12.26.2005

Razões para viver

Eu era amigo do Hominho, que se chamava Anselmo. Ele era filho de dona Alta, que se chamava Altamira. Ela era amiga da minha mãe, em Baixo Guandu, a cidade plana, quente, de ruas longas e retas na ponta do triângulo formado pelo encontro dos rios Doce e Guandu. As duas eram da Congregação Mariana e usavam véu preto quando entravam na igreja. Com a diferença de que minha mãe usava roupas coloridas, vestidos brancos com bolinhas azuis, saias vermelhas e blusas cor de creme. Dona Alta, para lembrar o marido morto, usava preto e duas alianças grossas no dedo anelar da mão esquerda.

Hominho e eu, a gente tinha oito anos, mas ele era mais baixo. E também era mais ágil e mais veloz para subir em árvores, atravessar rio, correr pelas ruas quando alguém, mais alto ou mais velho, corria atrás de nós. Eu tinha duas cachorras, a Mimosa e a Malvina. Na casa da dona Alta só tinha galinhas e porcos.

E eu estava lá, na casa dela, esperando a hora certa da minha mãe e dona Alta apanharem os véus, os missais e os terços, e saírem pra Igreja. Era em momentos assim que Hominho e eu cometíamos o nosso pecado preferido: caçar lagarta-fogo debaixo do clube, um casarão com a porta principal virada para a praça e os fundos com pernas compridas enfiadas nas águas do rio. O lugar era a nossa piscina, sendo as vigas de madeira entre as pilastras os nossos trampolins. E era também um bestiário, com lagartas, marimbondos violentos, borboletas amarelas, ninhos de passarinhos.

Mas na hora de sair, dona Alta ouviu o ruído no quarto dela. Vinha de algum lugar, era fino, insistente, como um coro de recém-nascidos à procura da mãe. Ninguém mais ouvia, só ela. Por isso, todo o mundo se amontoou no quarto, em silêncio, até que Hominho desse o alerta:

-Ouvi! Ouvi! É no guarda-roupa!

Dona Alta abriu a porta do armário grande, de madeira brilhosa. Tirou casacos guardados em sacos de plástico com naftalina, tirou cobertores grossos, tirou caixas, embrulhos e pacotes. Aí, gritou:

-Ah, meu Deus! É rato!

Hominho e eu pulamos na frente das mães. Passamos entre as pernas agitadas delas e olhamos para dentro do guarda-roupa. No canto, quatro filhotes, menores que dedos, com peles tão finas e sangüíneas quanto lábios de gente muito branca, tão delicados e ingênuos quanto olhos de crianças, procuravam a mãe, que tentava fugir com eles pela boca.

Dona Alta voltou para o quarto com uma vassoura grande, de cabo comprido. Mas minha mãe pediu:

-Vamos embora, Alta. A missa já deve ter começado.

E ficamos nós dois com a incumbência de dar sumiço nos bichos do guarda-roupa. Dona Alta explicou, palavra por palavra:

-Não presta, não serve pra nada, é horrível saber que isso existe. Mata e joga fora.

E ainda explicou:

-As roupas e as caixas, pode deixar. Quando eu voltar da missa, vou limpar o guarda-roupa com álcool para depois arrumar tudo outra vez.

Quando as duas mães saíram para rezar, com os véus, os missais e os terços, Hominho e eu nos agachamos em frente da porta do armário. Os ratinhos se espreguiçavam, esticavam as pernas e os braços, enrugavam as caras, apertavam os olhos pequenos, como se viver fosse atravessar a nado um rio largo, caudaloso e bravo. Com uma força magnífica, abriam as bocas à procura das tetas da mãe.

-Vamos levar eles embora?

Fui eu que tive a idéia.

-Mas a mãe falou pra matar e jogar fora.

-A gente não mata. Só joga fora.

E aí tiramos os sapatos pretos de dentro da caixa. Agarramos a mãe pelas patas, abraçamos os filhotes nas mãos e guardamos a família inteira debaixo da tampa de papelão.

O sol estava bravo quando pegamos uma das ruas muito retas de Baixo Guandu. Atravessamos a praça, descemos a ribanceira ao lado do clube e chegamos, então, no nosso esconderijo com piscina, trampolim e bestiário.

Lá, abrimos a caixa e soltamos a mãe com seus filhotes. Ela cheirou a viga com aflição, rodou sobre o próprio corpo várias vezes, arrastou o rabo na madeira e voltou para os quatros filhos miúdos, quase invisíveis, quase como orvalhos cor-de-rosa vivo. Depois, fomos para casa, pusemos os sapatos de volta no lugar certo e saímos para outro grande pecado, que era o de ir até o cercado da prefeitura para futucar os cavalos, que reagiam com coices bravos.

Por qualquer razão, talvez até falta de tempo, ou coisa mais banal, ou motivo mais sério ainda por entender, nunca mais voltei a Baixo Guandu. Só me lembro do delta das águas, do calor, das ruas muito retas e entrecruzadas. Lembro também dos véus, dos missais e do sino da igreja. E me lembro de 30 anos depois, quando minha mãe me perguntou, como quem, subitamente, puxa pela memória a notícia que já era para ter sido dada há mais tempo:

-Sabe o Hominho?

Olhei para ela, sentada na sombra da castanheira na beira da praia. Os olhos da minha mãe brilhavam. A boca se preparava para anunciar a tragédia. Eu ainda estava em silêncio, na observação desse desenho materno, quando ela completou a frase:

-Se matou.

