" alt="" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O quintal da casa era um mundo inteiro, com divisões administrativas e até mesmo étnicas. A parte da frente, por exemplo, era o território bem cuidado das roseiras, dos novelos de hortênsias, das abelhas, besouros, beija-flores e moscas. Era de lá também que partiam todas as borboletas do mundo, em bandos, para povoarem terras muito distantes e eu acreditava que iam para a Ásia, Canadá, Vitória e a baía da Guanabara. O cheiro de flores e rosas era sempre forte e meu pai controlava o ritmo natural das coisas. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A parte dos fundos, era a terra dos cachorros, dos passarinhos no viveiro, da araponga pendurada num poleiro grande, dos porcos no chiqueiro. Um pouco mais afastado, num vale desconhecido por mim, e totalmente desorganizado, com tufos esparsos de erva-cidreira, capim-gordura, pés de cana e almeirão, ciscavam as galinhas, piavam os pintos, se exibiam os galos e repousavam os ovos. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Depois do portão de outra cerca, que dividia o mundo em dois, começava a segunda parte do quintal, o campo das árvores, das frutas, das taruíras ligeiras. O campo só acabava quando começava o córrego, onde moravam os peixes pequenos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E, em lugar nenhum, sem território aparente, com um jeito alheio de quem não pertence a nada, vivia ele, o inexistente. Sem se movimentar, sem percorrer os territórios das flores, dos cachorros, dos pássaros, das galinhas, das árvores, ele surgia. Eram instantâneos. De repente, ele, agachado em cima da mesa da varanda, com as pernas recolhidas debaixo do corpo. Subitamente, ele, lambendo as patas em cima do muro. Num piscar de olhos, ele, preparado para o bote no peitoral da varanda grande, observando o vôo dos beija-flores.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tinha nomes, mais de um. Era Bichano. Ele nunca vinha. Era também Bichaninho, e ele continuava desaparecido, podendo, talvez, entrar na casa pela janela do banheiro, que dava para a horta, outro território, só que administrado apenas por minha mãe. As folhas verdes e úmidas das alfaces gordas eram, na verdade, o dossel da cama dele. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas respondia quando, com os lábios espremidos um contra o outro, a gente dizia o seu nome preferido, que era Psi-psi-psi-psi. E aparecia sem se roçar nas pernas, sem andar em círculos, sem emitir som. Apenas surgia sentado, em cima do rabo do fogão-à-lenha, como se entrasse em sala de trono e aguardasse, com certo tédio, com controlada soberba, com a paciência exigida pela nobreza, a voz dos súditos. Mas a minha mãe era impiedosa com as majestades e sabia fazer o pano-de-prato estalar como um chicote no ar. Ele, então, alçava vôo pela janela e ia cuidar do restante do reino. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando a noite começava a chegar, quem primeiro escurecia era o córrego, que se tornava rio de caudal misterioso, emitindo sons que atravessavam todo o quintal até entrar na sala. Depois, as galinhas, os pintos, os galos e os ovos iam dormir, com pequenos sons de multidão em discórdia que, mesmo assim, se acomoda em quarto pequeno. Os passarinhos encolhiam os pescoços. A araponga emitia a última martelada e fechava os olhos. Os cachorros se deitavam. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu estava no quarto. Meu pai tinha viajado, e seria eu o homem da casa se esse cargo não fosse ocupado, em caráter permanente e irrevogável, pela minha mãe, que se aproximou de mim e disse, em voz baixa, quase sussurrada:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-Tem um homem no quintal. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A casa era um castelo trancado. Dentro, eu andava na ponta dos pés, sem rumo. A escada dos fundos da varanda de madeira rangeu. Minha mãe parou, hirta. Com o braço estendido, sem dizer nada, apanhou a espingarda, escondida atrás da estante dos romances e das enciclopédias. A arma era sempre usada como cajado, porrete ou bastão, nunca como instrumento para soltar tiros, que era coisa que nem eu nem minha mãe sabíamos como fazer. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela me afastou com a mão espalmada e caminhou até a porta da cozinha. Girou lentamente a tramela. Com o dedo indicador erguido e duro, vibrando da direita para a esquerda, eu tentava dizer a ela que não abrisse a porta. Mas ela abriu. O homem, que era ladrão de quintal, assaltante de miudezas, e que subia as escadas, degrau por degrau, rodeado dos cachorros que apenas cheiravam o pé dele, parou quando ouviu o barulho da porta sendo aberta. Minha mãe, com a espingarda segura pelo cano, ainda conseguiu suspirar fundo, diante do vulto mais ou menos alto. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na escuridão, três pares de olhos se encontraram, em um segundo antes da ação: os dele, os da minha mãe e os de Psi-psi-psi-psi, que, sentado de maneira inexistente no parapeito da varanda, arqueou as pernas de músculos poderosos, acertou a mira e pulou de uma vez. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Grudou-se com as garras afiadas à nuca do homem. Emitia urros, gemidos, gritos dilacerantes. O homem pulou até o quintal. Os cachorros, agora, latiam e se agitavam. No pulo, para não cair, Bichano grudou-se mais ainda ao pescoço da vítima. Enfiou as garras, cravou os dentes, agitou com força e rapidez as patas traseiras, que rasgavam a gola da camisa. O inexistente havia se tornado um escarcéu. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O homem corria pelo quintal e ele, Bichaninho, como um vírus grudado ao sangue, ia junto. Minha mãe rodava a espingarda no ar, os cães se afastavam, assustados, porque já tinham visto aquela mesma mulher em situações mais perigosas e agressivas. O homem pulou a cerca que levava para o quintal das árvores. Bichano, sem medo de alturas e saltos mortais, urrava. O homem pulou nas águas geladas do córrego e levou seu atacante junto. Os dois desapareciam na correnteza e voltavam à tona, como se fossem, os dois, jaguatirica brava e búfalo atacado na garganta. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Somente quando conseguiram chegar à outra margem, que dava para o campo de futebol, é que se soltaram. O homem, esfarrapado, ensangüentado, desfibrado, arranhado, mordido, tenso, assustado, dolorido e enxotado, sumiu na escuridão da noite de cidade sem postes de luz. Psi-psi-psi-psi, olhou para o córrego e lembrou-se, então, que não gostava de águas. Com o rabo em pé, procurou a parte mais estreita do canal e pulou de volta. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;As mãos de minha mãe tremiam enquanto ela girava a colher para misturar o açúcar na água dentro do copo. Eu, lá fora, acalmava os cachorros. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E, subitamente, lá estava Psi-psi-psi-psi, no escuro, sentado no peitoral da varanda, lambendo, imponente, as patas mortais.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/17667459-112906326735360025?l=ribondi.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://ribondi.blogspot.com/feeds/112906326735360025/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=17667459&amp;postID=112906326735360025&amp;isPopup=true' title='6 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/17667459/posts/default/112906326735360025'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/17667459/posts/default/112906326735360025'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://ribondi.blogspot.com/2005/10/o-inexistente_112906326735360025.html' title='O inexistente'/><author><name>Ribondi</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07599085746902668142</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='26' height='32' src='http://cora.blogspot.com/uploaded_images/ribondi.jpg'/></author><thr:total>6</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-17667459.post-112895152056458653</id><published>2005-10-10T10:37:00.000-04:00</published><updated>2005-10-10T09:38:40.573-04:00</updated><title type='text'>Malvina e Irene</title><content type='html'>Alta, magricela, cor de carne-seca, canelas finas, latido agudo, cauda alerta. Passou uns dois dias, só olhando pelo lado de fora da cerca. Depois, passou a ficar sentada do lado de fora do portão e, quando eu ia para a escola, ela me seguia para fazer todo mundo acreditar que morava lá em casa.  Até o dia que voltou comigo da venda e entrou de vez no quintal.  