Esperou que eu reagisse. E continuou:

-Tem uns dois anos já. Encontrei a dona Alta e ela me disse.

Então eu me remexi por dentro para querer saber as razões para se matar.

-Coitado, não agüentou. Tinha dívidas enormes, a mulher dele foi embora com os filhos. Chegou um dia em casa e deu um tiro nas têmporas. Que horror, meu Deus.

Pensei nele. E aí lembrei também que Hominho era capaz de atravessar, como ninguém, o encontro do Guandu com o rio Doce. Que sabia subir, sem escorregar, as pedreiras do morro atrás da serralheria. E que sabia levar ninho de passarinho de um lugar para outro sem machucar os ovos.

Mas foi então que voltou a voz da dona Alta, quando saía de casa, amarrada no luto, presa ao missal. Foi ela quem disse:

-Não presta, não serve pra nada, é horrível saber que isso existe. Mata e joga fora.

12.25.2005

A traição

Ti-Jean e Chris tinham uma vida inteira de coisas em comum. Além de serem amigos de infância, desde os primeiros dias de ir à escola, eram também, os dois, cada um do seu jeito, muito bonitos. Ela, a Chris, se serpenteava quando caminhava, com passos lentos, pelas ruas de Sète, onde a França se despenca em falésias para dentro do Mediterrâneo. Ele tinha o andar empinado, rígido, e, sem se importar com dias quentes ou dias frios, escondia as mãos nos bolsos.

Ti-Jean tinha os olhos insuportavelmente azuis e, por serem grandes e redondos, refletiam o azul contra o sol, contra a lua, contra as lâmpadas de dentro de casa. Ela tinha olhos amendoados, verdes, e, por isso, era conhecida como “Chris aux yeux de chatte”. Era Chris dos olhos de gata. Moravam juntos e dormiam na mesma cama do apartamento velho perto do mar. Numa almofada grande da sala, dormia Rita, chamada Ritá. Era a cadela sem raça, preta, de pernas compridas e olhar sonhador.

Ritá era uma farejadora contumaz. Cheirava tudo. De manhã bem cedo, esfregava o nariz na cama onde Ti-Jean e Chris tinham passado a noite. Vasculhava cada pedaço do lençol e das fronhas, numa intimidade assustadora e ciumenta. Depois, entrava no banheiro grande, de paredes pardacentas, e cheirava a toalha pendurada, o rolo de papel higiênico, a borda da banheira, a calcinha ou a cueca deixadas no chão.

Mas sonhava por Ti-Jean e era ele quem ela mais cheirava. Com o focinho úmido e gelado, percorria os óculos dele, à procura dos olhos azuis cintilantes. O nariz preto e carnudo arfava, se dilatava num ritmo acelerado e miúdo, enquanto cheirava as pernas dos óculos desde a parte atrás das orelhas até as lentes grossas, de míope grave. Gostava também de lamber as sobrancelhas do homem com quem sonhava.

Um dia, as coisas em comum se embaralharam, se intricaram, ficaram confusas e Ti-Jean e Chris decidiram que não iam mais viver juntos. Ele foi ríspido, seco, e viajou para Paris. Queria, finalmente, procurar emprego na cidade onde tinha nascido e que tinha deixado anos antes para viver no calor do sul do país. Chris e Ritá ficaram. Chris chorou na cama, atrás da porta, na cozinha, no banheiro, nas escadas do prédio e nas ruas, por onde andava malemolente e bela com os olhos verdes infernais. Ritá, não. Esperou três dias no corredor onde se abria a porta da rua. Depois, esperou na cozinha, no quarto e no banheiro. Mas não chorou. Apenas esperou.

Até que Chris chegou em casa e não encontrou a cadela preta. Procurou, primeiro, em todos os quartos e cômodos trancados do apartamento velho e imenso. Foi desde a porta da rua até o último quarto, nos fundos, atrás da parede onde ficava a lareira abandonada. Depois, procurou nas ruas, nas praças, nas alamedas. Pôs anúncios em bares, cafés e restaurantes.

E só aceitou o sumiço quando, um mês e meio depois, Ti-Jean voltou para fazer as malas de vez e apanhar Ritá, que havia desaparecido. Ele, com o rosto vermelho e os olhos azuis molhados de lágrimas traídas, xingou e acusou Chris que, então, se trancou no quarto e chorou sobre os olhos verdes.

Mas oito meses depois, ele voltou a aparecer em Sète, e viu, de perto, com uma proximidade quase provocadora, que Chris, sem sair do apartamento grande, inútil e velho, de paredes pardas, esquecia-se dele aos poucos. Para isso, ela abraçava, beijava e ouvia palavras de amor de Luc, o provençal, com olhos castanhos como os de Ritá.

Assim, Ti-Jean disse que ia ficar na casa de Poupette, a amiga enfermeira e gorda, que morava fora da cidade, num campo rodeado de lavandas e rosmaninhos. E foi lá, caminhando no bosque francês, de árvores mansas e flores suaves, que ele, um dia, ouviu um latido fino, sonhador, vindo de um quintal cercado por muro alto.

Olhou pelo portão. Lá dentro, a cadela preta, de pernas compridas, brincava com uma bola, vermelha e azul como a bandeira da França. Da sala da casa, uma mulher viu Ti-Jean no portão. Devagar, com cuidado e atenção, abriu a porta para perguntar o que ele queria. E chamou a cachorra:

-Milou!

E foi quando a Milou se levantou para ir até a mulher, que Ti-Jean, com o coração contorcido, com a voz embalada pela saudade, também chamou:

-Ritá!

A cachorra parou. O som veio de longe, de algum lugar remoto, de memórias velhas. Surpresa, olhou para o portão. Esperou, arfou o focinho e, só então, se preparou para correr em direção aos antigos olhos azuis. Pôs as patas da frente nas grades do portão, abanou o rabo e ganiu baixo, fino. Era o coração dela que também se contorcia. Em seguida, enquanto a mulher se aproximava, Ritá correu para dar a volta em todo o quintal. Ti-Jean e a mulher já estavam próximos um do outro. A cachorra apareceu na rua, solta e tonta de felicidade.

Ti-Jean decidiu que não ia explicar nada. O portão estava fechado, a mulher teria que voltar para apanhar a chave. Ele, então, se afastou com passos rápidos e chamou:

-Ritá, viens!

Ela foi. Levantou novamente as patas e se apoiou nas pernas dele. Cheirou as calças, a cintura, as mãos, a braguilha onde permanecia, forte e vivo, o mesmo aroma do lençol de antigamente. Os ganidos eram marcados pelos movimentos firmes e quase desesperados do rabo preto.
A mulher gritou:

-Milou, Milou!

A cachorra abaixou as patas e olhou para o portão. Sorriu. Olhou para Ti-Jean. Chorou com sons finos, quase inaudíveis. Abaixou a cabeça. Ele pediu que ela continuasse ao lado dele, mas a mulher voltou a chamar. Ritá parou.

A mulher e o homem se olharam. A cadela, preta como um pedaço de noite sem lua, voltou para perto de Ti-Jean e cheirou tudo, com a alegria ávida e tresloucada dos reencontros súbitos que não servem para nada, que não aliviam a saudade nem a pena da separação. Então, latiu alto, com raiva, maldade e dor.

Correu de volta pela rua até reaparecer no quintal, atrás do portão. Sem tirar os olhos de Ti-Jean, viu quando ele se afastou e começou a ir embora. Ela lambeu a mão da mulher e, mais uma vez, com ansiedade, correu para fora. Ele acelerou o passo, como quem foge, e ela acompanhou Ti-Jean. E chegaram na curva, onde a estrada estreita se sombreava com as copas das árvores mansas.

Ela parou e ficou sentada. Queria só ver Ti-Jean mais um pouco e esperava que ele desaparecesse das vistas dela. Ele, antes de sumir, ainda se virou para trás e pediu, sem dizer nada. Ela não se moveu. Ti-Jean olhou para a frente, como um homem traído, incapaz de contar o que sente e o que dói. Quis ficar, quis falar, mas foi embora.

Ela latiu e os latidos, debaixo das árvores de grandes copas, falavam dos olhos azuis dele, que não esqueceria nunca. Tremeu o focinho, guardou para sempre o cheiro de Ti-Jean e, sem querer deixar dúvida sobre a façanha de ser feliz após cada traição, voltou para casa.

11.28.2005

O vizinho

Quero falar de um homem, que é o meu vizinho. Talvez, com quase absoluta certeza, o meu cachorro Negão seja mais indicado para falar dele porque foi ele, o cão, que chegou perto, cheirou e ofereceu a cabeça para que a mão do homem tocasse e acarinhasse. Eu, não. Eu fiquei apenas com a parte que nos toca, que são as palavras.

O meu vizinho usa, sempre, bermuda e camiseta de aposentado. Tem cabelos grisalhos. E os olhos baixos, como quem olha para a terra e nunca para as pessoas. A primeira vez que nos vimos era de manhã muito cedo, quando o sol ainda é úmido e doce e se espalha sobre a grama como se pudesse gotejar.

Ele estava lá, em pé, em silêncio. Passei perto, não disse nada. Ele não deve ter me visto. Olhava para o chão e para a grama radiante com o sol dos primeiros minutos do dia, que são sempre calmos e serenos. Talvez seja mesmo verdade que ninguém sofre entre as cinco e meia e as seis horas da manhã.

Dias depois, conversamos. A conversa, na verdade, começou entre o meu vizinho e o Negão, que se aproximou para cheirar o ponto do chão para onde ele olhava de maneira persistente e fixa. Ele, o vizinho, sorriu. Negão se aproximou e cheirou as pernas, as mãos, a barriga. Aí, ficou sentado e recebeu carinhos na cabeça.

Nós dois fizemos a nossa parte:

-Bom dia.

-Bom dia.

Um ano antes, eram três da madrugada quando bateram na porta da casa dele para avisar que o carro do filho único, de 24 anos, tinha se espatifado contra uma árvore. O corpo esperava para ser enterrado.

Ele me contou isso como se já não fosse nada de mais. O filho único estava morto. Até mesmo olhei para os olhos deles para ver se algum sinal, alguma dor, lástima, pena, dó, saltava das pupilas. Tudo estava intacto.

Cinco meses depois, a mulher dele, por não agüentar a certeza da morte do filho, decidiu tomar o mesmo rumo. Deixou o coração se arrebentar e foi embora. O vizinho então ficou no apartamento igual ao meu: três quarto, mais um para a empregada, dois banheiros, sala, cozinha e área de serviço.

Mas na cozinha e na área de serviço, e também no corredor que leva para os quartos, as paredes estavam furadas por pregos onde ele pendurava as gaiolas dos passarinhos. De tamanhos, cores e penas variadas.