Minha mãe olhou, disse que não queria. Depois, abrandou.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-Mas ela é tão feia. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Olhou bem, examinou, era quase como se as duas se cheirassem. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-Magrela desse jeito, parece alguém que eu conheço.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E a cachorra foi batizada com o nome da mulher magra e feia, e virou Malvina. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Roia o osso somente até a metade, e o resto, escondia em um buraco cavado no quintal. Deitava-se em cima por um, dois, três dias inteiros. Ela demorou até aprender que, agora, podia comer à vontade, que outros ossos iam aparecer, como por milagre, trazidos pelo milagreiro da casa, que era o meu pai. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Era, no começo, para ser cachorra de quintal, sem entrar na sala e sem se espalhar pelos quartos. Havia uma fronteira bem marcada, com um guarda de alfândega eficiente, que era a minha mãe: a porta da cozinha. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas Malvina sorria com o rabo e com os olhos. Não levava ofensas, não guardava rancor, não se sentia humilhada por nada. O tanto que fosse dela, ela amava e se satisfazia. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um dia, saiu para passear e, quando voltou, tinha, enfiados bem dentro da carne do focinho, cinco dardos do porco-espinho que ela tinha tentado abocanhar no mato fechado que fazia da minha cidade uma pequena clareira ensolarada no meio da Mata Atlântica, lá no alto das montanhas. Com os dedos que, por serem de cão, não funcionam como pinças, ela tentava se livrar dos espinhos doloridos. Sentada no pé da escada da frente da casa, gania baixinho, enquanto tentava sorrir com o rabo. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Meu pai chegou com os instrumentos cirúrgicos: corda fina, alicate, algodão e vidro de éter. Segurei o corpo quentinho e magro dela, enquanto meu pai, com o pedaço de corda fina, juntava e amarrava as patas da frente e de trás. Segurou a cabeça de Malvina com força e esfregou o algodão encharcado com éter na entrada do nariz. Esperneou. Senti que ela acreditava que era assassinato, que já tinham tentado isso antes, com pedras, tiros, pedaços de pau. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tentou fugir, ganiu, mas depois ficou imóvel, com a língua inconsciente, pendurada para fora da boca, entre os dentes quase cerrados. Cada puxão que meu pai dava com o alicate, para arrancar o espinho, trazia também um pouco de sangue, que eu limpava com pedaços de algodão. Quando o efeito do éter passou, ela já estava completamente curada de tudo e talvez nem se lembrasse mais, ou nunca mais, do porco-espinho traiçoeiro. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas, um outro dia, uma ano depois da chegada dela, Malvina não estava mais lá. Quando já era de tardezinha, na hora que a neblina chegava na cidade para passar a noite com a gente, ainda não tinha voltado. E não apareceu nem de manhã. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Procurei em Jaciguá, Nova Esperança, Matilde, Guiomar, que não eram longe, porque o Espírito Santo é pequeno e o alto das montanhas, menor ainda. Procurei debaixo da ponte, na caieira, no terreno da fábrica de seda-pura, nos campos de amoreiras, na várzea dos lírios e copos-de-leite. Procurei no palmital do Turco. Andei uns três dias pelos quintais dos outros. Cada latido era uma promessa inteira, era o segundo que antecederia a visão da Malvina dobrando a esquina com o rabo em pé. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Minha mãe foi quem tratou de colocar os pingos nos ii. Disse que cachorro quando vai embora, não volta. Que ela era de rua e que sentiu vontade de ficar livre outra vez. Que cachorro, tem muitos. Que ela não era nossa desde novinha e que não tinha se apegado. E foi assim, aos poucos, ouvindo minha mãe, que Malvina deixou de ser espera e começou a se tornar cachorra sumida. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas ainda me lembrava de tudo dela e não foi preciso nem mesmo um minuto de ouvir o seu ganido do lado de fora, quando eu, ainda antes das seis da manhã, girava a tramela da porta da cozinha. Ela, a Malvina, estava lá, arreada, mais definitivamente magra, como se sua pele toda fosse apenas um pano fino cor de carne-seca jogado de qualquer jeito sobre os ossos pontudos. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quis se levantar pra me dizer que estava de volta, fez todos os esforços para latir e lamber, mas ficou ali parada, como quem tem notícia para dar e, mesmo assim, fica calado e inerte. Tentou abanar o rabo sempre atento, mas ele estava arqueado demais. Os seus olhos, fundos e encardidos, me olharam então. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um dia, de repente, ela se viu, sem saber como, em lugar desconhecido. Passado o susto e a procura rápida pelo chão próximo, cheirado e vasculhado em círculos, volteios e ziguezagues, ela se deu por perdida. Por isso, gastou três meses inteiros procurando o caminho de volta, por cima de morros, por baixo de árvores. Levou carreira de onça. Escapou de bote de cobra. Atravessou córregos e rios de água fria. Passou dias quieta e escondida enquanto os caçadores capixabas entravam na mata armados atrás de pacas. E voltava metade do caminho percorrido se visse garoto com pedra na mão.  &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Foi com susto, por medo de Malvina magra, que gritei. Gritei bem alto. Era muito cedo, tudo estava muito frio, a escada, as minhas mãos, o ar, a porta, o córrego que passava perto dentro do quintal. Minha voz gelada gritou sem parar. Quem correu, do fundo do calor do quarto, com um peignoir em cima da camisola, foi minha mãe. E quando pôs o pé no primeiro degrau da escada fria, de repente parou, gelada. Malvina estava ali e olhava, com olhos de nada. Com minha mãe na escada, vestida de peignoir que quase se arrastava no chão, todo o quintal deu um passo atrás. Os outros cães se afastaram. Os porcos cheiraram o ar, desde o chiqueiro. Os passarinhos se prendaram, com firmeza, nos poleiros do viveiro enorme. E até a araponga engoliu em seco.  Só Malvina não fez nada. Esperou. Era, ali, uma questão de vida ou de morte. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Finalmente, depois de quatro meses, estavam as duas de novo frente a frente, olho no olho. A mãe, ela, não dizia nada, evitava tudo, meus olhos, os olhos da cachorra, a fraqueza dela, a feiúra da Malvina quase morta, a Malvina regressada, ferida de tanto se sentar e se deitar sobre a pela fina e flácida que cobria ossos pontudos. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E minha também soube. Voltou para dentro de casa, com passos rápidos, abriu armários, portas, gavetas. Vasculhou. Acendeu o fogão a gás, apanhou panela grande, pôs no fogo, derramou água dentro. Apanhou ossos com carnes. Jogou na água. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Depois, muito tempo depois, ela voltou. Desceu as escadas com uma bacia de lata nas mãos e um pano no ombro. Sentou-se ali  mesmo, na escada. Estendeu a mão até a cachorra. Malvina não sabia se deixava. Tinha medo de ser levada outra vez embora e abandonada em lugar que não conhecia. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-Vem cá, feinha, vem. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Só o extremo do rabo dela se agitou. Não sabia o que as mãos da mãe iam fazer.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E aí minha mãe, com o mesmo desvelo que tinha levado Malvina embora para soltar no mato e se ver livre da cadela feia, molhou o pano no caldo de ossos levado dentro da bacia. Lentamente, repetiu o mesmo gesto várias vezes: o de passar o pano molhado com o caldo nos beiços de Malvina. Todos os outros bichos da casa permaneceram sentados no mesmo lugar.  A cachorra quase morta sentia o sabor e o cheiro da água morna com ossos. Depois vomitou e, só então, relaxou todos os ossos e se deitou no quintal.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-Está fraquinha demais. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Durante três dias, minha mãe repetiu o que tinha feito. Preparava o caldo e dava na boca da cachorra. As duas ficavam lá, em silêncio, uma sem dizer nada para a outra. E minha mãe, que sabia matar, sabia torcer pescoço de galinha, sabia onde enfiar a faca em peito de capado, e que sabia também salvar, preparar remédios, ferver água com erva-cidreira, com boldo-amargo, benzer íngua debaixo de céu estrelado, permaneceu acocorada até que Malvina se levantasse. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;As duas tinham falado de perdão, de crueldade à-toa, de crias. Tinham deixado de ser mulher e cachorra para se tornarem essa mesma coisa que tem fígado, sangue, pele, coração, tripas, língua, vaivens de fertilidade, olhos. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Malvina, em pé, no fim do terceiro dia, se espreguiçou com as patas da frente abaixadas, o focinho quase no chão, o rabo erguido como se fosse uma antena que recebesse sinais de vida. Olhou para minha mãe com a ternura dos cães, dispostos a esquecer tudo para ser apenas felizes. Em seguida, foi cheirar as folhas úmidas amontoadas debaixo do pé de caqui.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/17667459-112895152056458653?l=ribondi.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://ribondi.blogspot.com/feeds/112895152056458653/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=17667459&amp;postID=112895152056458653&amp;isPopup=true' title='22 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/17667459/posts/default/112895152056458653'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/17667459/posts/default/112895152056458653'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://ribondi.blogspot.com/2005/10/malvina-e-irene.html' title='Malvina e Irene'/><author><name>Ribondi</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07599085746902668142</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='26' height='32' src='http://cora.blogspot.com/uploaded_images/ribondi.jpg'/></author><thr:total>22</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-17667459.post-112892139993584031</id><published>2005-10-10T05:23:00.000-04:00</published><updated>2005-10-10T01:55:23.963-04:00</updated><title type='text'>O canário-belga</title><content type='html'>E na casa grande com cinco quartos-de-dormir, duas salas e três cozinhas, com quintal apinhado de pés de caqui, pêra, maçã, pêssego, jabuticaba, amora, laranja-seleta, mexerica, pinha,  meu pai escolheu um dos quartos-de-domir, o  que ficava mais nos fundos da casa, sempre vazio, quase um cômodo de entulhos, com a diferença de que, às vezes, os entulhos eram retirados às pressas para acomodar visita,  e pendurou, num dos pregos da parede, a gaiola com o canário-belga que chocava dois ovos. Isto era no inverno e era no alto das montanhas do Espírito Santo, ao lado do Pico da Bandeira, e a neblina vinha e cobria, todos os dias, as roseiras e as hortênsias que seguiam, talvez calculadamente, a barra da varanda de madeira que rodeava a casa.&lt;br /&gt;     &lt;br /&gt;E foi lá no quarto dos fundos, em silêncio, que um dos ovos não vingou e o outro se abriu com um canarinho, pequeno como a ponta de um dedo polegar. Por alguma razão, a mãe canário não tinha  sido feliz com os ovos. Um que não conseguiu ser chocado e o outro que trouxe um passarinho miúdo, de jeito fraco, com as pernas para cima e que, em vez de serem pernas para baixo, apontadas para o chão, pareciam ser braços erguidos para o céu. Em casas antigas, de madeira, enfiadas em alto de montanhas, cercadas por rosas, hortênsias e neblina densa, geralmente se fala muito pouco e basta um olhar para o outro para que a notícia da morte eminente fique estampada na cara. O passarinho, feio, monstruoso, com a deformação absurda e sem nexo, abria o bico como se fosse uma agonia gentil e delicada, e se arrastava no ninho, na tentativa inútil de usar as pernas enlouquecidas e aleijadas. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;     Meu pai então foi até um dos outros quartos, que minha mãe, a costureira da cidade de três ruas, usava para trabalhar. Ele foi até lá e voltou com linha de costura, de cor branca. Com o canivete, afinou e arredondou dois palitos-de-fósforo. E com as mãos grandes e ternas, que eu sabia que eram grandes e ternas porque, em certas noites, tiritando de frio, eu sentia as mãos do meu pai em mim quando ele, para me esquentar da frieza das noites no alto da  serra, esfregava meu peito, como se espalhasse ungüento contra chiadeira e catarro. Com aquelas mãos, ele, mantendo a atenção firme e delicada de um restaurador de porcelanas, segurou o recém-nascido e, com a ponta dos dedos que comprimiam as juntas do passarinho, fez crec ao girar, de uma vez só, as pernas do canário-belga e pôr as duas de volta nos lugares certos. Ele, como se tivesse nascido para viver e nunca para morrer, não reagiu, não piou, não gemeu. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;     Com os palitos, o meu pai fez duas tipóias presas com fios de linha branca enrolada desde as patas até o alto das pernas e devolveu o passarinho para aquela parte quente e silenciosa que a gente sempre encontra quando se encosta na barriga das mães de todo o mundo. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;     Depois, não se falava mais disso e a neblina arredava e voltava, as rosas se arrepiavam com as gotas de orvalho produzidas pela noite e pelas primeiras horas da manhã, as hortênsias se ajeitavam na barra da varanda imensa, e o córrego, no fundo do quintal, borrifava águas até as margens da minha casa, com a serenidade aprendida nos caminhos das montanhas espírito-santenses. Atrás da porta do quarto, dentro da gaiola pendurada na parede, o tempo também passava, num silêncio de cama de hospital. Deitado de lado, o passarinho novo apenas arfava e abria o bico em horas de sede e de fome. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;     Até que meu pai, depois do almoço, que nunca era feito na cozinha de fogão-a-gás, mas sempre na cozinha de fogão-à-lenha ou na outra, com o fogão a pó-de-serra, de repente interrompeu as atividades da mesa com um gesto de mão. Um pio, apenas um, curto, alto, agudo e rápido, tinha vindo da gaiola. Ele se levantou e foi até o quarto dos fundos que, por ser de entulhos, tinha a porta escondida atrás da estante onde eram guardados as enciclopédias e os romances. Ele, o meu pai, afastou a estante, abriu a porta e entramos. O frio gelava os cômodos desocupados da casa. &lt;br /&gt;Depois, acompanhados pelos cachorros com os focinhos empinados, na curiosidade de saber o que é, descemos as escadas do fundo da casa grande e entramos no quintal. No viveiro enorme, onde eu entrava com medo de me perder, meu pai, com as mesmas mãos que cuidavam das rosas e das hortênsias, que faziam violinos com cordas de crina de cavalos, que fabricavam piões e carrinhos com canivete, com as mesmas mãos que cuidavam de mim e dos meus irmãos, abriu a porta da gaiola. A mãe voou até o último poleiro que encontrou. Meu pai e eu nos olhamos. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;     Lá fora, do outro lado do viveiro, os cachorros espremiam os focinhos contra a tela de arame. Lá fora, tudo continuava vivo, as maçãs, os caquis, as hortênsias, minha mãe. E foi com esse sinal de vida, que se espalha por todos os cantos e que é inapelável, que o filhote, primeiro, sacudiu as asas, depois olhou para a porta da gaiola enquanto meu pai desenrolava os fios de linha que seguravam as tipóias, e, só aí, como quem se coloca na ponta do trampolim antes de saltar, se jogou para dentro do ar do mundo. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;     Eram, então, mãe e filho, dois canários-belgas bonitos, elegantes, com as penas que iam do amarelo-ouro até o vermelho-sangüineo, este mesmo vermelho que surgia quando o sol empurrava a noite, e fazia o dia começar, lá na ponta das montanhas mais altas que a minha casa.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/17667459-112892139993584031?l=ribondi.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://ribondi.blogspot.com/feeds/112892139993584031/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=17667459&amp;postID=112892139993584031&amp;isPopup=true' title='9 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/17667459/posts/default/112892139993584031'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/17667459/posts/default/112892139993584031'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://ribondi.blogspot.com/2005/10/o-canrio-belga.html' title='O canário-belga'/><author><name>Ribondi</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07599085746902668142</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='26' height='32' src='http://cora.blogspot.com/uploaded_images/ribondi.jpg'/></author><thr:total>9</thr:total></entry></feed>