Era lá, no apartamento, que o homem sozinho, sem mulher e sem filho, convivia com uma multidão que cantava, batia as asas, pulava de poleiro em poleiro e, mais que tudo, mais que nunca, mantinha viva a vida. Porque a vida é como os olhos: coisa pequena, delicada, apenas uma película muito frágil, e que, ao mesmo tempo, é capaz de abarcar o mundo inteiro.

Era isso que ele entendia quando estava acompanhado dos seus passarinhos espalhados pelo apartamento vazio. Até o dia em que ele colocou ovos numa panela com água no fogo para, depois, alimentar os amigos.

E, aí, procurou o sofá para se sentar. Sentado, pensou na mulher, no filho, era fim da madrugada, não tinha barulho que viesse de fora, e ele dormiu sentado. Quando acordou, uma fumaça densa saía da panela deixada em cima do fogão. A água tinha fervido e secado. Os ovos estavam pretos, queimados e grudados no fundo da panela.

Ele tossiu quando entrou na cozinha. E nas paredes, em todas as paredes da casa onde tinha gaiolas penduradas, estavam os corpos dos passarinhos sufocados.

-Eu abri as gaiolas, uma por uma. Peguei os passarinhos, um por um. Coloquei em cima da mesa, um corpo ao lado do outro. Ao lado deles, minha mulher e meu filho. Era como se eles dois estivessem ali também.

Ele desceu as escadas do prédio, o mesmo prédio em que eu moro, e foi até a grama, que ainda estava escura no fim da madrugada. Com uma colher, abriu pequenos buracos e enterrou todos, um por um. Até que, finalmente, conseguiu também enterrar, de uma maneira pessoal e particular, a mulher e o filho.

O Negão cheirou a mão dele, sem tocar o focinho. Ele acariciou o cachorro, outra vez. Nós, de novo, fizemos a nossa parte:

-Deve ser difícil para você.

-A gente se acostuma. E vai levando a vida.

Olhei para o Negão, calmo e firme como um anjo, sentado sobre a terra do pequeno cemitério do meu vizinho.

11.24.2005

Uma coisa que aprendi com ele




O meu cachorro Negão, que, quando não está encardido, é todo branco, e mede 1,75m em pé, o que basta para que passe a língua na ponta do meu nariz sem grandes esforços, tem alguns medos. E é incapaz de negociar, já que faz questão de deixar bem claro que medo é medo, e que ser adulto não significa desmerecer o que grudou à personalidade desde os primeiros meses de vida.

Ele tem medo de cachorro pequeno, destes bem miudinhos, que levam a vida como bibelô. Quando eles latem irritantemente fino, várias vezes, o meu Negão recolhe as orelhas, guarda o rabo e se esconde, inteiro, atrás das minhas pernas. Talvez por tique nervoso, lambe o próprio focinho várias vezes, o que serve para mostrar a angústia que está sentindo no momento do cruel ataque do cachorrinho, que costuma vir com laços nas orelhas ou no alto da cabeça.

Tem medo, ou seria melhor dizer pânico, do barulho dos plásticos ao vento. E nisso é irredutível: não entra em carro que tenha, solto no banco traseiro ou dianteiro, alguma sacola de supermercado, não anda do lado do meu corpo onde estiver a mão que carrega compras de padaria e mercearia e, principalmente, se arrepia até os confins do rabo quando vê imensos sacos de lixo deixados na calçada à espera do caminhão de lixo.

Também se assusta com pessoas, qualquer uma, que se aproximar com alguma coisa, qualquer coisa, na cabeça. Pode ser chapéu, boné, filho novinho levado no cangote do pai, vendedor ambulante que carregue espelhos, cestos de vime, trouxas de artesanato.

Estes medos são coisas dele e eu respeito. Também respeito os faniquitos dos amigos humanos quando gritam diante de baratas ou ratos, que, a bem da verdade, são bichos que não me provocam nada – nem asco. Compreendo (sem esconder um certo risinho, é bom que se saiba) quem tem pavor a túneis, barcos em mar aberto, trovões e relâmpagos, assim como espero que compreendam o pânico primordial que se instala no meu corpo quando tenho que me sentar numa poltrona que, depois, levanta vôo e cruza os oceanos.

Mas, às vezes, acontece que o meu Negão não mostra medo. Mostra, pelo contrário, desagrado e certa revolta. Sei disso porque os pêlos da nuca se arrepiam, ele dá dois passos para trás e se coloca em posição de ataque. Já tentei convencer o meu cachorro de que não gostar de uma ou outra pessoa é contingência da vida em sociedade, mas que, por isso mesmo, é preciso uma certa diplomacia e um bom fingimento sobre estar tudo bem. Ele discorda. É sincero e espontâneo demais.

Na padaria onde gosto de tomar o café da manhã nos domingos, depois de uma longa caminhada a dois, veio, uma vez, uma moça loira fazer afagos no Negão. Chamego é coisa que ele nunca recusa, mas, desta vez, notei, logo na primeira aproximação, que os arrepios do pêlo da nuca tinham começado.

A moça bonita e loira falou:

-Mas que cachorro bonitão, meu Deus do céu.

Que ele é bonito, eu sei. Todo mundo sabe e quem não percebe isso é insensível e insensato. Ou incapaz de se enternecer com as belezas que a vida oferece. Pelo tom de voz da moça bonita, vi que era um travesti: uma voz que nasceu para ser rouca e que, a custa de alguma esforço, se afinou com falsidade e, por isso, ficou mais bamba na boca do que dentadura de dentista ruim.

Ele latiu. Achei estranha a reação porque, com toda a sinceridade, não criei um cachorro para ter rejeição à vida íntima das pessoas. A moça ainda insistiu um pouco e quis se aproximar mais. O meu Negão se levantou, mostrou que era alto, e latiu de jeito bem grosso, que é um latido que ele reserva para situações extremas.

A moça então, com um sorriso gentil, doce e compreensivo, me contou:

-Não é culpa dele, sabe? É que sou alcoólatra.

E me olhou. Eu olhei também e alguma coisa, tão frágil e imperceptível quanto o sereno do começo das noites, me convenceu que ela, apesar de bonita, já tinha se acostumado a ser evitada e pouco amada. A moça, então, ficou parada ali, em pé, na frente do Negão. Tudo nela queria fazer carinho nele e tudo nele queria evitar o que devia tresandar a bebidas. Ela pedia carinho, de quem fosse: meu, do meu cachorro, das outras pessoas na padaria. Sabia sorrir, mas era sorriso vazio, solitário, perdido.

Acariciei a nuca do meu Negão. Ele se acalmou. Pouco a pouco a moça bonita chegou mais perto. O meu cachorro ainda relutou um pouco, mudou de posição algumas vezes, lambeu o focinho, que é coisa que faz quando está ansioso. Mas, depois, de mansinho, deixou que a mão dela tocasse o pêlo branco dele.

E foi bem ali, naquele momento quase banal em varanda de padaria, que compreendi mais ainda o que tenho tentado compreender há anos. Que é também com a sinceridade das nossas próprias mazelas, amarguras, infelicidades, azares, que a gente ganha e merece afeto, carinho e doçura.

Ele não desejou nem quis que ela deixasse de ter o cheiro das bebidas. Fechou os olhos cor de mel e aceitou o afago. Esta capacidade de ser bom e de amar a pessoa exatamente como ela se apresenta é o que estou aprendendo com o meu Negão.

11.17.2005

Os dois filhos de Shantung

Vítor Emanuel era mais velho que Miguel, mas eram, os dois, filhos de Shantung, a gata que se recusou a morar em Brasília e se mudou para a Vila Mateus, a casa da roça, com varanda, janelas azuis e parede branca e plantas e flores que nunca freqüentaram xaxins ou vasos de cerâmica. Desde que nasceram, viveram sempre em latas de óleo furadas no fundo a golpes de prego.

Vítor Emanuel era magrelo, com olhos enormes, todo preto. Apenas uma marca branca no pescoço, debaixo do queixo, parecia ser uma gravata borboleta. Por isso, por essa elegância de berço, recebeu nome pomposo, que ele sempre recusou, por ser do campo – sendo, desta forma, conhecido como Flecha. Mas era Vítor Emanuel. Pelo mesmo para mim.

E era Flecha por causa da extrema velocidade, em qualquer situação. Para correr atrás de fêmeas, para afugentar machos, para se recolher diante de qualquer ameaça de afago que era, das atividades humanas, a que ele mais detestava e evitava. Somente a mãe, a pequena Shantung, tinha autoridade sobre ele, inclusive para dar lambidas amorosas e patadas violentas.

Miguel era o contrário: gordo, muito gordo, todo branco, com um traço preto entre os olhos, como se fosse uma pincelada fortuita da Tomie Otaki. Por isso, não era bem um gato. Era uma instalação artística. Além disso, era a felicidade com formas de felino.

Tudo nele era feliz. O meneio do rabo, os movimentos precisos das orelhas, o olhar esperto, a gordura excessiva, a brancura do pêlo e o miado sedutor. Além disso, de uma maneira muito peculiar, Miguel tinha nascido para ser rico e viver no luxo, para dormir em almofadas de seda oriental, para beber água mineral francesa e comer filé minhom.

Quando a mãe morreu, Miguel subiu no galho mais alto da árvore mais alta do quintal da Vila Mateus e ficou lá um dia inteiro. Queria, a seu modo, evitar a visão da tristeza que foi enterrar a dona da casa. Ele tinha a obrigação de ser feliz. Tinha sido gerado para isso, Miguel sabia.

Vítor Emanuel, que nunca entrava na casa, que nunca relaxava nem mesmo quando se deitava ao sol no muro baixo da varanda, que não consentia aproximações humanas, ficou subitamente imóvel diante do corpo de Shantung. Depois, passo a passo, como se pisasse em veludo precioso, chegou perto e cheirou, como se não quisesse tocar, todo o corpo da mãe. Depois, cheirou também demoradamente o ar, olhou, pela primeira vez, para cada uma das pessoas que se reuniam em volta do corpo, deu um pulo grande, forte, até o alto do portão da cerca e observou a paisagem goiana.

De lá, foi embora depois de se despedir apenas da mãe, e de mais ninguém. Sem olhar para trás, sem se importar com os três anos de vida vivida ali na casa branca de janelas azuis, desapareceu para sempre. Eu ainda esperei Vitor Emanuel, o grande Flecha, por alguns dias. Ainda coloquei água e comida para ele, no mesmo canto da varanda, mas, pouco a pouco, compreendi que era ela, a gata bonita, a única razão para ele conviver entre pessoas. E se ela tinha ido embora, era chegado o momento, para ele, de fazer a mesma coisa.

Miguel, não. Dias depois da morte da mãe, virou adulto. Perdeu alguns quilos, resolveu ser esbelto, e ganhou um interesse vivo, acentuado, premente, por todas as gatas da vizinhança. E cada uma delas, grávida, ia morar no quintal da Vila Mateus. Às vezes, a ninhadas nascia debaixo do pé de lima. Outra vezes, dentro do galinheiro velho. Ou entre os pés de mandioca. Do muro da varanda, Miguel observava, com um certo ar de maturidade, os novos filhos que, com pernas ainda bambas, se aventuravam na grande e inesquecível experiência de conhecer o mundo.

Miguel tornou-se um grande amigo meu. O sorriso dele, permanente, escorria na minha alma com uma gentileza e uma doçura que se imprimiram nas fibras do coração para sempre. Quando subia no meu peito, dobrava as pernas e se tornava um novelo de lã, ronronava como quem conta segredos e faz declarações de amizade eterna.

Na companhia de Lula, o cachorro, ele passou também a cuidar da casa. Lula se ocupava dos outros cães, dos cavalos, das vacas lerdas que insistiam em comer os pés de milho ainda no broto. Miguel era responsável pelas maritacas que iam tomar café da manhã nas bananeiras e no abacateiro, e também se responsabilizava pelos outros gatos machos.

E tinha o dom da coisa. Cada gato que pulava a cerca e se arriscava no território era motivo de alarde e algazarra. Miguel pulava no parapeito da janela, se arrepiava do rabo até os bigodes, emitia sons roucos, apertava as orelhas para trás e partia para o ataque, com um sorriso de satisfação imenso. Quando a luta acabava, ele voltava, com o rabo e os pêlos mais reluzentes e felizes do que nunca, e contava os detalhes da batalha. Miava alto, como para anunciar que o reino ainda era dele. E, depois, se enroscava no cobertor eternamente estendido sobre a cama de casal, unhava cada pedaço dele, e só então se deitava.

Até que um gato aventureiro foi mais forte e traiçoeiro. Nem mesmo Lula conseguiu acudir a tempo. Uma mordida forte no pescoço paralisou Miguel, que caiu no chão com a brancura do pêlo manchada de vermelho vivo e jovem.

Olhei para ele. Acho que ainda sorria. Era um sorriso suave, amigável, o que marcava a boca do Miguel, deitado na laje debaixo do caramanchão de boungainvilles.

Compreendi. Ele tinha vivido e morrido como quis. Na alegria sem fim de ser Miguel.

11.15.2005

O mundo raro

A arraia mora no fundo das partes mais fundas dos rios profundos porque, lá, a comida é boa e farta. Há quem prefira ter uma em casa porque, com o rabo comprido e a leveza no jeito de nadar, como se fosse uma pipa levada pelo vento, ela pode ser enfeite de aquário.

Mas tem ferrão violento, e foi assim que o meu pai, pescando no rio Guandu, no ponto em que ele deságua no rio Doce, sentiu uma ferroada quase mortal no dedo indicador. A dor começa imediatamente. São marteladas fortes quando o veneno entra e faz borbulhar o sangue.

Foi aí que Ronaldo, o companheiro das pescarias, lembrou do remédio mais efetivo contra ataques de arraia: xixi de mulher grávida.

O mundo é lugar de coisas eficientes, mas raras. Quando o rio Guandu encontra o rio Doce e faz um delta manso e barulhento, a paisagem, no extremo oeste do Espírito Santo, fica mais elegante, e o encontro das águas enfeita tudo – o pasto, as taboas, as pedras, o sol refletem os rios e brilham de maneira ofuscante.

E o caráter raro do mundo surge justamente quando, depois de uma dificílima picada de arraia, o acidentado tem que encontrar, ali mesmo, uma mulher que leve filho na barriga. E que esteja com vontade de fazer xixi. Mas, a bem da verdade, o mundo inteiro sempre foi salvo pela conjunção de raridades.

Por isso é que um dos homens que também pescavam no rio Guandu estava para ser pai e sua mulher, já avançada nas artes da gravidez, estava em casa, que não era longe dali.

Enquanto meu pai se contorcia e espremia o dedo ferido com a outra mão, para suportar a dor que insistia em se espalhar pelo braço todo, o Ronaldo pediu:

-Ela pode ajudar?

Ele relutou. Olhou para Ronaldo, olhou para o meu pai. Naquela época, eram todos homens novos, forte e bonitos. E, além disso, um dele estava com o dedo hirto, grosso e inchado. Parecia ser intimidade demais. Mas meu pai já estava sentado numa das pedras da beira do rio e mal conseguia falar.

Chamaram a grávida que veio em seguida perguntar o que era. Explicaram. Ela deu dois passos para trás. Olhou o marido, que também não sabia muito bem o que dizer. Meu pai se deitou sobre a pedra. Já não conseguia dizer mais nada. Os olhos dele, a pele, os cabelos, a boca avisavam que doía.

Ronaldo tentou ser razoável:

-É como todo o respeito, não é hora de abusar de ninguém.

A emergência, então, foi montada. O marido, cuidadoso, providenciou um pedaço de pano que foi usado para cobrir os olhos do meu pai. Foi ele também, o marido, que esticou o braço do meu pai sobre a pedra pra que mão e corpo ficassem na maior distância possível um do outro.

Os outros pescadores foram retirados do local, ficando apenas a vítima, a grávida e o pai da criança por nascer. Foi nesse momento que ele perguntou:

-Sua bexiga está cheia?

Não estava. Ele foi até a casa, apanhou uma moringa pequena e um copo. Ela bebeu. Voltou a beber. Bebeu mais. Esperou. Meu pai se contorcia. Ela, talvez até por dó, sentiu que estava na hora. O marido apertou mais ainda o pano sobre os olhos do meu pai e chamou a esposa:

-Vem.

Ela se aproximou, retirou a calcinha, levantou um pouco o vestido e, em silêncio, agachou-se sobre a mão do meu pai. Fez um pequeno esforço e, aí, o xixi, quente, vibrante, forte, tocou o dedo ferido. A vítima ficou imóvel, à espera do milagre.

E, depois, ela mesma, por saber, como esse jeito feminino de saber quase tudo, que era capaz de criar vida, alimentar, ensinar a falar, empurrar para crescer e ficar forte e, também, capaz de salvar, espalhou, com a própria mão, o xixi sobre o dedo ferido, como quem espalha ungüento em machucado de filho.

Vestiu a calcinha e avisou que o pano já podia ser retirado dos olhos do meu pai. Eles se olharam, com timidez, mas ele sabia que era devedor dela. E sabia também que o sexo feminino é muito mais do que um homem pode supor ou querer. Ele é a porta do mundo.

Meu pai agradeceu em voz baixa e ela, em voz baixa também, disse:

-De nada.

E voltou para casa. Os pescadores voltaram pouco a pouco. A dor se rendia, o dedo começava a relaxar. Meu pai continuou sentado sobre a pedra, ouvindo o barulho constante, ritmado, gentil das águas do rio Guandu entrando para sempre no grande rio Doce.

E viu, com os olhos dele, que tudo brilhava: as terras baixas do Espírito Santo, o pasto que ladeava os rios, as pedras roliças e lisas, o céu e as coxas da mulher, que também devem ser mencionadas quando se fala das belezas do mundo raro.

11.14.2005

O primeiro final de semana

Parece que ...E por falar em homem... está dando certo.
Casa sempre cheia de gente, cadeirinhas extras.
E,sobretudo, acabaram-se os desastres.

Exceto, ontem, claro. Contei uma historinha, o público caiu na gargalhada e eu não resisti. Ri junto.
E ri, ri, ri, ri.

Na cabine, Abaetê, o iluminador, dava gargalhadas deliciosas, irresistíveis.

Sensações deliciosas:

-chegar ao teatro e a bilheteira informar, com um sorriso gostoso, que já está tudo vendido;
-ouvir o burburinho animado do público naqueles cinco minutos antes da peça começar;
-ouvir o silêncio súbito quando é dado o terceiro sinal e a luz se apaga - é quase uma solenidade, isso;
-ajeitar-se na coxia, pigarrear, esfregar as mãos quando faltam 30 segundos para você colocar o pé no palco e
-pisar no palco e encarar as pessoas que, com apreensão, esperam para ver o que vai acontecer.

Isso que acabei de dizer aí em cima é como se fosse um vício. O prazer entrar no sangue da gente e, pronto, você sempre quer mais uma dose.

Bom, a partir de quinta tem mais. Aleleuia.

11.12.2005

A estratégia dos tomates

A Turca morava, ela e um cachorro, num casarão antigo, amplo, estranhamente vazio. Ela era bonita, e os cabelos dela, pretos, crespos e alvoroçados, quando estavam presos por uma fita, lembravam um ramalhete de flores, ramos e capins prontos para serem dados de presente.

Mas o casarão era estranho. A porta de entrada era grande, tinha duas bandas, que sempre se abriam juntas, como se fosse uma solenidade ir visitar a Turca e entrar na sala onde, perdida no meio de um espaço imenso e silencioso, tinha apenas uma mesa simples, de madeira, e seis cadeiras que combinavam.

E era lá que minha mãe, a costureira da cidade, ia quando queria comprar lingerie, malhas, lenços finos e exemplares da revista alemã Burda. Os produtos da Turca estavam sempre empilhados em cima da mesa, como se a casa dela fosse uma loja em permanente liquidação. Zelosamente, minha mãe enfiava a mão no monte de panos e puxava, pela cor, o que achava mais bonito.

Eu não gostava do casarão da Turca. Tudo parecia triste, solitário, encardido. E a imensidão do espaço me deixava desorientado. Por isso, eu me sentava numa cadeira e ficava ali, sem dizer nada, à espera do fim das compras.

Mas a Turca sabia tratar bem os fregueses dela. Então, olhou para mim e me perguntou se eu queria comer alguma coisa. Em situações assim, estando na casa dos outros e recebendo uma oferta, um ritual sagrado tinha que ser comprido à risca. Antes de responder, era obrigatório, para mim ou para qualquer um dos meus dois irmãos, olhar, com discrição, para a minha mãe e esperar pelo consentimento ou pela proibição, que vinham em forma de um leve, imperceptível para olhos não acostumados, meneio da cabeça.

Eu fiquei calado, sem olhar para os lados. A Turca insistiu:

-Um doce de tomate. Delicioso. Quer?

Senti um fio fino, gelado, percorrer todo o meu corpo. Não conseguia supor o que poderia ser mais tenebroso do que um doce feito de tomates. Mas a minha mãe, em pé perto da mesa, dirigiu os olhos para mim e balançou a cabeça, suavemente, de cima para baixo. Isso não era apenas um conselho, uma sugestão para aceitar. Era uma ordem. Com a garganta seca, com um fiapo de voz, temendo pelo futuro, respondi:

-Sim, senhora.

-E você, Irene, aceita também?

-Não, obrigada.

Odiei minha mãe.

Alguns minutos depois, a Turca voltou da cozinha. Atravessou a sala com passos solenes, fatais, em minha direção. Eu estava sentado, numa cadeira de espaldar reto, perto da janela. Na mão, ela trazia um prato pequeno onde estava deitada uma colher inocente ao lado de uma pasta assassina, cruel, vermelha, como se fossem lavas do inferno. Era o doce de tomate.

As duas voltaram a se entreter com as malhas. Dei a primeira colherada. Um sabor de gororoba tocou a ponta da minha língua. Fechei os olhos, deixei o doce se desmanchar na minha boca, parei de respirar e, só então, engoli. Eu não ia resistir e não sairia vivo da experiência.

Olhei para a imensa vermelhidão no prato de sobremesa. Cheguei mais perto ainda da janela, encarei o quintal, fiquei de costas para as duas e, de uma vez só, como se tivesse ouvido um disparo que anunciasse o começo da corrida, joguei o doce fora. Todo. E, quando me virei para encarar minha mãe, tive o cuidado extremado de lamber a colher.

-Aceita mais?

Fui mais rápido que o olhar da minha mãe:

-Não, senhora. Obrigado.

E me sentei novamente, aliviado, em paz comigo mesmo. Eu havia me livrado da morte por envenenamento e olhava, vitorioso, para as duas torturadoras que discutiam a qualidade da malha.

Foi aí então que ouvimos um pequeno barulho na cozinha. Eram passos miúdos, lentos. Com os olhos sorridentes, com o rabo que se movia lentamente, com um carinho insuportável, o cachorro da Turca entrou na sala e caminhou vagarosamente até a mesa. Os olhos das duas mulheres se dirigiram para o mesmo ponto e eram frios, calculistas, mortais. Das costas do cão escorria uma massa disforme e vermelha. Era o doce de tomate, o mesmo que eu havia jogado fora pela janela que, em vez de cair no chão e se perder na terra, tinha ido pousar nos pêlos do bicho.

Ele se sentou, doce e bom, perto da Turca. A gosma então passou a escorrer das suas costas até o chão. O silêncio e a imensidão da sala aumentaram. Os olhos da minha mãe me procuraram, como se fossem holofotes de campo de concentração. Dentro de mim, três gerações de homens gritaram, impotentes diante do poder daquela mulher de pele branca, cabelos loiros, olhos castanhos, quase pretos, boca carnuda e 1,49m de altura poderosa.

Senti que meu fim estava próximo. Minha mãe dobrou caprichosamente as malhas e as lingeries, como se calculasse vinganças. Com um tom de voz perigosamente educado e controlado, disse que, desta vez, não ia comprar nada. Elas se despediram. Quando as duas bandas da porta se trancaram e nós ficamos sozinhos na calçada, a mão de minha se fechou em volta do meu braço e as unhas, pintadas de vermelho, entraram, lentamente, na minha carne.

Era uma dor fina, ardida, insuportável. Aquele apertão materno, sempre dado em ocasiões sumamente especiais, era um treinamento para todos os sofrimentos futuros que a vida pudesse me reservar. A voz dela veio firme, baixa, imponderável:

-Em casa a gente conversa, senhor Alexandre.

Ninguém, na rua, parecia se dar conta de que eu tinha acabado de ser jurado de morte.

11.11.2005

Relato simples e sincero da estréia



9 da noite. O Teatro Goldoni, aconhegante e simpático, está bem cheio. Cadeiras extras e gente sentada no chão. Eu, sozinho lá no camarim, dou minha rezadinha de costume. Dou também uns três ou quatro pulos para sair do torpor da ansiedade, e me preparo para entrar.

Cai um toró. Destes brasilienses, de rachar o globo terrestre no meio. O teto do teatro se transforma num pandeiro enlouquecido. Para começar a peça, tenho que levantar uns dois tons da minha voz, o que não é tão simples quanto parece: eu vinha de três meses de ensaio com a voz colocada de uma maneira, que teve que ser alterada. Imaginem algo como um corredor que treina 100 metros e chega no dia e avisam que vai ter que correr 200m.

A peça vai em frente. Gargalhadas. Estréia é assim mesmo. Agitação, vontade de gostar.

Um raio cai. Explosão. E, de uma vez só, como um susto, acaba-se toda a luz do teatro. Escuridão absoluta. Uma voz pede:

-Continua! Ouvir também vai ser bom!

Um rapaz liga a luzinha do seu celular, caminha até o palco e me entrega o aparelho:

-Use até acabar a bateria.

Ilumino o meu rosto e pergunto se está bom. Dizem que está perfeito.

Outro celulares se acendem.

Arthur Tadeu Curado, o diretor, chora na cabine. Chora mesmo, de emoção.

A peça continua no escuro.

A luz volta. A peça vai em frente e entra na reta final. Eu, cansado por causa dos malditos dois tons acima.

Fim.

(Hoje é que vão ser elas. Não é mais estréia. É temporada mesmo. Destas que tem que ter gente comprando ingressos todas as noites para podermos ganhar dinheiro e seguir em frente.)

11.10.2005

...E por falar em homem...

É HOJE!!!!!!!!!!!!!!!!!

ÀS 21H ESTAREI ENTRANDO NO PALCO.

OBRIGADO PELOS VOTOS DE MERDA.

E MERDA SERÁ!!!!!